Conto – A Queda, parte 2 de 3

Olá amigos! Aqui está a segunda parte do conto A Queda, uma história de fantasia medieval ambientada na minha versão de Tormenta, escrita como um complemento às aventuras de uma campanha que mestrei até o fim. Sempre gostei de escrever esses contos sobre acontecimentos paralelos à história que rolamos, para enriquecer o cenário e dar aquela ideia aos jogadores de que o mundo gira.


A Queda conta os últimos momentos da cidade de Ortshire, na monarquia de tradição secular de cavaleiros chamada Bielefeld. Uma noite de inverno onde nobres fazem seu jogo sem suspeitar na enorme sombra que paira acima da região, achando que a guerra está apenas além das montanhas que cortam o reino em dois. Um dos personagens dos jogadores, o ladrão Selmik, está fazendo uma viagem para tentar desfazer uma transformação que sofreu (era um halfling, virou humano), e acabou presenciando parte dos eventos.


Para ler a parte 01, clique aqui.

A chuva com neve ficava mais intensa e, com a ventania, açoitava violentamente um cavalo negro em disparada e seu cavaleiro, uma jovem de vivazes olhos negros e sardas no rosto, envolta em um manto pesado. Agitada, incitava sua montaria a galopar o mais rápido possível, passando como um raio pelas ruas de Ortshire e apeando próximo a um estábulo, onde escondeu seu cavalo. Subiu a colina pelo lado oposto da estrada, sem ser vista por nenhum guarda, e entrou no castelo através de uma passagem secreta perto da muralha, pouco antes de um relâmpago iluminar o céu.

