Inspirações de culturas da Terra em Dragon Age

Não é de hoje que eu posto sobre referências e tudo mais aqui no Birosca. Além do post de ontem, já escrevi um que fala sobre as inspirações dos criadores de cenários de fantasia em culturas do mundo real (Westeros, Mystara, Arda…).

Meio que como um puta exemplo de ilustração desse fato, meu irmão Rafael, que está narrando uma campanha de Dragon Age RPG pra gente (que está sensacional, diga-se de passagem) compilou e traduziu (tradução livre e selecionada) algumas trivias do Dragon Age Wiki, e eu dei uma força revisando e complementando.

Sendo assim, trago essas curiosidades bacaníssimas para o deleite de vossos olhos (e a inspiração dos narradores e criadores de cenários). Já começa forte: o nome do mundo, Thedas, nada mais é THE Dragon Age Setting, um acrônimo que usavam no fórum da Bioware!

Anderfels

Nação do norte de Thedas onde nasceram e estão sediados os Guardiões Cinzentos.

Anderfels parece ser muito vagamente baseado no Sacro Império Romano, que foi um estado medieval germânico. O Escritor David Gaider afirmou que Anderfels é “de caráter alemão, talvez puxado um pouco mais pro lado visigodo”. Presumivelmente, personagens dos Anderfels falam com o sotaque alemão. Claro, o Estado da Ordem Teutônica, um estado a nordeste da Alemanha e da Polônia (regido pela Ordem dos Cavaleiros Teutônicos, uma ordem militar cruzada) vem à mente.

Os Anderfels também ostentam uma semelhança com a Rússia medieval e Mongólia, com os seus rígidos guerreiros e vastas estepes. Weiss é a ortografia alemã para ‘branco‘ e Haupt é alemão arcaico para “head” – hoje, costuma significar “main“. Isso pode ser traduzido como “topo branco” (como de uma montanha coberta de neve). Anders é “diferente” em alemão; fels é ‘rocha’.

Antiva

Um centro de comércio ao nordeste de Thedas, cuja capital costeira é uma das cidades mais ricas do mundo.

Antiva é a versão fictícia de uma típica cidade-estado medieval italiana, como Veneza, e seria originalmente chamada de Calabria. O nome foi mudado porque Calábria é uma região real na Itália, embora as cidades de Treviso e Rialto, que aparecem no mapa, sejam cidades italianas. No entanto, Antiva é erroneamente referida como Calabria em Dragon Age: The Stolen Throne e em algumas versões locais de Dragon Age: Origins.

Antivanos, particularmente Zevran, falam com um forte sotaque espanhol. Alguns antivanos no jogo podem dizer palavras em espanhol. Zevran, quando se envolve em um romance em Dragon Age: Origins, aleatoriamente diz Si Amor? (“Sim, amor?”) quando é selecionado. Outro caso é Vincento em Dragon Age II, que diz Maldición (um termo em espanhol para “caramba”).

Estradas Profundas

Rede extensa de estradas subterrâneas que pertenceu ao reino dos anões. Parecem ser vagamente baseadas em Moria, da franquia The Lord of the Rings, de J.R.R. Tolkien.

Ferelden

Um reino a sudoeste de Thedas, que foi dominado por Orlais e libertado pelo heroico Rei Maric. É o local onde se passa Dragon Age: Origins.

Ferelden é vagamente baseado na Grã-Bretanha no mundo real medieval. Personagens humanos de Ferelden falam com um sotaque característico Inglês. Mais especificamente, Ferelden parece ser fortemente baseado na cultura dos anglo-saxões, com uma grande influência nórdica. A ocupação de Ferelden pelo Império Orlesiano reforça a comparação com a Europa medieval. Especificamente, os anglos-saxões (Ferelden) sendo conquistados pelos franceses (Orlesianos) parece ser baseado na invasão da Inglaterra por William, o Conquistador em 1066.

Ao contrário da Inglaterra anglo-saxã, no entanto, Orlais foi expulso de Ferelden. Ferelden é essencialmente o que a Inglaterra teria sido se os saxões houvessem deposto seus conquistadores normandos em torno de 1200 A.C., algumas gerações depois da conquista, como Ferelden repeliu Orlais.

Além disso, as semelhanças com os anglo-saxões são constatadas quando se observa que os fereldenianos modernos são descendentes dos alammari e avvarianos, inspirados nas tribos germânicas; assim como os históricos anglo-saxões foram descendentes das três tribos germânicas, os anglos, saxões e jutos, como observado pelo monge beneditino Bede. Influências da Nortúmbria (um reino dos anglos no norte da Inglaterra, dividido em 2 partes) também são claras nos nomes dos fereldenianos, (Ex: Urien, Oswald).

