O Caso de Charles Dexter Ward

Vou confessar a vocês que não sou familiarizado com a obra de H.P. Lovecraft. Sempre tive um moderado interesse por ela por causa do hype e os produtos derivados (nunca vi um autor inspirar tanto o RPG) e tive pouquíssimos contatos com seus textos – sempre achava que eram antigos e chatos. 
Mas li neste fim de semana um dos poucos romances do escritor, O Caso de Charles Dexter Ward, e devo dizer que me surpreendi completamente.
Lovecraft teve uma vida triste. Perdeu o pai e avô logo cedo e era bastante doente. Lidou com falência, divórcio, o suicídio do amigo Robert E. Howard e um câncer de intestino que enfim o levou para o túmulo. 
Sua excelente ficção nunca veria a luz não fossem seus amigos, que fundaram a editora Arkham House para publicá-lo e transformá-lo num dos autores cults do gênero, cuja fantasia de horror flerta com o sobrenatural e oculto e influencia boa parte da literatura e cultura em geral desde então.

Pois bem. O Caso relata o desaparecimento de um jovem estudioso, levado à completa loucura e internado depois de passar mais de uma década investigando um estranho ancestral, cujas referências foram cuidadosamente extintas dos registros de sua família. A partir de então se segue um verdadeiro dossiê sobre o caso.

Esses estudos passam de interesse peculiar à mais louca obsessão à medida que o rapaz se enterra em livros, documentos e pistas descobertas a duras penas. Seu pai e o médico da família, preocupados, fazem tudo para não deixar que Ward se consuma. Se você não leu o livro, assim como eu, pode relaxar que isso não é spoiler. :D

Considerando que li o livro quase todo em uma manhã e metade da tarde de um domingo, posso dizer que a escrita de Lovecraft exerce um fascínio assombroso no leitor. O formato de dossiê, com um tom frio, termos de 1928, cartas, teorias e depoimentos, descrições longas e quase nenhum diálogo, faz parecer algo chato. Porém, me senti praticamente um policial da época lendo um relatório extremamente preciso e empolgante.

A coisa me transportou para dentro da história de uma forma que eu lia freneticamente, e o medo de continuar em algumas passagens (uma certa investigação num lugar escuro e terrível…) só foi superado pela sede de saber como tudo acabaria. A cada momento eu ia deduzindo o grande mistério e ficando cada vez mais aflito com o horror, embora não conseguisse parar. Posso dizer que eu fui um Charles Ward!

A história se passa em Providence, Rhode Island. Por ser a cidade natal de Lovercraft, ele mistura ficção com realidade e cria uma trama sólida com detalhes reais (bem, a maioria). Mesmo com o tom documental, ele tem uma habilidade ímpar de construir aos poucos uma atmosfera de horror e aflição, aproveitando o nosso medo inato do desconhecido – inclusive do que não conhecemos a respeito de nós mesmos. 
Com a linguagem documental, você sempre acompanha o ponto de vista das pessoas que ficam sabendo apenas de parte das coisas, que raramente vêem algo explicitamente, que sabem apenas que não se deve falar dos acontecidos, ou que só relatam que alguém descobriu algo inimaginável… O resto é deixado para a sua imaginação elucubrar, sem necessidade de sangue, tripas ou monstrengos horrorosos.
Enfim, agora sim eu entendo toda a fascinação pelo cara. Muitos mestres do horror bebem dessa fonte (ouvi dizer que Stephen King foi muito influenciado por ele, por exemplo), e agora vou correr atrás de todo o resto, incluindo o tão falado Chamado de Cthulhu. Se não conhece Lovecraft, não faça como eu, corra!

10 comentários em “O Caso de Charles Dexter Ward

  1. Todas as obras dele são muito nesse estilo investigativo, instigando a imaginação, sempre revelando apenas visões de relances de um horror que por isso mesmo se torna inimaginavelmente enorme.

    Nunca li o Case de Charles Dexter Ward, mas pelo que vc me contou é muito parecido com “Um sussurro nas sombras” que eu acabei de ler.

    Recomendo “Nas montanhas da Loucura”, “A sombra sobre Innsmouth” e “A coisa na soleira da porta” que pra mim são as tres melhores obras dele.

    “(…) horrores que deveriam rastejar e aprenderam a andar sobre duas pernas(…)”

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  2. “Lovecraft teve uma vida triste. Perdeu o pai e avô logo cedo e era bastante doente.”. Isso é o de menos. Pior foi que a mãe dele era uma feminista louca que criou ele como uma menina até os 8 anos. Quando o HPL descobriu, teve um colapso mental e foi parar num hospício!

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  3. A ficção de Lovecraft é muito, muito boa e inspiradora. Não li o romance ainda, mas li vários contos dele de coletâneas diferentes, e o impacto que ele causou na ficção é indiscutível. Realmente, recomendadíssimo.

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  4. Putz! Este foi o primeiro livro que eu li dele, acho que por volta de 2004. Ainda tenho-o o livro de bolso (L&M Pocket).

    Agora é começar com o Chamado de Cthulhu e depois ir com contos aleatórios, como Montanhas da Loucura, Horror em Dunwich e vários outros contos. Eles são bem pequenos e acho que todos esses contos estão na internet.

    No livro Rastro de Cthulhu tem uma lista contos que tem como tema o Cthulhu Mythos.

    É digno de nota que outros autores tambem escreveram sobre o Cthulhu Mythos.

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  5. alias, “hospicio” e “loucura” nao sao apenas coisas dos seus contos, sao elementos reais de sua vida. eu acho um pouco dificil de ler em ingles, por conta da linguagem mais antiga, mas se nao for problema Dan, recomendo os volumes da Penguin Books, q nao apenas trazem muitos contos, como sao muito baratos. Alias, ate mesmo comprando esses livros pela Livraria Cultura sai barato.

    Lovecraft influencia muito, com certeza! Eu nem gostei tanto do Chamado de Chuthulu, pra ser honesto, mas NAO POSSO deixar de recomendar “The Music of Eric Zann” e “Pickman’s Model”.

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  6. Eu adoro esse romance, muito bom mesmo. Meu preferido é “Nas Montanhas da Loucura”. Se você lê em inglês a Del Rey Books tem umas coletâneas boas dele e de obras derivadas. Vale a pena.

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  7. Ainda não li esse romance, mas o que posso dizer Dan é ainda bem que você leu HP, afinal antes tarde do que nunca…
    Sobre o autor a única coisa que posso afirmar é que ele é terrivelmente inspirador! Ótimo como professor no ensino de como deixar uma história com clima atemorizante

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