Kellen galgou uma escadaria velha e apertada e chegou a uma saleta escura, onde deixou o manto e acendeu uma vela. Caminhou então por um corredor estreito, espantando ratos e aranhas, e alcançou outro lance de escadas que a levou até uma porta oculta em uma das despensas da cozinha. Se esgueirou pelos corredores do castelo e parou na frente da porta alta de um aposento de hóspedes, batendo cuidadosa e sutilmente na madeira. Ouviu uma batida curta, e sussurrou uma senha: flor de lis. A porta foi entreaberta, e a garota escorregou para dentro.
Foi recebida por uma mulher de silhueta delgada envolta em um elegante robe, que lhe deu um abraço tímido e gentil. A garota não era feia, mas estava suja, encharcada e tremendo de frio diante de uma linda elfa, com belos olhos grandes e amendoados, boca pequena, rosto delicado, cabelos alaranjados e mãos graciosas.
– Você precisa se trocar, Kellen – disse a voz macia.
– Sim, senhora.
A elfa se sentou em uma poltrona e esperou pacientemente pela pajem, que se trocou e voltou seca, com outro vestido. Kellen pegou uma banqueta e se sentou perto de sua senhora.
– Eu consegui chegar às terras de Northolt, lady Celine – começou, com um sorriso nervoso – Não irei delongar seu anseio, mas também adianto que as notícias podem não lhe aprazer.
Northolt era um pequeno feudo ao norte de Ortshire. Lá, a cidade de Riverfort fazia comércio entre os felden (o povo de Bielefeld) e os anões da fortaleza Dun Azkral, bem no encontro entre as Montanhas Centrais e Cinzentas. Assim, era uma passagem natural para aqueles que viajassem pelo norte, desde Norm e as terras próximas à Floresta Sombria, no leste, até a cidade comercial de Agravaine, no oeste. As Cinzentas também marcavam a fronteira de Bielefeld e o reino de Yuden. Portanto, aquelas terras eram um escoadouro valioso de mercadorias e informações.
– Não sofra por mim, menina – sorriu Celine. – Apenas me informe.
– Bem – começou. – Há realmente um bardo chamado Balen lá, que trabalha para Sir Ocelot. Ele me passou notícias vagamente confiáveis do que está acontecendo na Floresta Sombria. Balen ficou até o fim do outono com seu senhor na aldeia de Riverfort, que os anões estão reconstruindo, e foi de lá que recebeu os boatos, que chegavam dos patrulheiros e caçadores da floresta.
– E então, afinal de contas, Alestil ainda existe?
– Ninguém confirma que sua aldeia caiu, milady, se isto serve de consolo – Kellen suspirou. – Mas nenhum elfo sequer foi visto além das Centrais desde a primavera, e ninguém ouviu falar de qualquer comitiva ou grupo de busca. 
Alestil, a aldeia resplandecente na Floresta Sombria, sofria com ataques de monstros e bárbaros vindos de além do Mar das Espadas. Celine não sabia o que eles tinham contra os elfos, mas sabia que nenhuma ajuda de fora viria, porque o Rei Élfico governava a vila com mão de ferro. Celine havia se juntado com alguns rebeldes para buscar ajuda, mas o grupo fora chacinado por orcs assim que atravessaram as Montanhas Centrais para oeste. A elfa sobrevivera, mas fora capturada por Lorde Fergus, Senhor de Ortshire, que passava por Northolt. 
– E Balen ainda me disse que somente um cavaleiro mais influente ou rico, como o Duque Farquaad de Kiregard ou o Conde Reswald de Portfeld poderiam desafiar nosso Lorde para libertar a senhora, graças aos seus feitos do passado e aos rumores do lobisomem.
– Não adiantaria, de qualquer modo – disse Celine, com um meio sorriso. – Qualquer um desses senhores apenas me poria em um quarto como o enfeite que represento para eles.
Kellen tomou a mão da elfa nas suas, tentando amenizar a tristeza da situação, mas logo Celine levantou e caminhou até a janela, e ficou olhando a chuva pelas frestas entrameladas da madeira.
– O pior é que estou ficando farta dessa prisão sem propósitos. Ele não me mostra, não me violenta, não me mata, nem ao menos fala comigo. O que aquele monstro quer de mim, afinal?
Kellen fitou a lareira, tristonha.
– Porque a senhora não fugiu com o meio-elfo e seus companheiros? As pessoas dizem que eles são heróis, e salvaram dezenas de prisioneiros dos orcs de Kelgroth*.
– Eu fugi – murmurou a elfa. – Mas Fergus nos encontrou em Orchardt e me trouxe de volta, e eu soube que simplesmente destruiu a aldeia do seu vassalo porque estávamos lá. Os heróis quase não escaparam da fúria dele. Quer dizer, não sei se foi por isso, mas mesmo assim. Ele não é amaldiçoado, gosta de ser um monstro.
Olhou para a pajem e forçou um sorriso.
-Vá descansar, querida. Você é a melhor coisa que já me aconteceu aqui – foi até Kellen, beijou sua testa e lhe deu uma pequena pedra da lua. – Entregue a Gordon e lhe agradeça por ter nos encoberto.
