Aquele velho projeto de cenário de D&D

Todo mestre tem aquela vontadezinha de inventar seu próprio cenário de campanha de fantasia, isso quando já não narra em uma criação sua. 
Depois de alguns anos narrando em cenários como Tormenta e Forgotten Realms e modificando muita coisa neles (não consigo usar coisa pronta sem mudar demais), fico sendo incomodado por essa ideia que fica pululando lá no fundo da cachola, de botar pra frente um mundinho pra chamar de meu, mesmo que seja só pro meu grupo (que tem se mostrado bem colaborativo nos últimos tempos) jogar.
Ele tem grandes inspirações de Conan, Iron Kingdoms, Bernard Cornwell, Dragon Age e demais settings de dark fantasy ou low fantasy. Depois que comecei a definir as coisas dele, achei muitas semelhanças com o cenário Legião, do Antonio ˜Mr.Pop˜, e derrepente poderei usar algumas ideias nele ou dele. 
Na verdade é um cenário que leva meu estilo de mestrar, coisas da fantasia que eu gosto e divagações gerais sobre os elementos de D&D, então não se trata de uma obra-prima inovadora nem nada. Por isso nem penso em tentar publicar (não guardo ilusões sobre isso) ou algo assim, mas estou compartilhando aqui porque contém pensamentos e ideias que podem ser aproveitados por alguém que ler pra ajudar nas suas próprias campanhas ou criações. Se por acaso você curtir ou quiser usar alguma coisa daqui, comenta aí e me ajuda com o brainstorm!

O mundo ainda sem nome
História
O mundo tem um surgimento vagamente evolucionista, com várias teorias de origem de todas as coisas dependendo da raça, etnia e/ou credo, para gerar discussões e guerras fervorosas de opinião filosófica. 
Mas a história mais “padrão” seria contada mais ou menos assim: a vida surgiu no mar e assim que alcançou a terra teve contato com fontes absurdas de magia, dando origem aos dragões e outras criaturas mágicas poderosas (aberrações, etc.). Os dragões escravizaram e usaram as criaturas mais fracas, e outros poderosos procuravam a comunhão. 
Essas discordâncias lançaram os dragões em uma longa guerra com os primordiais (raça ancestral). Enquanto para os lagartos os séculos passavam como minutos, os mais fracos mudavam com o isolamento geográfico, peregrinações, áreas de magias, miscigenação com dragões, etc. 
Surgiram embriões de anjos, demônios, elementais e coisas assim, e quando o sangue diluiu mais apareceram humanos, elfos, draconatos, tieflings e outros.
Houve um evento épico (talvez um encontro entre dragões fodões e cansados de brigar com os que estavam bem com a situação) onde a luta megaboga causou aqueles efeitos poéticos de cataclismas, oceanos que secam e falhas geográficas. 
Um primordial rogou ao espírito do mundo para intervir (Gaia?) e se sacrificou, tornando-se uno com ele e a primeira divindade da terra. Com o poder bruto oferecido pela natureza, ele parou a batalha e delegou o governo de regiões isoladas aos dragões. 
Os que discordaram foram banidos a um plano elemental inferior, para o lugar que viria a ser o inferno e para os confins do universo (o reino distante ctchuliano) ou se esconderam nas entranhas do mundo. 
Os primordiais mais antigos ficaram junto de seus mestres, se tornando anjos, demônios, gênios, etc.
Quando o impasse acabou, o mundo estava em caos e ferido. Muitos dragões morreram e os primordiais deixaram para trás impérios em ruínas. As raças restantes se adaptaram ao mundo devastado e ele continuou. Mas o espírito caótico e lutador já estava impregnado nos mortais. 
Eles continuaram batalhando, erguendo e derrubando impérios, detonando a terra e se impondo. Alguns puderam desafiar os deuses dragões, sendo que um grupo deles simplesmente matou um deles e tomaram a centelha divina, formando panteões. Foram idolatrados no começo, mas logo atraíram outros mortais querendo seguir seus passos. 
Desde então, os mortais vivem e morrem em uma ingrata caminhada rumo ao destino, tentando sobreviver ou manter um legado, em uma terra brutal, gigantesca, fervilhante de raças, guerras, monstros e poderes.
Raças e culturas
Assim como a maioria dos escritores de fantasia, gosto de me basear em culturas reais, e decidi que cada raça do meu mundo terá aspectos e lembrar uma, de forma mais ou menos sutil. A ideia é que o meio formou as raças como formou as etnias da Terra.
Anões: sendo oriundos da cultura nórdica, pensei neles como nativos das cordilheiras e regiões montanhosas do extremo norte, de leste a oeste (Rússia + Escandinávia e tal). Descendentes diretos dos primordiais da terra (que se tornaram elementais e gênios), seguidores de dragões de prata, libertados da escravatura dos gigantes pelo herói(na) que se tornou sua divindade. Não seguem o deus dragão de prata por mágoa da não-interferência em séculos de servidão. São nodosos e atarracados, com 1,30 a 1,60m de altura.
Daevas: a raspa do tacho dos primordiais. Formaram impérios que duram até hoje, destruíram o império dos tieflings e outros, e se afastaram do mundo, isolados nos ermos e se suicidando para suas almas voltarem ao mar astral, de onde lembram que vieram. Muitos foram seduzidos por entidades maldosas e transformaram os sonhos de seu passado em pesadelos, os rakshasa. São meio que os egípcios do cenários, poucos e lendários (como os hiperbóreos de Conan). Não é para PJs.
Draconato
Draconatos: descendentes dos dragões com primordiais. Governaram um império em nome dos dragões, mas foram fragmentados com o tempo. Fortes e bravos, de uma estirpe guerreira das terras acidentadas e ilhadas do norte e oeste. 
Grandes navegadores (a forma mais apropriada de honrar as asas que tiveram no passado é dominar outro elemento além da terra), comerciantes e saqueadores – vikings! Muito ligados ao passado, costumes e anciões. Seus deuses são dragões ou heróis ascendidos. 
Eles procuram morrer em batalhas épicas para se tornar deuses ou tomar uma cerveja no pós-vida. Lembram humanos, mas de perto é possível perceber uma leve diferença na pele escamosa, olhos estranhos e fendados. Possuem de 1,80 a 2,20m.
Elfos: uma raça prodigiosa de sabedoria milenar. Artesãos delicados, capazes de criar intricadas obras de artes, belos trajes cerimoniais de seda e espadas com folhas de aço unidas para o corte perfeito. 
Manejam espada e arco com maestria, e sentam ritualmente para tomar chá ou escrever poesia sobre as folhas de cerejeira. Saltos graciosos, dança das espadas, leveza do bambu. Maneiras reservadas e respeito pela natureza. Equilíbrio filosófico entre corpo e mente, união à terra e inserção em um contexto superior. Elfos orientais! 
Isolados do mundo, tiveram sua história particular de guerras, heróis e deuses em sua enorme nação de montanhas verdejantes e florestas de bambus. Dinastias milenares, a curiosidade viajante dos jovens, a descendência de primordiais feéricos e dragões dourados. 
Reverenciam deuses dragões e ancestrais e possuem duas etnias principais (que carregam diferenças em regras), os camponeses que plantam o arroz ou pescadores dos rios e os refinados filósofos, feiticeiros, sacerdotes e guerreiros de suas ornamentadas cidades de madeira.
Ferais: bárbaros de regiões florestais do oeste, abençoados pela mãe-terra com traços dos animais antigos cujo totem abençoa suas tribos, fortes e ágeis defensores de sua região, inspirados em índios canadenses.
Gnomos: o mundo das fadas se espalha como uma dimensão paralela no mundo, nas florestas e clareiras pouco habitadas. Os gnomos são pequenos seres recém-libertados dos fomorianos, ajudando ou irritando viajantes e comunidades de outras raças. São como leprechauns irlandeses, que surgem e somem no mato, tocam gaita e rabeca e fazem as pessoas se perderem ou só dançar.
Golias: nômades descendentes de gigantes e titãs primordiais, que vêem a vida como uma grande competição, os golias são expansionistas e vivem em pé de guerra com outras raças. Vivem curtas vidas no lombo de um cavalo pelas estepes do norte e leste (como bons mongóis). Medem de 1,90 a 2,30m.

