Conto – A Queda, parte 3 de 3

Aqui está, nesse fim de sexta-feira, a terceira e última parte deste que considero um dos meus melhores contos. Escrito como um interlúdio de uma campanha de fantasia medieval, retratou o último suspiro de uma cidade que estava destinada a cair, e os personagens dos jogadores sabiam disso assim que fugiram da região. 

Eles procuravam alguns refugiados de uma fortaleza orc. Antes de sair da vila, porém, descobriram que havia uma elfa presa no castelo do senhor de Ortshire, Lorde Fergus. Pelo ímpeto do líder do grupo, um guerreiro meio-elfo, resolveram salvá-la, e a levaram em segurança até o feudo de um certo Sir Broonlek. Mas Fergus, sendo um lobisomem com um poderoso faro, os seguiu e recuperou a prisioneira. 

Os heróis escaparam por entre seus dedos com a ajuda do bondoso cavaleiro, e isso lhe custou caro – Fergus, a quem ele servia, esmagou seu feudo, queimou e salgou suas terras, e por pouco Broonlek não escapava com vida. Porém, mal sabia o Senhor Lobisomem que seu destino estava fadado…


Para ler a parte 02, clique aqui. Para ler a parte 01, clique aqui.
Não era a friagem que chateava Allen, já que havia um bom braseiro aos seus pés. Tampouco seus pais na cama próxima ressonando, porque sua irmã tinha lhe bordado um bom tapa-ouvidos para a noite. Nem era Flautista, a cadela da família, arranhando a porta dos fundos da casa modesta, ou o cavalo Tramela trotando inquieto na baia anexa à barraca… Algo o estava deixando inquieto esta noite.
O garoto não conseguia saber o que era, e a sensação não lhe deixava dormir. Bem ao lado dele, sua irmã mais velha dormia pesadamente embaixo das cobertas – o que também não era problema, porque ela estava quase na idade de casar e logo ia deixar mais espaço na cama. E o barulho das tavernas próximas tinha se tornado praticamente uma canção de ninar para Allen, de modo que ele só não se levantava e ia dar uma volta porque todo mundo sabia que os monstros das sombras devoravam crianças fora do leito.
Sem muito a fazer, se pôs a devanear. Não gostava nem um pouco de Ortshire, porque era muito perto das montanhas, lugar obviamente perigoso e cheio de monstros horrorosos. Sua infância havia sido quase toda em terras mais amigáveis ao sul, onde o mar quebrava nas rochas e dava para atormentar as gaivotas todas as tardes, sem pensar que ele e Hannah sempre contavam os navios que iam e voltavam passando pela região, e de modo geral todo mundo era mais feliz.

Mas no último inverno seu pai viera com uma conversa sobre colheitas, um novo senhor e novos vizinhos, muitos sorrisos e uma carroça cheia das coisas deles por dias e dias, até que se instalaram num casebre no meio daquela vila apertada e cheia de garotos encrenqueiros, onde seu pai vendia ao povo o queijo que um tio próximo fazia.

Estava quase pegando no sono quando gritos foram ouvidos na rua. Seus pais e Hannah acordaram de chofre quando alguém berrava lá fora algo sobre um ataque, e em um segundo toda a família já havia posto a cabeça para fora. Um guarda montado passou a todo galope por eles, com o ombro sangrando um horrendo ferimento de flecha.
– A vila está sob ataque! Orcs! Para o castelo, rápido! – gritava a plenos pulmões.
Enquanto uma balbúrdia começava nas ruas, com todos saindo às pressas de casa e tentando alcançar o castelo, os pais e a irmã de Allen correram para juntar trouxas com o que pudessem carregar, e o menino ficou observando o movimento, admirado.
– Eu tava certo, afinal – se orgulhou. – Pai, o que são orcs?
– Monstros maus, meu filho! – esbravejou o homem. – Não fique aí parado, ajude sua mãe!
Enquanto o pai saía para buscar o cavalo, Allen foi ao auxílio da mãe, pegou algumas coisas e puxou Flautista pelas orelhas felpudas – o cachorro tinha mania de entrar e se meter debaixo da cama. O garoto parou perto da porta e ficou observando as duas mulheres desesperadas, sem entender a seriedade da situação.
Então houve um berro e um relincho alto, e Flautista correu para fora. Allen a seguiu correndo até a baia, onde ouviu os latidos da cadela e um ganido atordoante. Viu três homens primitivos e corcundas, bem mais altos que seu pai, de pele acinzentada e malignos olhos vermelhos. Eles tinham cabelos grossos, testa baixa e rosto suíno com caninos proeminentes parecidos com presas de javalis, armadura rústica e grandes espadas curvas.

Os orcs saíram da lateral da casa levando Tramela para a rua caótica. Antes que pudesse ver o que acontecera com o pai, porém, Allen foi puxado de volta para casa por Hannah, e sua mãe trancou a porta, chorando. O menino ainda começou a perguntar por que estavam tão amedrontadas, mas a porta foi escancarada com um estrondo.

– Saia pelos fundos e vá pro castelo, Allie! – gritou Hannah, sacudindo o garoto. Ele começou a protestar, mas ela o empurrou para os fundos. – Não discuta, é seguro!
Os três orcs entraram na sala gritando e derrubando tudo. A mãe de Allen se pôs à frente dos irmãos, mas foi esmurrada por um deles e caiu pesadamente. O segundo orc apanhou Hannah e jogou na cama, rasgando o vestido da garota num puxavante. O outro tentou pegar o menino, mas ele foi mais rápido e escapou com um salto, correndo para a rua. O monstro correu atrás dele com um sorriso malvado, fechando a porta atrás de si. Gritos foram ouvidos lá dentro, se juntando à cacofonia geral da vila.
– Vamos brincar de esfolar humano, pequenote? – grunhiu o orc, sacando uma faca. 
Saltou na direção de Allen brandindo o punhal, mas o garoto deu uma cambalhota por entre suas pernas e saiu correndo, com o diabo nos calcanhares. Passou por um beco mais estreito, subiu em dois barris e se preparou para saltar até uma carroça abandonada na esquina, olhando de soslaio o braço da criatura que descia com a adaga brilhando na noite.