Com um sorriso discreto, Kellen deixou o quarto e guardou a gema, que compraria boas ovelhas e agasalhos para sua família. Ela já tinha agradecido o velho feitor, de uma forma mais barata, antes mesmo de deixar a vila.
Água e neve encharcavam um vulto corpulento e escuro, oculto por uma capa de pele de auroque, que mantinha posição em uma reentrância na crista escarpada de uma colina. A neve já se acumulava nos ombros da figura, que esperava pacientemente.
Lady Cynthia, a jovem esposa de Fergus, convalescia de febre mental em sua cama. Seu marido dormia em um aposento qualquer, com duas belas cortesãs e muitos odres secos de vinho.
– Temos um acordo, senhor Aguirre? – quis saber Thane.
– Fechado.
Os dois homens apertaram as mãos, e olharam satisfeitos para a balbúrdia animada do andar de baixo. Estavam em uma das mesas da plataforma superior do salão da Caneca de Prata, um lugar mais tranquilo, onde tradicionalmente se fechavam os negócios de inverno. Lorde Aguirre, um burguês atravessador de seda e especiarias que vinha por mar até a costa leste de Bielefeld, forjava neste momento uma lucrativa aliança com o velho Thane, mercador de Ortshire que planejava levar os produtos para os cavaleiros da região e as cidades a oeste e talvez cativar até mesmo os nobres dos reinos vizinhos.
Aguirre estava ali por acidente – conflitos de orcs e homens da cidade mais ao sul, Kiregard, o desviaram para norte, e ele acabou se refugiando ali. Era um homem ganancioso e arrogante, mas Thane possuía um anel mágico que seu pai, um ladrão, lhe deixara ao morrer, e este anel tinha lhe garantido a amizade do astuto mercador viajante e a promessa de muito ouro por vir.
Não estavam sozinhos. À mesa estava Marion, esposa de Thane, seu guarda-costas Jorden e o guarda-costas de Aguirre, um homem de pele parda e feições duras, chamado Ikshu. Era mudo, e pelo visto não desconfiara do engodo, de modo que Thane propôs um brinde e eles beberam. O velho mercador gritou por mais vinho a Guthrum, e sua filha Rose veio trazendo o odre. Aguirre olhou a garota ruiva e formosa de alto abaixo e, com um sorriso ébrio, lhe pôs no colo. A garota prontamente deu um gritinho, levantou de solavanco e se preparou para estampar uma tapa violenta no rosto do homem – mas Ikshu segurou sua mão com força antes disso.
– Vá agarrar a sua velha mãe, porco agourento! – esbravejou Rose. – Me larga!
O guerreiro permaneceu impassível.
– Ora, vejam só que ovelha audaciosa – riu Aguirre, e ficou de pé. – Vamos ver…
– Por favor, senhor – interrompeu Thane, tentando manter a calma. – Esta é a filha do bom taverneiro, que nos serve com dedicação.
Aguirre ponderou.
– Qual é o seu nome, minha flor de fogo? – ronronou.
– Rose – cuspiu a menina.
– Pode ir, Rose. Vou parabenizar seu pai – Ikshu soltou a mão da garota, que saiu correndo, e o burguês voltou a sentar. Thane suspirou.
– Não se preocupe. Mais tarde eu falo com Guthrum, e ela será sua – disse o mercador.
Aguirre deitou os olhos mais uma vez sobre a multidão dançante, resmungou qualquer coisa sobre o frio e deu um gole no vinho.
– Parece que vocês felden estão tendo problema com orcs, não é?
– Essas pestes sempre dão trabalho onde quer que se vá, meu senhor. No último verão eles ousaram marchar em nossas planícies, e nossas bandeiras os escorraçaram de volta para as montanhas antes que causassem qualquer problema a uma cidade sequer – comentou Thane, orgulhoso.
– O senhor se refere a estas montanhas?
– Se me permite, milorde – disse Marion. –, tal cordilheira corta todo o coração do reino, e é muito extensa e larga. Os monstros podem se esconder nelas, mas estão muito distantes do nosso lado. No máximo ouvimos falar de um ogro morto pela guarda, e olhe lá. E do outro lado, todos sabem que um poderoso mago os impede de reunir um número capaz de fazer frente aos nossos homens.
– Entendo – murmurou Aguirre. – E porque os nobres estão mandando forças para Norm, aquela cidade a leste?
– Porque os bérnios, nossos selvagens vizinhos inconvenientes, vez por outra ficam corajosos de novo, e sempre precisamos pô-los em seu devido lugar – disse Thane.
– Bárbaros sempre são um problema – disse o estrangeiro.
E a animação da taverna continuava pela noite tempestuosa. Os raios cortavam os céus e os trovões pouco eram ouvidos pelos bêbados, que já começavam a cair pelos cantos ou voltar para casa.
•••
Selmik ouvia os trovões. Eles abafaram o barulho tremendo das suas batidas na parede da velha masmorra em que se encontrava, em uma seção onde a infiltração havia enfraquecido a alvenaria gasta, de modo que o homem pôde quebrar bastante a pedra e passar com muito esforço pelo buraco estreitíssimo que conseguira fazer. 
Mas ele era um ladrão profissional, e arte da fuga era um de seus talentos. Fora do calabouço, se esgueirou pelas sombras até a muralha, e escalou as pedras habilmente, saltando do outro lado para a liberdade. Estava faminto, queria matar seu captor e roubar alguém para satisfazer seu orgulho.
