Criando aventuras memoráveis a partir de outras mídias

Era noite no reino de Avangard. A aldeia estava em alvoroço, com soldados guiando a turba em evacuação, quando uma carruagem apressada estacionou diante do castelo real. O Conde Nickolas Fury recebeu um rápido relatório da situação de Sir Coulson, o grão-mestre dos cavaleiros reais, e rapidamente se dirigiu ao salão menor. 

O lugar estava saturado de magia, iluminado com a luz azul do artefato mais poderoso que o reino já vira, o Tesseracto. O mago Selvik logo tratou de informar que a situação estava crítica, e a relíquia parecia ter “acordado”, a despeito de todos os seus feitiços de contenção. 

Fury quis saber de Clint Bartan, o famoso heroi com a respeitável alcunha de Gavião Arqueiro, se algum inimigo havia se infiltrado e tinha algum papel naquilo. Não havia, mas o Gavião logo trouxe uma incontestável teoria à tona: o Tesseracto era um portal mágico, que também podia ser aberto pelo outro lado.

E assim, um facho de luz cegou a todos, e um estrondo foi ouvido quando a poderosa magia do cubo místico simplesmente abriu um rasgo nos planos. Muito embora o castelo começasse a tremer com a energia ali presente, um homem surgiu. Trajava mantos esverdeados, armadura dourada e segurava um poderoso cajado. No semblante jovial, um olhar insano e um sorriso vilanesco. 

E aquele terrível arcano não demorou a vencer todos os presentes – dominou o Gavião e o mago Selvik com feitiços, e deixou Fury no chão com uma rajada arcana. O estranho vilão roubara o Tesseracto, e agora Fury teria de convocar os maiores heróis em todas as terras – o paladino Sir Rogen O Capitão, o guerreiro arcano Starc Homem de Ferro, a assassina Aranha Negra, o clérigo Thar e o instável gigante chamado Brutal – para salvar o reino…

Obviamente você sabe de onde é a referência do texto acima. De acordo com Joseph Campbell, a maioria das culturas compartilha de muitos elementos em comum nos seus mitos e histórias. Desde o início dos tempos os mitos influenciam todas as histórias que, no fim das contas, são todas a mesma com formas diferentes. A mitologia grega, por exemplo, é uma das mais fortes inspirações de histórias de heróis da mídia.

Muitas vezes assistimos um filme ou lemos um livro e ficamos imaginando outras formas de histórias com eles. Ilustradores vão além e fazem exercícios criativos – quem nunca viu um Darth Vader samurai atire a primeira flecha – que nos deixam extremamente inspirados.
O intercâmbio de mídia é muito mais comum que a gente imagina, aliás. O próprio Star Wars é uma história de fantasia com elementos de histórias de cavalaria e samurais, espírito de tragédia grega e roupagem de space opera. Firefly é um faroeste espacial, e os filmes do Quentin Tarantino são todos homenagem ao cinema dos anos 40 a 70. 
A obra de Lovecraft inspira boa parte da fantasia moderna. Usagi Yojimbo é Musashi com furries, e os próprios comics americanos são uma salada de referências, tanto é que existem várias histórias especiais mudando o gênero ou época das histórias, como a linha Noir, o Marvel 1602, A Foice e o Martelo (Superman russo) e muitas outras. Muitos filmes são uma visão estilizada de um diretor, como as reinterpretações de Tim Burton, ou mesmo uma história clássica adaptada para outra vertente, como o musical de Romeu e Julieta de Baz Luhrmann ou a recente série Sherlock da BBC.
Obviamente, o RPG é uma mega colagem dessas mesmas referências, desde o D&D altamente greco-romano até o louco fashionista FreeMarket. Vindo para mais perto, ano passado joguei numa mesa com o Bob Nerd, uma aventura em Tormenta que faz parte de um grande módulo do cenário (Contra Arsenal). Tratava-se de recuperar um item mágico perdido no mar, que faria a diferença na comunicação das tropas aliadas. 