Halflings: um povo que pouco conhece o medo mas tem muita esperteza e apreço por uma vida confortável ou cheia de excessos. São como espanhóis exploradores ou cavaleiros sármatas, que medem de 1,10 a 1,30m.
Humanos: os de sempre, com algumas etnias diferentes e tal.
Meio-elfos: raros, frutos de elfos que saíram de suas terras ou nativos de regiões fronteiriças. Ótimos diplomatas e cortesões que procuram desesperadamente não deixar o sangue diluir (muito).
Meio-orcs: vítimas dos conflitos entre orcs (que seriam tipo os hunos) e humanos ou elfos (bizarro? É!). Os famosos filhos do estupro, mais comuns que meio-elfos por sempre fugir das terras onde nascem.
Tieflings: herdeiros de primordiais que foram para os infernos elementais, com um império subjugado por séculos de guerra com os humanos, que lhes tomaram a terra e cultura. Hoje estão fragmentados, tentando manter ou escapar da herança em meio a restos de suas terras imersas em tensão religiosa e dominadas por impérios maiores. 
Seriam como assírios, dominados por egípcios (deva) e as coisas acabaram degringolando de um jeito que a terra virou uma salada esquisita que poderia qualificar os humanos do lugar como indianos (foi a magia desse lugar que criou os rakshasas). Eles vivem espalhados entre os humanos, onde tentam sobreviver ao bullying.
Clima e Tom
Dá pra notar que o cenário é decadente, caótico e cheio de guerra. Ele tem um quê de “pontos de luz”, um mundo com muitos tons de cinza, com cidades pequenas ou grandes metrópoles ferradas nas terras mais exóticas, com ruínas em todo lugar e com todo mundo morando em cima de uma antiga civilização. 
Algo entre a geografia do começo de Senhor dos Anéis e a Britânia saxônica dos livros Crônicas Saxônicas do Bernard Cornwell. Troquei os castelos medievais e cavaleiros em armadura brilhante pelo estilo Conan, visceral e fudido. 
Um período entre a idade do ferro e a idade das trevas, onde a magia é antiga. Porque não dizer, agora que li os livros de A Song of Fire and Ice, as inspirações de lá abundam.
A vida não é fácil nesse mundo
Nesse mundo, as aspirações das pessoas se resumem a sobreviver, ser lembrado, ganhar dinheiro e glória. É uma vida difícil, onde os durões se dão melhor. Existe uma grande variedade de crenças sobre a morte, mas a maioria das pessoas acha que de algum modo o pós-vida é um buraco de inexistência, a não ser que você tenha feito a vida valer e seu nome fique para a história. 
Os deuses não ligam muito para os mortais, mas dependendo do lugar, exigem devoção para não lançar sua fúria neles. Ou seja, o mundo é cheio de gente ruim e miserável, e mesmo os heróis não são muito crédulos ou bondosos. Mesmo uma elfa ladina vai lembrar mais uma blood elf de WoW, meio psicopata (provavelmente por ter sido seviciada quando começou a andar entre humanos, e teve que se virar pra sobreviver) do que uma coisinha feliz com um passarinho no ombro. 
A morte pode estar em cada esquina, as pessoas temem o diferente, cada religião quer impor sua visão e unidade e os reinos estão sempre brigando. Nesse cenário, os PJs quase sempre serão afiliados a exércitos ou mercenários. 
Não existe gente genuinamente boa ou maléfica – o deus da “justiça” (o dragão de prata) deixou os anões serem escravos por séculos, e deuses supostamente bondosos que chegaram lá matando outros deuses. Por fim, heróis poderosos o bastante para tentar ascender ou tomar o poder desses deuses.
Então, o normal nesse setting é você sempre estar lutando pela sua vida numa estrada lamacenta no meio de uma chuva torrencial noturna, bebendo em florestas fedidas e se encontrando com um duque louco no salão mal cuidado de seu castelo, que geralmente não passa de uma trave com teto de sapê cheio de infiltrações e um lugarzinho pra sentar ao fogo. 
Um grupo escala um monte para invadir um mosteiro tomado por harpias que atacam um vilarejo em um ponto comercial estratégico, estas dominadas por um ogro mago que quer massacrar duas regiões ao mesmo tempo, ou caçar um monstro nos esgotos horripilantes de uma antiga cidade do império. 
Mais tarde, beijar alguém ou abraçar os amigos e correr para impedir a passagem de uma tropa de duergars por uma ponte ou saltar para enfrentar o dragão que vem voando do despenhadeiro, sabendo que provavelmente não voltará. Fantasia heróica suja, dark, dramática e intensa ao som de rock clássico!
Bem, para um primeiro pensamento é isso. Espero poder em breve arrumar tempo para pensar mais sobre o cenário, e concretizar ele a tempo de mestrar pra alguém!
Imagens: Matt Rhodes, Peter Popken, Chase-SC2

