A síndrome de narrador

Durante todo este tempo em que jogo RPG, tenho atuado muito mais como narrador do que como jogador. Várias campanhas (principalmente das várias versões de D&D), mundos inteiros e uma ampla variedade de personagens e atitudes. 
E sempre reclamei que nunca tinha oportunidade de jogar, que nunca dava certo rolar uma campanha com um dos narradores que conheço, ou quando dava, eu jogava bem menos que narrava.
Recentemente, para minha suposta alegria, surgiram várias oportunidade de sair de trás do escudo e voltar a rolar dados deixando outra pessoa a cargo da história, pra variar. 
Crônicas de D&D, Storytelling, M&M, Exalted e Legends of The Five Rings. O grande problema que tenho enfrentado já há algum tempo (além da sempre gritante falta de tempo) é muito simples: na hora de pensar em um personagem, me dá um branco!

Sim, sei que é estranhíssimo isso. Já cheguei a pensar que eram as preocupações, trabalho e falta de tempo que me impedem de pensar em um bom personagem para jogar; porém, por mais que o stress seja sim uma das razões, é possível pensar no caminho pro trabalho, enquanto não pega no sono, durante o almoço… Para um narrador véio de guerra como eu, ideias de personagens supostamente deveriam surgir aos montes.

Foi pensando nisso que cheguei à conclusão que é o assunto desse post. Não sei se vocês sofrem isso, mas eu padeço de um treco chamado “síndrome do narrador”. Me habituei a tomar as rédeas, criar inúmeras histórias e personagens de uma vez e ser o guia desses enredos, que acabo sofrendo vários bloqueios e sendo intimidado quando mudo de lado.

A falta de ideias de personagens é uma delas: não consigo me decidir sobre o arquétipo de personagem que quero explorar, porque inconscientemente creio que estarei deixando de explorar diversas outras alternativas. Afinal, o meu “cara” é um só (até morrer ou você perdê-lo de algum jeito), e não sou fã de trocar de persona. 
Segundo, se o cenário não é muito conhecido por mim, acabo sem ler sobre ele (falta de tempo/preguiça) e fico com medo de fazer uma história errada, por mais que o narrador insista que vai me ajudar. Aí vou procastinando, empurrando com a barriga até que o narrador fica puto e me manda pastar.
Outra coisa que sofro ao jogar é a vontade louca de mudar as cenas, reformular as histórias alheias ou voltar a narrar que sinto sempre que jogo. É por isso que apóio tanto a narrativa compartilhada: quando o narrador é muito fechado no quesito “cada um no seu quadrado” (tem uns que fazem de seus jogos verdadeiras cutscenes, onde os jogadores só assistem), dou logo uma brochada. Porque fico imaginando como aquela cena seria legal assim, como eu desenrolaria assado, etc.
Não sei muito bem como resolver esse problema. Ficar só narrando abusa, e me deixa meio bitolado porque não vejo outras formas de narrar. Talvez jogar tanto que eu perca essas travas, ou simplesmente desencanar e começar a apostar em personagens rápidos (melhor que nada) e depois ficar se arrependendo mesmo.
Meu drama atual é que meu irmão vai começar uma historinha baseada no universo do seriado True Blood (sem preconceitos, amigos), onde há vampiros, lobisomens, gente normal, metamorfos, bruxas… O primeiro jogo será sábado, e eu não faço ideia de que personagem fazer.
E aí, vocês passam por isso? Como resolvem?
Imagem: Kalman Adrasofszky

11 comentários em “A síndrome de narrador

  1. Atualmente me utilizei de “cutscenes” para apresentar um cenário desconhecido para os jogadores: O Legend of the Five Rings. Nada melhor para se ter feeling do cenário de que a narração deste cenário para o jogador na primeira partida.

    Todo meste tem este anseio de intervir na narração do mestre quando é jogador. Eu mesmo sofro muito disso, mas nem sempre temos espaço, o que é uma pena.

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  2. Desencane e deixe a ideia fluir. Converse com o narrador, debata, sente no divã dele que as ideias vão acabar surgindo naturalmente. Além disso, muito de um personagem surge durante a própria sessão de jogo (não é?! :D), então uma ideia bruta e pouco lapidada pode ganhar proporções legais e ficar uma coisa bacana. :)

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  3. Eu ainda não passei por isso de ficar imaginando como melhor ficariam as cenas descritas por mim como narrador quando jogo uma aventura. E ainda não tive problemas para criar personagens para jogar. Já passei pelo contrário, de ter dificuldade de criar personagens interessantes para incluir em aventuras narradas por mim. Ou então de ficar indeciso de qual personagem utilizar em outra mesa.
    Creio que o que pode ajudar é consumir materiais relacionados. Por exemplo, se eu vou jogar uma campanha sobre vampiros ou lobisomens, vou consumir o que eu puder a respeito. Hqs, histórias, séries e filmes. Aí dá para ver o que você gostaria de interpretar.
    Também é legal você pensar em personagens que você gosta de obras relacionadas, tipo um vampiro muito legal ou algo assim. Também vale você pegar a personalidade ou história de um personagem que você goste muito e adaptar para o que você precisa.
    Caso nada disso dê certo, escolhe um personagem clássico e depois vai construindo sobre ele o que você quer a medida que for descobrindo isso.
    Espero ter ajudado.

    Agora surgiu uma dúvida, Dan Ramos, você tem alguma dica para mim como narrador depois de ter jogado 1 e 1/2 aventuras narradas por mim? Pontos negativos e positivos, o que preciso melhorar e tal?

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  4. Droga, o meu teclado “come” umas letras e eu não percebo.

    Outra coisa muito comum de se acontecer é um mestre estranhar a narrativa de outros mestres, estranhar seus costumes, o jeito de se conduzir o jogo, etc. Eu mesmo sofro um pouco desses males, pois minha vida rpgística foi bem mais de mestre que jogador. É natural haver esse estranhamento.

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  5. @Allana e @Bob: Acho que isso é mal de quem fica só narrando por muito tempo mesmo. Eu acho que no caso do personagem de TB vou catar mesmo umas ideias com referências de outras séries. Pensei em um humano mecânico de família latina (vai se passar em Wichita, TX), meio bronco e bonzinho. Vou me lascar com um cenário cheio de bicho do mal, mas tá tranquilo. =P

    @Bob: então, já que vc pediu, lá vai. =P Só acho que vc é muito bonzinho/complacente com as safadezas dos jogadores. Não sei se é porque você não se importa, ou se é porque não se inteira muito sobre as pequenas armadilhas do sistema. Mas na hora do jogo, dá a impressão que vc fica surpreso quando aparece uma magia absurda estraga-plot ou valores de perícias/dano absurdos. Mas isso é só minha opinião de narrador malvado XD.

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  6. Nunca narrei, então nunca passei por essa situação. O máximo que se aproxima é que tenho problemas em criar personagens para contos, jogos, etc.

    dai pra resolver, eu tento misturar várias referências num mesmo personagens. Um misto de várias ideia sobre várias coisas.

    O processo e criação de personagens, para mim, acho que é sempre complicado para qualquer pessoa. Tenta seguir um pouco a dica sugerida pela @Allana. Deixa ele com uma história em aberto e vai desenrolando até o final…

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  7. Embora também tenho o hábito de sempre estar mestrando, quando no papel de jogador, costumo enrolar bastante para terminar o personagem.

    Escolher não é o problema, mas definir equipamentos, magias (às vezes), aliados, familiares, personalidade e trechos importantes do background são os meus problemas.

    Por isso sempre prefiro começar a criar o personagem uma semana antes da sessão, assim já facilita e trago ele pronto;

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