O enredo, segundo Bob, foi inspirado em um episódio da Segunda Guerra Mundial. Achei muito legal isso, e passei a pegar bem mais referências em histórias (reais ou ficcionais) que eu gostei para preparar minhas aventuras, misturando plots, mudando roupagem e época, ou mesmo mantendo só o espírito da coisa (como aventuras que lembravam filmes noir, por exemplo).
Na verdade não é difícil criar aventuras memoráveis utilizando intercâmbio de mídias – é um exercício bem divertido, até. Pegue alguma história que gosta e que acha que daria uma boa aventura para você. Faça uma engenharia reversa, pensando nos elementos básicos ou no que exatamente fez dela uma história marcante. Dê uma nova roupagem a ela, ou mude-a o bastante para que os jogadores não a reconheçam de cara. 
Essa parte é absolutamente crucial, porque você precisa fazer um bom trabalho, de preferência misturando outras referências, alterando pontos-chaves (como um ou outro aspecto do plot principal) e deixando-a quase irreconhecível. Uma história “chupinhada” fará de você motivo de chacota dos jogadores, como um narrador que eu conheço que mestrava basicamente histórias copiadas de filmes que tinha assistido no último fim de semana.
Por exemplo, vamos pegar a única campanha de D&D que narrei até o final. Me baseei muito em Star Wars para criá-la, pegando os elementos principais e alterando. Basicamente, o enredo trata de um cenário que vive em guerra, com o poder “bonzinho” (a Aliança) sendo conspurcado por uma organização maligna (os Sith) que instaura um império (o Império). Essa organização é liderada por um homem poderoso (Darth Sidious/Palpatine), que usa um cavaleiro corrompido (Darth Vader/Anakin Skywalker) para ser seu testa-de-ferro enquanto ele está infiltrado na política do cenário (o Senado). 
Enquanto isso, uma princesa (Leia) é mantida cativa em uma fortaleza em construção dos subalternos (a Estrela da Morte) e é salva por um garoto perdido no mundo que de repente vira herói (Luke) e seus companheiros. Ao longo da história, o herói descobre que é filho do vilão testa-de-ferro, vive um romance que dá errado com a mocinha e ela acaba ficando com um companheiro de grupo, e os laços de amizade se reforçam enquanto eles passam por vários perigos e encontram vários aliados e subquests. No fim, o vilão secundário se redime, ajuda o herói a destruir o vilão principal e a paz é restaurada.
Na minha campanha, Bielefeld, um reino de cavalaria tradicional (veja o espírito de história de cavalaria de Star Wars), é invadido pelo guerreiro conquistador Darius Drakkan (Vader), querendo vingança da igreja e do reino (que queimou sua esposa como bruxa e o despojou de suas terras) e liderando um exército de orcs, provido por seu antigo companheiro de aventuras Belkion, que agora é um lich (Sidious). 
Esses orcs se concentram em uma fortaleza nas montanhas centrais do reino, e a druidisa Aillah (Leia) é presa como escrava nesse lugar, junto com os outros PJs – o ladrão halfling Fox (C3PO), o guerreiro anão Dorgauth (R2D2) e a arqueira Keriann (Chewie). 
Paralelamente, o guerreiro meio-elfo amargurado e deslocado Lyon (Luke) é orientado por um mago bondoso chamado Tyrion (Obi Wan) a salvar esse povo. Ao longo da história, Lyon descobre que é filho de Drakkan, e todos acabam mudando de lado para lutar ao lado dele. 
No meio da história Lyon e Aillah se casam e se divorciam, e Aillah casa com um bardo que andou no grupo por um tempo chamado Hadrian (Han Solo). Belkion se disfarça de Tyrion (seria de certa forma Palpatine) e consegue ludibriar os heróis para que eles peguem as duas partes de um medalhão mágico que os vilões querem. 
No fim, Drakkan e o grupo se juntam para destruir Belkion, que usara os orcs para cavar e encontrar o cadáver do dragão de prata mais antigo do mundo e assim ele usar o medalhão, que continha o coração do dragão (uma magia antiga) para roubar seu poder (a Estrela da Morte). Eles destroem o mago, ressuscitam o dragão e restauram a paz.
Ou seja, algumas coisas foram propositais, outras sem querer, e algumas ficaram bem diferentes, mas veja que o espírito da coisa está ali e a história foi tão bem pensada que os personagens acabaram naturalmente se encaminhando de forma parecida. 
Não estou dizendo para você se tornar um plagiador de histórias, mas além de nós narradores nem sempre termos tempo e saco para inventar plots do nada (percebe que eu falo muito disso aqui no blog?), como eu disse lá em cima, é ilusão achar que nós não somos influenciados por outras coisas nas histórias que criamos. Somos esponjas culturais, que aproveitam tudo a que são expostos. A questão é que quando isso é feito intencionalmente, o resultado é bem mais legal. :D 

9 comentários em “Criando aventuras memoráveis a partir de outras mídias

  1. Massa como sempre Dan!

    Uso muitas referências para jogos em Fantasia, mesmo vindas das mais inusitadas fontes. Toda ideia pode ser reformulada e reapreoveitada desde que se tenha boa vontade e dedicação para se adaptar o conceito.

    Parabéns pelo trabalho!

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  2. Isso acontece muito, de fato, em todas as mídias e não é diferente no RPG. Quanto cenário de campanha não foi feito baseando-se em um livro, filme ou outras coisa. Ainda que disfarçado, Dark Sun tem muito de Barsoom. Evermeet tem muito de Valinor e assim vai.

    Eu particularmente roubo ideias de RPGs mesmo. Gosto de ler aventuras de vários sistemas, mesmo aqueles que não jogo ou não gosto, e busco inspirações nelas para as minhas próprias. Faço a mesma coisa com filmes, jogos e livros.

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