Conto – A Queda, parte 1 de 3

Sempre que tiver uma vaguinha aqui no blog, vou tentar trazer um pequeno conto. De início vou resgatar os contos antigos, já que tem coisa lá que gosto muito e quero compartilhar de novo. A maioria parte das campanhas de fantasia que narro, já que sempre procuro expandir minha versão do cenário Tormenta (vivo falando disso).

A Queda narra os derradeiros suspiros de Ortshire, uma condenada cidade de Bielefeld, chamado “Reino dos Cavaleiros”, uma monarquia governada pela Igreja do deus da justiça Khalmyr. Uma cadeia de montanhas corta o reino em dois, sendo que o lado oriental enfrenta uma conquista sanguinária de exércitos orcs comandados por um cavaleiro renegado. Sir Orson Broonlek, um cavaleiro querido dos personagens dos jogadores, planeja sua vingança depois de perder seu feudo para seu próprio senhor. 
Era uma fria e tranqüila noite de inverno naquelas terras aos pés das Montanhas Centrais, onde jovens flocos de neve caíam devagar do céu cinzento e sem estrelas, seguidos por uma chuva fria. Uma brisa sorrateira soprava por entre árvores ressequidas, percorrendo a imensidão de colinas brancas ondulantes e montes cobertos de coníferas, e uivando ao passar por um vale de fortes corredeiras, onde havia uma pequena cidade chamada Ortshire.

