O romance no RPG

O dia dos namorados foi ontem, mas vocês já conhecem meu timing atrasado. De qualquer forma, achei uma boa oportunidade para trazer de volta, até com uma visão atualizada, um post que eu e Elisa escrevemos juntos em 2008 sobre algo que gostamos muito, o romance – e o sexo – no RPG.

Acreditamos que para que uma história seja divertida, deve ter personagens com alguma profundidade. Logo, gostamos de inserir nas narrativas que criamos temas que as tornem verossímeis e identificáveis com quem lê, como sexo e romance.

É um assunto polêmico, rejeitado por algumas pessoas (“pra que jogar coisas do cotidiano? Isso é The Sims, por acaso?”), mas achamos que pode adicionar um bom tempero em qualquer jogo, gerando ótimas tramas, oportunidades de interpretação, interações e conflitos. Tudo depende do tom que cada narrador dá aos seus jogos, da habilidade de todos de lidar com o assunto de forma madura e medir direitinho até onde querem chegar (dentro da imaginação coletiva, seu tarado!).

Personagens assexuados que vêem o resto do mundo como aliados ou inimigos, a não ser que tenham um bom motivo para tanto, são bastante rasos e chatos, de modo que deviam ser a exceção e não a regra. Na hora de pensar nas motivações, objetivos e personalidade do personagem, entrar na zona do romance e sexo pode enriquecer bastante a história e ele mesmo.

Temos então cavaleiros que não podem amar mas se apaixonam por rainhas, como Anakin Skywalker, vilões memoráveis que lamentam por paixões perdidas, como Strahd von Zarovich, ou mesmo o clichê legal de casais que possuem uma tensão sexual presente mas nunca ficam juntos.

A influência do assunto na vida do personagem pode ser um grande plot que envolva o personagem e até o grupo todo, ou ser leve e ainda valer a pena – um guerreiro que carrega um talismã feito pela esposa amada e nunca perde a coragem de lutar graças a isso, ou uma maga elfa que foi estuprada pelo rei élfico e exilada (e busca meios de um dia obter sua vingança), de modo que fechou totalmente o seu corpo e não confia em homem nenhum.

O roleplay de cada personagem pode ser condizente com a sua personalidade geral ou não, desde que tudo seja feito de caso pensado. Se um jogador que leu este post decidir fazer com que seu bárbaro meio-orc se apaixonar pela ladina do grupo, vai ser esquisito se ele virar um grande conquistador sensível. Ou não: ele pode ser um bruto, mas os brutos também amam! Isso pode revelar toda uma nova faceta do personagem que surpreenderá todo o grupo, e gerará inúmeras interações legais.

Mesmo quando o romance não faz parte da história, detalhes ou plot de um personagem, o narrador pode adicioná-lo on the fly na campanha, ou mesmo utilizá-lo em seus plots, com mais ou menos importância. Se tem uma coisa que eu aprendi no RPG, é que o narrador é um líder-pelo-exemplo – se ele faz algo, os jogadores tendem a fazer também.

Se várias guerras na história começaram justamente por disputas amorosas, qualquer narrativa pode envolver o assunto. Nobres apaixonados por súcubos e fazendo besteira na cidade, jovens querendo fugir juntos (geralmente do casamento arranjado da mocinha), vilões que querem ressuscitar suas esposas bruxas do mal, deuses ciumentos, crimes passionais, e muito mais ganchos de boas tramas.

Como eu já disse antes, esse assunto é delicado e depende muito do jogo de cintura do narrador e do entrosamento de grupo. Assim como tudo no RPG, acreditamos que os jogadores precisam se conhecer e entrar em um acordo para que fiquem todos confortáveis (então, nada de sacanagem em eventos :P).

Não precisa desistir de colocar esses elementos na mesa só porque tem uma parte do grupo que não fica à vontade. É só pegar leve ou não envolver esses jogadores em especial, que tudo fica tranquilo. Muitos jogadores ficam bastante inibidos, especialmente quando falamos de jogadores masculinos héteros (nem vou entrar no assunto da orientação sexual, não sejamos hipócritas).

Mas é possível moderar a intensidade do roleplay sem perder a diversão – dizer o que os personagens fizeram e falaram ao invés de falar como os personagens, de modo leve, evita o constrangimento.

Outra coisa que acontece às vezes é um romance entre personagens ir além da mesa, ou existirem casais de namorados no grupo. Recomendamos que casais não se aventurem a arrumar romances com outros personagens no jogo, a não ser que se tratem de pessoas muuuito maduras ou nada ciumentas (mas ainda acreditamos que é melhor evitar), ou evitem jogar brigados, porque tudo isso pode atrapalhar o jogo e a diversão dos outros. No geral, melhor deixar os problemas da vida real fora da mesa, todo mundo se respeitar e ninguém mexer com fantasmas de ninguém.

Alguns jogadores chegam aos mínimos detalhes na narrativa do romance, incluindo sexo (estou assumindo que somos todos adultos aqui). Normal, cada um com as suas viagens. Mesmo assim, a maioria que não gosta de se ater a esse nível de, digamos, minúcias, ainda podem gerar situações divertidas e até cômicas com leves descrições picantes.