O Teyrnir (terra de um Teyrn) de Cimassempre parece ser vagamente inspirado em uma combinação da Irlanda com a Escócia. Tanto a Irlanda quanto Cimassempre foram forçados a se submeter através da conquista militar. Cimassempre se junta ao Ferelden do Rei Calenhad tal como a Irlanda se junta ao Reino da Inglaterra, sobre a qual se baseia Ferelden. Além disso, vários habitantes de Cimassempre têm nomes escoceses gaélicos, como Ser Gilmore ou o filho mais velho do Teyrn, Fergus. O nome padrão do nobre humano no game, por exemplo Aedan, é irlandês.

Muitos dos títulos fereldenianos possuem análogos no mundo real:
– Ser é provavelmente baseado no título honorífico Inglês Sir, que é concedido aos cavaleiros britânicos. Tem sido utilizado anteriormente com o mesmo significado na coletânea A Song of Ice and Fire, de George R.R. Martin.
– Bann é provavelmente baseado no título real Ban, que significa “senhor” ou “mestre”, que foi usado na Hungria e Croácia durante a Idade Média. Bann também equivale à situação do termo semelhante “Barão”.
– Arl é provavelmente baseado no britânico Earl, título anglo-saxão original.
– Teyrn é também um título real, sendo “Soberano” ou “Monarca” em galês.

Os fereldenianos também são semelhantes aos celtas das ilhas britânicas. A profetisa Andraste tem semelhanças claras com Boudica. As semelhanças se tornam bastante claras quando se recorda que Boudica liderou uma rebelião contra os romanos nos dias modernos da Inglaterra. Os Fereldanianos usam seus cães de guerra para derrubar cavaleiros blindados, assim como os irlandeses fizeram com seus galgos quando foram invadidos pelos ingleses nos séculos 9 e 10.

Além disso, existem fortes influências gaélicas e irlandesas na nomeação de personagens fereldenianos (Loghain Mac Tir, rei Cailan). Porém, estas comparações são relativamente sutis quando se percebe como os fereldenianos são pesadamente baseados nos saxões.

Nevarra

Nação central que já foi uma das maiores cidades-estados das Planícies Livres, mas se expandiu a ponto de se tornar um poder que rivaliza com Orlais.

Embora Nevarra tenha um nome semelhante ao da região espanhola de Nevarra/Navarra, a região não é baseada na Espanha. A maneira nevarrana de não queimar seus mortos, mas preservar seus corpos e selá-los em túmulos e mausoléus é similar às culturas do antigo Egito e Mesopotâmia. Os nevarranos ricos também começavam cedo a construir seus túmulos, assim como os faraós egípcios.

Nevarra também compartilha algumas características com a Prússia. Ela expandiu-se de uma federação de cidades-estados para se tornar um poderoso reino, semelhante à forma como a Prússia se expandiu e se tornou a maior potência entre os principados e reinos alemães durante os séculos 18 e 19.

O conflito com Orlais sobre as ricas em minerais Colinas Devastadas é parecido com a forma como a França e a Prússia lutaram pela região de Alsácia-Lorena. Além disso, o termo “prussiano” é sempre utilizado, dentro e fora da Alemanha, para enfatizar a agressividade, profissionalismo e militarismo, traços semelhantes aos de Nevarra e do clã Pentaghast.

Orlais

Império antigo que já dominou Ferelden. Uma das mais poderosas nações em Thedas.

Orlais é vagamente baseada na França do mundo real (observe como o seu nome é semelhante a Orléans). Mais de perto, no entanto, é provavelmente um evocativo da Inglaterra normanda, dada a sua ocupação de Ferelden, assim como os normandos conquistaram os saxões durante 1066.

Também é interessante notar que topônimos orlesianos incluem palavras em francês, como o antigo val significando “vale”, mont, que significa “monte”, e assim por diante. Além disso, os personagens orlesianos falam com um sotaque francês, e seus cavaleiros são referidos como chevaliers.

Orlais já foi chamada de Arles. O nome foi mudado porque Arles é uma cidade real na França.

Par Vollen

Arquipélago tropical a norte de Ferelden, que sedia o Qunari, que é uma espécie de filosofia que engloba várias raças. Suspeita-se que a cultura humana que existia em Par Vollen antes da chegada Qunari tem semelhanças com as antigas culturas pré-colombianas da América Latina, como os maias, astecas e civilizações andinas.

O Qunari tem referências claras de militância islâmica, com princípios que lembram o Islã. É provavelmente baseado parcialmente no Império Otomano e os turcos seljúcidas, inimigos mortais do Imperium Tevinter, que é equiparado ao Bizantino. Possuem tecnologia avançada (incluindo canhões), são considerados pagãos pelo Coro (a igreja “católica” de Dragon Age) e têm sido alvo de várias Marchas Exaltadas (que equivale a uma Cruzada cristã).

David Gaider disse que a arquitetura Qunari é influenciada pela arquitetura maia.  A estrutura de sua sociedade é semelhante à da comunidade ideal delineada na República de Platão, que divide a população em três classes: produtores (agricultores, artesãos, operários, etc), auxiliares (guerreiros) e filósofos (os governantes).

