Personagens sem noção – o velho problema

Em 2009 escrevi um artigo intitulado “Personagens sanguinários e o fogo amigo”, no Paragons, onde falei sobre personagens dos jogadores que ficam o tempo todo descendo o cacete ou passando a espada uns nos outros ou em desafetos, só porque podem.
De lá pra cá muita coisa mudou na minha mentalidade e do meu grupo em geral, e posso dizer que algumas coisas melhoraram, outras não. Nos últimos fins de semana de jogos tive bem a prova dessas diferenças e vou imprimir tudo aqui.
Jogando a mesma campanha de D&D que dei exemplo nesse post de dois anos atrás, dois personagens chegaram a um ponto onde o conflito físico foi inevitável. Em um navio, o guerreiro começou a briga com o ladino depois de tocar no assunto que era a treta entre eles, e mesmo com o bárbaro tentando – em vão – separá-los, foram até o fim, com o ladino sangrando no chão e o guerreiro indo lamber suas feridas.

Por um lado isso foi ruim para a sessão, já que perdemos por volta de duas horas nesselengalenga, mas era algo necessário, porque o grupo vinha passando por um período muito desagradável de mágoa e desconfiança, e eu sinceramente achava que ia acabar se separando e arruinando a campanha.
Os motivos nem vou dizer aqui porque são muito novela-mexicanísticos, mas envolvem a feiticeira do grupo traindo seu namorado guerreiro com o ladino e etc. Dependendo do que acontecer na próxima sessão, já que para o guerreiro “we’re cool” depois dessa pancadaria, a previsão é de melhora para a dinâmica do grupo e da mesa em geral.
Além do mais, antes de irem para as vias de fato, os personagens adiaram muito este momento e trabalharam juntos sem ficar com picuinha, justamente por conta dessa maturidade maior tanto de seus caras, quanto dos próprios jogadores.
Depois da sessão conversei com cada um em separado, e ao contrário do que pensei, nenhum dos dois guardou qualquer ressentimento e estava tudo de boa. Isso é muito bom, porque sempre tive problemas em mesas cujos personagens não se bicavam ou tiveram alguma rixa, porque os jogadores levavam para o lado pessoal.
Pra mim esse tipo de cena com tensão, discussão e briga (mesmo entre um NPC meu e um PJ) é muito constrangedora, porque eu mesmo não curto muito discutir e brigar – sou meio rancoroso e pavio-curto, então procuro evitar.
Mas eu sei que essas coisas acabam sendo necessárias no âmbito do jogo, dentro de certos limites; de um lado da balança a diversão, e do outro a história. Eu gosto de ficar no meio. Então, posso dizer que nisso, de lá para cá as coisas melhoraram.
Porém, ainda vejo muitos jogadores agindo dentro do jogo sem muita preocupação com seus personagens. Forçando combates em situações que poderiam ser resolvidas na conversa, se jogando em cima dos perigos de forma totalmente suicida porque sabem que eu tenho dó de matar personagens e, naquele mesmo esquema que acusei no outro post, atirando e atacando os outrossó porque eles ficam no seu caminho.
Veja bem, ao jogar RPG, nós jogadores sempre estamos ao redor de uma mesa, em casa, com salgadinhos e bebidas, rindo e enjoyando juntos. Ou seja, em um ambiente controlado. Quando acaba a sessão, vamos pro buteco e depois dormir tranquilos. Os personagens, não (quer dizer, nem sempre): geralmente eles precisam conviver durante o resto da vida com as mortes que causam, e arranjar um jeito de botar a cabeça no travesseiro à noite com as consequências que suas ações provocam.
Então, na minha opinião, não custa nada fingir um pouco – afinal, RPG é sobre isso – e pensar rapidinho em como seu personagem se sentiria depois de estourar os miolos de um cara possuído ou apontar a arma pra alguém colaborar. Além da consciência pesada, ainda há fatores como a lei (em alguns settings menos, noutros mais) e a honra.
Eu costumo dizer que se seu personagem não tem o menor escrúpulo de matar quem quer que seja, ou ameaçar com a arma na mão, e usa esse tipo de coisa pra resolver tudo, é um completo psicopata, alguém perigoso que vai acabar sendo caçado. Então, ou você está interpretando errado, ou realmente virou um vilão.
Sendo assim, passei a rever minha política de TPK (hehe), mas nos casos mais recentes preferi conversar com o jogador fora do jogo, justamente por gostar dos personagens. Acho que quando escrever pela terceira vez, daqui há alguns anos, esse problema tenha sido superado também!

2 comentários em “Personagens sem noção – o velho problema

  1. Esse é um problema no meu grupo, jogadores que agem sem dar importância as consequências dos seus atos no jogo. Não fazem questão de interpretar muito, para eles interpretar é fazer galhofa, levar tudo na brincadeira.

    Quando eu tento mostrar as consequências das atitudes deles no jogo, eles dizem que isso é só um jogo e que não precisa imitar a realidade!

    É um saco isso! Espero que um dia melhore isso por aqui.

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