Bons filmes, livros, séries e os games mais novos (Dragon Age, God of War) mostram cenas bem rápidas e bem feitas de sexo – transpondo isso para o RPG, podemos usar desde o simples “e então nós tiramos as roupas e fazemos amor como se o mundo fosse acabar à luz da lareira”, até cenas como “então você consegue satisfazer a duquesa e ela deixa escapar que o marido mencionou a data que a Esmeralda do Sol chegará à cidade”.

Por fim, é interessante definir o nível de “pornografia” do jogo. Do mesmo jeito que a violência pode ir do socialmente aceitável (ninguém lembra que detonar monstros é um treco sanguinolento) ao gore total (tripas e cérebros e armaduras sujas de sangue), sua história pode ser tão inocente quanto Zelda ou tão adulta quanto Game of Thrones. Nobres com preferências sexuais bizarras, orgias, monstros com escravos sexuais, experimentos estranhos, prostitutas informantes, etc. Recomendamos evitar o escatológico, a não ser que a intenção seja zoar.

O estupro também é uma triste realidade, e se for abordado deveria ser representado como um ato maligno de vilões. Personagens violentadas podem inclusive engravidar e acrescentar um drama danado à coisa – imagine se isso acontece com a irmã ou esposa de um personagem. Ódio instantâneo do vilão!

De modo geral, acreditamos que é melhor manter como um elemento de cenário, e no máximo deixar afetar jogadores como ameaças ou tentativas que nunca dão certo, como nesse trailer do novo Tomb Raider (a partir do minuto 2:04) – a não ser que, como tudo aqui, haja muita maturidade e tranquilidade entre os envolvidos. No nosso grupo eles acontecem (raramente) com personagens de jogadores(as), mas temos muita intimidade. Mesmo assim, geralmente o ato é brevemente anunciado, assim como uma espadada é descrita sem tantos detalhes assim.

Mas aqui cabe um aviso: achamos meio ridículo utilizar essas ferramentas narrativas que tratamos aqui para saciar desejos sexuais bizarros ou tentar pegar alguém (a não ser que a coisa surja naturalmente). Já vimos muitos jogadores (principalmente narradores) nerd taradões nesses anos de estrada, e esse tipo de infantilidade espanta pessoas da mesa.

Se esse não é o seu caso, esperamos que tudo isso que dissemos possa ser aproveitado de forma divertida nos seus jogos! Aproveite e leia mais sobre o assunto no post do Pontos de Experiência.

6 comentários em “O romance no RPG

  1. Ótimas palavras Dan, eu mesmo já passei por alguns exemplos citados no post (lógico não vou dizer quais xD)…

    Vamos jogar, com romances, brigas, traições, “goreness” e muita putaria, e vamos deixar isso no ON, e parar de “mimimi” em OFF!

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  2. É um assunto polêmico mas que acrescenta muito à trama se for bem utilizado. Na minha mesa meus jogadores preferem esquecer da realidade, a não ser quando convém à eles, e não tocar nesses assuntos. Quando tentei incluir algo assim, acabou na comédia e desisti de tratar isso com seriedade.

    Questões como estupro ou gravidez nunca tratei também, mas confesso que tenho vontade de abordar temas com esse peso para tornar a narrativa mais verossímil.
    Principalmente porque se achamos que estupro é uma triste realidade hoje imagine no período medieval que eu acho que nem era considerado crime! Ou imagine se um personagem engravida uma npc, e precisa agora se preocupar com uma nova família?!

    Creio que muitos jogadores tem a mente fechada para isso porque não víamos esse tema sendo tratado em obras literárias de grande sucesso que inspiram o rpg. Como o Senhor dos Anéis. Game of Thrones trouxe isso para os holofotes e trabalha bem o tema. Mas antes dele tive contanto com a Trilogia de Tormenta em qua o Leonel Caldela também utiliza de algum desses elementos. Por exemplo, a motivação principal dos dois personagens centrais, a partir de o Crânio e o Corvo, é salvar o filho sequestrado!

    Enfim, bela postagem e gostaria de ver mais esses temas sendo bem trabalhados em boas tramas de rpg ou livros de fantasia.

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  3. Bem legal as dicas Dan! Acho legal, também, trazer o romance como mais um desafio nas aventuras. Superando preconceitos, tentando conquistar o amar de uma guerreira que resiste a se render a um homem e coisas do tipo.

    A questão do sexo é bem complicada mesmo. Tem que ter um grupo bem maduro para tratar disso. Geralmente eu passo rápido por isso, sem descrições detalhadas, apenas algo “dormem juntos”, “passam a noite juntos” e tudo mais, para não rolar piadinhas e essas coisas.

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  4. Ótimas dicas Dan, parabéns a você e Elisa.

    Já joguei com um Monge/Clérigo apaixonado platonicamente por uma landina de uma PJ(a ordem dele era celibatária). Foi legal, era algo bem sutil. No geral os personagens q vejo tem amores com NPC.

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  5. Meu namorado joga e eu nao , ele jogo , e teve que fazer sexo com uma jogadora , eu achei bisarro e agente terminamos :( , eu acho isso super estupido , :(

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