Platão também argumentou que os interesses do Estado devem vir antes da felicidade individual, negou a propriedade privada e afirmou que as crianças devem ser criadas em comunidade (embora os útlimos dois pontos de vista sejam destinados apenas para a classe dominante, não a sociedade como um todo). No entando, ao contrário do Qunari, Platão condenou qualquer tipo de guerra ofensiva: os militares só existem para defender.

Planícies Livres

Nome coletivo dado a um grupo de cidades-estado situadas a leste de Thedas, cujas principais são Kirkwall (local onde se passa Dragon Age 2), Starkhaven e Tantervale. Não possui referências.

Rivain

Península na região norte de Thedas. Rivain possui fortes referências da Espanha durante a Idade Média, particularmente durante a ocupação dos mouros islâmicos (a la Qunari em Dragon Age). As referências da Espanha podem ser vistas na compleição mediterrânea das pessoas rivaini, bem como as circunstâncias religiosas e a sociedade conhecidas nos territórios ibéricos anteriores à Reconquista.

O povo de Rivain têm também semelhanças com as nações do mundo real da Itália, Líbano, Grécia e Israel. Sua religião, que é centrada em torno de videntes, tem semelhanças com o vodu. Além disso, em Rivain, piercings mostram o status social, assim como algumas tribos africanas.

Seheron

Ilha úmida de selvas a norte de Tevinter. Não possui referências.

Tevinter

Nação governada por uma poderosa magocracia.

David Gaider afirmou que o Imperium Tevinter é vagamente baseado no Império Romano do mundo real, especialmente no período pós-bizantino. Eles compartilham uma série de semelhanças: primeiro, tanto os Impérios Romano e Tevinter conseguiram conquistar a maior parte do continente no qual se encontravam; em segundo lugar, o Império Romano executou Jesus por causar dissensão da mesma forma que o Imperium Tevinter executou Andraste; ambos os Impérios seguem os ensinamentos de seus respectivos profetas; assim como as asas católicas ortodoxas e romanas do cristianismo excomungam uma à outra, as Capelas Orlesiana e Tevinter estão sempre em conflito; Tevinter teve várias Marchas Exaltadas contra ele, assim como o Império Bizantino enfrentou suas próprias Cruzadas.

Além disso, assim como o Império Romano, o Imperium construiu muitas vastas redes de estradas e aquedutos. Um exemplo disto é a Estrada Imperial vista em Dragon Age: Origins. Finalmente, Tevinter luta sozinha contra o Qunari, assim como o Império Bizantino lutou sozinho por quase cinco séculos contra os seljúcidas antes, e depois os otomanos.

O Imperium, enquanto nação governada por magos poderosos, impedosos e ambiciosos e também o único onde a escravidão não é ilegal, é muito parecido com a nação de Thay, de Forgotten Realms. Esta é regida pelos sedentos por poder Magos Vermelhos de Thay.

9 comentários em “Inspirações de culturas da Terra em Dragon Age

  1. O mais interessante nesses cenários é a evolução da “criatividade da cópia”… por exemplo, antigamente, cenários como Mystara simplesmente pegavam as culturas e trejeitos das etnias terrestres sem se preocupar com os acontecimentos históricos, ligações entre os povos, guerras, clima das regiões, entre outros fatores que são muito importante para o desenvolvimento geográfico das nações (sim eu estudei bastante geografia de ensino médio, maldito vestibular =P).

    E esses cenários modernos foram melhorando isso. No caso do Dragon Age, os escritores se preocuparam em arranjar os conflitos que cada nação teve de acordo com suas representantes terrestres. Permitindo que, por exemplo, hajam coisas mundanas como, preconceitos raciais e culturais, rixas eternas entre povos como, Ferelden e Orlais, que, como suas semelhantes, Inglaterra e França, sempre nutrirão aquele “nó na garganta” quando se encontrarem, por mais que a paz mundial prevaleça.

    Então é isso, adoro Dragon Age, e adoro essa “criatividade”… dane-se o “original”, hoje é a era da “cópia”, o importante é copiar com estilo… ou melhor, fazendo sua copia estilizada!

    Ótimo Post!

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  2. Não que seja era da cópia, mas sim era da inspiração. Uma coisa é você pegar essas culturas, usar a base delas, os detalhes e transformar em algo completamente independente. Outra e você jogar algo já criado e achar que vai funcionar.

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  3. “O conflito com Orlais sobre as ricas em minerais Colinas Devastadas é parecido com a forma como a França e a Rússia lutaram pela região de Alsácia-Lorena.”

    Alsácia e Lorena são regiões entre França e Alemanha, não Rússia. Creio que aqui você quis dizer Prússia. Nos trechos anteriores, você faz a referência correta, então isso deve ter sido apenas uma desatenção.

    (pode apagar esse comentário depois de ler)

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  4. Pois é, nada é mais criativo que a própria realidade, já dizia meu professor e mestre Rui de Oliveira. Estamos nos baseando em várias culturas terrestres antigas e até atuais para o Bruxos & Bárbaros, com direito até a um povo com crença parecida com a cientologia.

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