Ele realmente tinha vindo da Bérnia. Mais especificadamente de Breval, um dos reinos bérnios, e estava viajando através das montanhas ao norte de Bielefeld quando fora encontrado por uma patrulha de anões. Estes extorquiram todo o seu ouro para não levá-lo à corte marcial de sua fortaleza, apenas por transitar em terras que a raça considerava seu domínio. Logo, quando pôs os pés no reino, estava com a sacola vazia e absolutamente faminto. 
Conseguiu sobreviver ao longo da estrada até Ortshire arranjando víveres – por bem ou por mal – nas fazendas dos feudos, e logo ao chegar à vila começou a reabastecer a bolsa e se preparar para continuar sua jornada. Mas Nimb, o deus do destino, lhe aprontara uma peça: um guarda incrivelmente perspicaz chamado Owen percebeu um de seus roubos e, junto com outros homens, o apanhou e jogou direto na masmorra do castelo. Para piorar, o xerife da cidade instantaneamente lhe reconheceu como bérnio e de repente uma noite na cadeia e uma surra agora era a espera para a forca.
Selmik planejava começar a matança logo. Bastava sangrar o tal Owen, roubar algum ouro e deixar aquele lugar para sempre. Uma tarefa fácil, já que era uma noite de tempestade e todos estavam nas tavernas bêbados e felizes, e sequer notariam o ladrão. Ele arrombou a casa do ferreiro e roubou duas boas adagas, um manto escuro e uma boa soma de ouro e prata, e passou a se esgueirar pelas ruas, evitando os próprios ladrões e guardas da vila. Em dado ponto, avistou seu alvo à paisana, junto com outros cinco homens, encurralando um jovem que parecia ser nobre.
Escondeu-se em uma área escura bem perto do local e se pôs a observar.
– Então, seu veadinho Jarvec – disse Owen. A casa Jarvec tinha terras ao sul, entre Ortshire e Kiregard. –, não estou vendo seu papai ou seus guardas por aqui. Cadê a sua coragem, hein, franguinho?
– Você está em vantagem, senhor – gaguejou o rapaz. Selmik riu sozinho. – Não que eu queira desde o começo qualquer atrito com o senhor, mas seis contra um não é… Demais?
– Está contra mim apenas, fedelho – disse o guarda, lhe bofeteando. – Frangote.
– Isso é necessário, senhor? Eu apenas converso com Rose quando venho aqui, e…
Calaboca, filho de uma porca maldita! – gritou e depois sussurrou perto do rapaz. – Jarren, quantas vezes eu te disse pra não voltar mais a Ortshire, e você não ouviu? Agora vou ter que te matar.
Jarren tentou gritar, mas Owen foi rápido e deu um soco na garganta do garoto, que se curvou e começou a ser espancado. Alguém veio andando pela rua oposta, e os cinco amigos do guarda foram abordá-lo – a oportunidade perfeita.
– Festa particular, rapazes? – Selmik ouviu alguém dizer na rua, com uma voz que exalava liderança.
Subitamente, o ladrão saltou como um felino nas costas de Owen e cravou os dois punhais no pescoço do guarda, fazendo uma acrobacia e aterrissando logo à sua frente, de modo que o homem encarasse seu algoz. Os dois trocaram olhares fortuitos e Owen morreu, tingindo o chão branco de vermelho. Selmik fitou o nobre moribundo, surrupiou seus pertences mais valiosos e viu dois dos guardas à paisana fugirem pela rua. Sem demora, saltou novamente para a escuridão e avistou Sir Broonlek chegando e analisando a cena, confuso. Ele conhecia aquele homem, mas o sujeito não o reconheceria, de qualquer modo.
Foi quando os homens voltaram e passaram pelos dois a plenos pulmões.
Tanto Broonlek quanto o ladrão ouviram o toque de chifres e tambores. O cavaleiro girou nos calcanhares e saiu correndo, e Selmik o seguiu a uma distância segura, até que decidiu subir em uma casa. Era difícil ver na escuridão tempestuosa, mas graças à neve ele pôde divisar as centenas de silhuetas indistintas varrendo cruelmente as guarnições e sentinelas noturnas de Ortshire e invadindo a vila. Ciente do que estava por vir, simplesmente roubou um cavalo negro nos estábulos e galopou a toda velocidade para o sul, bem longe do pandemônio vindouro.
Que desastre aguarda a cidade de Ortshire? Conseguirão Selmik e Broonlek sobreviver ao infortúnio? Veja na parte 03, a conclusão desta saga!
*Sim, esses são os personagens da campanha. :D
Para ler a parte 3, clique aqui.
Créditos de imagens: Andreas Rocha, Matt Bradbury e Ubisoft (não achei o nome do artista).
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2 comentários em “Conto – A Queda, parte 2 de 3

  1. A grande sacada foi adicionar imagens ao conto. Fica muito mais fácil ir visualizando a cena.

    E se você não comentasse no fim do post eu já ia perguntar quais eram os jogadores da mesa XD

    Vou ler a parte 3 agora. (E linka ela no fim do conto aqui)

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