A brisa se esgueirou pelas ruas apertadas da vila, subiu a colina rumo ao pequeno castelo na crista da colina e passou pela passarela da muralha, quase apagando o fogo que aquecia um homem de barbas castanhas no rosto marcado, metido em um cobertor de peles por cima de um camisão de malha. Ele resmungou um pouco e alimentou com uma acha de lenha a pequena fogueira que também cozinhava seu jantar, uma sopa aguada de ervilhas. 
Seu nome era Fenthick, capitão das forças de sir Fergus, o senhor daquelas terras. Ele não deveria estar congelando na chuva, mas os pastores dos montes estavam sendo atacados, tambores foram ouvidos nas últimas noites e os batedores ainda não haviam retornado, de modo que Fenthick precisava dar o exemplo naquele momento.
Enquanto o entediado capitão fitava a luz convidativa das lareiras quentes da cidade, outro guarda – um meninote chamado Willmot – se sentou por perto e serviu um pouco de cerveja para si.
– E é porque ainda estamos nas primeiras neves, hein, capitão? – tentou o garoto.
– Nem me fale, garoto – disse Fenthick. – eu deveria estar com a cara no meio dos peitos da Lorena, Keira ou uma das outras meninas da Caneca de Prata neste exato momento.
Fez-se silêncio por alguns minutos. Como a chuva diminuiu um pouco, uma coruja aproveitou para sair voando de um torreão. Fenthick ficou imaginando se aquilo seria um mau presságio.
– Ao menos o bérnio que apanhamos na semana passada está quieto hoje – tentou o rapaz.
– É mesmo… Acho que se cansou de tentar subornar os rapazes ou espernear a noite inteira.
– Porque não o enforcamos, capitão?
– Ora, moleque, porque o meu senhor não nos deu ordens, é claro! Sir Fergus é um homem de coração muito bondoso e pelo visto acredita que o bérnio tem alguma utilidade, portanto ele vai ficar vivo.
O vento foi, por alguns instantes, o único a ser ouvido.
– Eu pensava que todos os bérnios eram bárbaros furiosos e tatuados e adoravam demônios.
– Alguns são. Quantos invernos você viu, Will? Doze?
– Treze, senhor – empertigou-se o jovem.
– Seu pai morreu no cerco a Orchardt, não foi?
– E os lobos comeram nossas ovelhas, por isso estou aqui. Mas lhe asseguro que sou sujeito mais forte da família e já posso matar bérnios, senhor.
– Vá com calma, molecote – zombou o capitão. – Já fui à Bérnia, sabia? – disse, nostálgico, depois de um momento. – Sir Fergus levou suas forças para engrossar as fileiras de Norm. Naquela época, fazíamos muitas incursões pelas entranhas daquele amontoado de tribos e reinos de bárbaros pintados, e tudo o mais.
– E como eles são, senhor?
– Os bárbaros – Fenthick pigarreou. – Eles são mesmo guerreiros selvagens e raivosos, Will, e adoram aqueles deuses fedorentos deles, que mandam seus bruxos e bruxas possuídos por demônios prepararem suas poções de loucura. Fora isso são mais ou menos como nós, embora ainda se amontoem em choças de taipa e seus castelos sejam meras traves com um telhado seboso de vime.
Fenthick se aproximou da fogueira e abriu um largo sorriso.
– Mas eles têm boas mulheres, rapaz – sussurrou, conspirador. – Garotas lindas e insaciáveis! Adoram fornicar, e se deixar elas fornicam com você, seu cavalo e até seu cachorro! Especialmente o maldito cachorro. Os cães bérnios passam muito bem!
E as gargalhadas altas ecoaram colinas abaixo, abafadas pela chuva que recomeçava.
Hamper e Ned tocavam furiosamente banjo e flauta no salão principal da fervilhante taverna Caneca de Prata, espantando o frio tanto dos animados camponeses, prostitutas e vagabundos quanto dos muitos mercadores e peregrinos presos no vilarejo pela nevasca que os deuses prometiam. 
Enquanto os dois cadenciavam uma música rápida e descontrolada com seus instrumentos, cantavam e sapateavam pelo tablado de madeira e incitavam os convivas à algazarra geral. Eles mesmos haviam crescido ali, mas faziam questão de tornar cada noite diferente e especial para os clientes do satisfeito taverneiro Guthrum.
Sendo a estância mais próspera da região, a Caneca tinha aposentos confortáveis e um amplo e oleoso salão de alvenaria, com um bom palco e uma grande lareira. O taverneiro grandalhão era ajudado por seus filhos Kurt, Rose e Marcel, e tinha boas serviçais e rameiras. 
Ele próprio era um bom cervejeiro, e sua cozinheira Ornella era um achado, vinda de um bando de refugiados de uma fortaleza de orcs do outro lado das montanhas, salvos por um guerreiro elfo e seu bando. Além de tudo, Guthrum era amigo do senhor de Ortshire, o que lhe dava uma boa proteção e ótimos negócios.
Havia alguns, todavia, que não gostavam nenhum pouco de sir Fergus. Em uma mesa afastada estavam dois tipos estranhos, sentados com canecas entre pratos com migalhas de pão que um rato roubava no momento. O mais velho tinha cabelos pretos, era corpulento e caolho, tinha barba por fazer e uma horrenda marca de enforcamento. Descansava uma bela espada bastarda em uma cadeira, enquanto o mais jovem, loiro e esbelto, também com suas cicatrizes, portava um arco reforçado.
– Falta muito pouco agora, Aendric – disse o primeiro. – O temporal vai atrasar os rapazes, mas eles são durões e logo vão chegar, e vamos realizar o cerco mais rápido de toda Bielefeld – deu uma pausa, pensativo. – Como nos velhos tempos – acrescentou.
Aendric deu um muxoxo.
– Senhor, de novo eu peço: lembre-se dos que disseram os larápios. Fergus tem um lobisomem guardando os rumos do seu castelo, e sabe Deus quantos lobos monstruosos.
– E novamente eu digo, meu rapaz, isso é só um velho boato para despistar ladrões – grunhiu o caolho. – Fergus me traiu, me tirou tudo e por pouco não me matou, e eu vou estripá-lo e arrastar seus ossos até as ruínas de Orchardt, antes que o Senhor Khalmyr me leve desse mundo. E eu não dormirei tranqüilo, você sabe, enquanto não provar o sangue daquele desgraçado.
– Mas Sir Orson, é um maldito lobisomem.
– Aendric, eu já disse que lhe devo a vida, mas pode seguir seu caminho, se assim desejar.
O jovem caçador olhou ao redor, para a fervilhante taverna, e para as pessoas que sorriam e derramavam sua bebida, despreocupadas e esquecidas de sua vida dura. Sutilmente, fez um dardo dançar por entre os dedos e o lançou no rato, matando o animal.
– O senhor é o cavaleiro cinzento mais cabeça-dura que eu conheço. Desde que conheci tenho ficado cada vez mais pobre.
Porque diabos eu ia abandonar a única chance de conseguir um butim tão gordo quanto este? Vamos matar, morrer, ficar ricos e os infernos nos receberão alegres.
Ele alegremente catou pela cintura e pôs no colo uma garota de decote generoso, lançando para ela um sorriso mal-intencionado. – Enquanto não chega o melhor da festa, vou me virando por aqui – sussurrou para seu senhor enquanto enfiava uma moeda de prata entre os seios da jovem.
Sir Broonlek deixou Aendric e a serviçal e saiu da Caneca. Caminhou um pouco pelas ruas estreitas de lama e neve, até que teve o caminho fechado por cinco homens agasalhados e armados. Os marmanjos, porém, ficaram em silêncio encarando o cavaleiro. Orson abriu um meio-sorriso.
– Festa particular, rapazes? – zombou.
Um dos brutamontes se empertigou e deixou a voz rouca sair.
– É melhor dar meia volta e correr pra casa, velhote.
– Sei – riu o cavaleiro. Ele se esforçou um pouco, e pôde ouvir os ruídos de alguém sendo espancado dentro do beco. Olhou de novo para os homens, e percebeu que estavam vestidos com túnicas escuras e peles pesadas, mas jamais um tabardo com a mantícora do brasão de lorde Fergus.
– Posso estar errado, mas estou bastante desconfiado que atrás de vocês esteja o seu senhor, um burguês inútil e bêbado de alguma cidade do sul, dando uma surra em algum pobre coitado de Ortshire. Por via das dúvidas, vou extravasar a minha raiva e dar algum divertimento à minha espada entediada acabando com a raça de vocês.
Os brutamontes se entreolharam, perplexos, mas quando perceberam o cavaleiro já estava sobre eles com sua espada em riste, em uma chuva devastadora e indefensável de ataques. O homem girou a lâmina três vezes, abrindo terrivelmente o ombro de um deles, enterrando a espada no peito de outro e eviscerando o terceiro. Os homens caíram antes de qualquer reação, e os dois últimos, ao ver os corpos e a expressão assassina do formidável guerreiro, largaram suas armas e correram por suas vidas.
Broonlek lamentou o desperdício de suor e caminhou até o beco onde esperava encontrar um covarde e um moribundo, enquanto a chuva cuidou de lavar a terra com sangue.
Por que Fergus destruiu Broonlek? Quem será o lobisomem que o senhor das terras possui? Que destino agourento paira sobre a cidade? A resposta para essas perguntas estará na parte 2 e 3. Até lá!

Para ler a parte 02, clique aqui.

4 comentários em “Conto – A Queda, parte 1 de 3

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