8 comentários em “Aquele velho projeto de cenário de D&D

  1. Muito interessante! Ainda não consigo visualiZar um D&D Low-fantasy

    gostaria de saber como vc trata isso, low-magic no sistema D&D e tals

    Se quiser, deixo meu email pra podermos conversar sobre isso e trocar ideias

    Parabens!

    Curtir

  2. É, que como eu tava procurando no Google sobre Low-Fantasy, o seu artigo foi um dos primeiros a aparecer, daí depois fui conhecer o blog e ja comentei nas partes do FantasyTelling…achei bem interessante a proposta e sai bem do eixo D&D de jogar

    Vou procurar o Conan d20 e principalmente o SoIaF d20, pq vou começar a mestrar uma mesa num cenário nesse estilo (BEM Cornwell e um tanto Martin-ish) só que não tenho experiência em sistemas com pouca magia, até hoje joguei praticamente só High-F com fantasia medieval

    Minha esperança é conseguir usar bem o Mighty Blade, nacional do Sul, ou o RPG Quest mesmo, com as limitações à magia, já que o próprio cenário funciona com o sistema mágico de Druidismo do Cornwell e a magia-mito da dúvida…

    Bom, obrigado pela dica e parabéns pelo blog!

    (tem facebook? acho melhor pra interação e ver se vc respondeu o comentario aqui, ao inves de ficar dando F5 hahaha)

    Curtir

  3. Bom, se quiser umas dicas, tamos aí. O Facebook tem o do Birosca (que tem o plugin social do lado direito do blog, eu tô sempre olhando a página) ou o meu mesmo, que é facebook/danramoz

    Curtir

  4. Eu gostei desse primeiro pensamento. Interessante demais. Mas e quanto a geografia, você pensa nesse cenário como? Por exemplo sabemos que teremos montanhas, extremo oriente e tal. Mas e desertos e outros pontos?

    Ah e gostei dos Dragonatos possuirem tradição naval!

    Curtir

  5. A ideia é ter predominância de terrenos montanhosos, regiões estéreis e desertos. De preferência um mapa com muitos mares e ilhas pequenas, e pelo menos um grande mar interior. =)

    Curtir

Dê um pitaco, não custa nada

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s