Quando a arma passou, o garoto caiu cabriolando do outro lado da carroça e o orc chutou os barris, voltando à perseguição. Allen deu uma olhada na perna, e viu um rasgão no trapo de dormir. Livrou-se da incômoda camisola, ficando somente de malhas por baixo, tremendo de frio.

Começou a subir em disparada pela rua mais próxima da colina, onde se enfiou em uma turba confusa que avançou em polvorosa ao ver o monstro se aproximar. O orc desistiu ao ver que estava chegando muito perto da colina e o menino respirou, aliviado, quando uma senhora simpática que lhe pedia ajuda com o gato fujão de vez em quando tomou sua mão e o portão do castelo se aproximou.

Allen não tinha pensamento algum na cabeça, apenas o mais puro instinto de sobrevivência. Ainda olhou para a cidade logo abaixo, e se lembrou do mar da infância, porque um exército de orcs tão terríveis quanto aqueles que mataram sua família estava invadindo as ruas e passando pelas casas, como a água fazia com as rochas, prestes a se chocar contra o penhasco que era o castelo onde ele estava entrando.
Assim, esperava que certo ditado sobre água e pedra não estivesse correto.
No alto do rochedo um cavalo bestial enorme bufava, com suas presas e olhos em um tom avermelhado. Tinha uma sela militar preta, ornamentada e com uma manta cinza embaixo, e seu cavaleiro era uma figura igualmente corpulenta e encapuzada, com um descomunal machado de cabo nodoso e repleto de runas pendurado perto do alforje do animal. O vulto possuía uma armadura de batalha bem gasta e seu rosto era de um orc ainda maior e mais amedrontador que os outros. Espanou a neve dos ombros, franziu o cenho e admirou satisfeito quando a horda invadiu a cidade de Orkney.
Um cavalo de campanha se aproximou do seu lado, negro como ébano, com cota de malha e manta rubra encimada por uma ornamentada sela militar. Na sela, um intimidador homem em uma couraça completa enegrecida pelo tempo, uma rica espada bastarda na bainha, lança no alforje e escudo grande de metal no braço esquerdo. Ao seu lado, cavalgavam dois pajens, ambos órquicos, mas o cavaleiro era humano e possuía o rosto barbado, grisalho e marcado por baixo da viseira levantada do bacinete.
– Tudo sob controle, senhor – rosnou o enorme orc, com sua voz gutural.
– Sem dúvida. Que seus orcs se comportem, general – o homem deitou os olhos azuis pelo vale, admirando os primeiros telhados em chamas e as flechas voando a partir do castelo no topo da colina.
– O lobo já está dentre as ovelhas, milorde. Logo o castelo vai abrir as pernas.
O homem ponderou um pouco, sentindo a brisa da estiagem.
– Quero todas essas terras queimadas, e que nenhum mísero grão deixe de subir as montanhas.
– Não deixarão, sir Drakkan. O inverno vai ser longo – sorriu o orc.
Drakkan deu meio sorriso ao lembrar-se de um detalhe.
– Talvez você encontre uma elfa entre as cortesãs do senhor dessas terras. Nesse caso ela é sua, Shagrat. O idiota me havia prometido, mas eu não preciso de mulheres por enquanto.
– Sim, senhor – animou-se o general. – E o lobisomem?
– É meu. Cuide do restante, e não deixe prisioneiros.
– Essa escória miserável vai sentir a nossa fúria, meu senhor. Quem não queimar junto com a vila irá ficar para os corvos antes que o sol miserável venha nos perturbar.
– Não falhe novamente.
– Não falharei.
Até a música alegre cessou quando todos os convivas na Caneca de Prata pararam, chocados, ao ver o homem alto, sujo, coberto de neve e armado com uma espada enorme chegar alarmado e abrir com um estrondo as portas da taverna, jogando uma lufada do vento frio noturno que apagou a maioria das luminárias e braseiros, de modo que a única luz que permaneceu foi a da grande lareira.

A maioria dos homens e mulheres daquele salão olhava para lorde Broonlek como se ele fosse um fantasma, porque o conheciam e acreditavam que ele havia morrido quando seu senhor, Fergus, arruinara seu feudo.

O cavaleiro embainhou a espada e fechou as portas com urgência.
– Ouçam com atenção, porque eu não vou repetir – disse, e levantou a voz graças ao burburinho. – Vocês todos vão se organizar e sair, em fila, pelos fundos.
Uma confusão de vozes se iniciou. “Quem é esse”, perguntaram alguns.
– O que aconteceu, Sir? – quis saber Guthrum, saindo da multidão.
– Guthrum, pegue suas coisas e seus filhos. Se formos para o castelo agora mesmo, estaremos nos antecipando e chegaremos lá em segurança.
Vozes desconfiadas murmuraram. O taverneiro franziu o cenho, preocupado.
– Quem você pensa que é? Continuem a tocar, bastardos! – gritou Aguirre obviamente bêbado do piso superior, se desvencilhando do amparo de Thane.
– Cale-se, velhote – gritou Aendric, que apareceu no topo da escadaria terminando de se vestir.
– Silêncio! – gritou Guthrum, e olhou sério para Broonlek. – O que está nos atacando?
– Orcs estão invadindo – disse o cavaleiro, sombrio.
A inquietação dos presentes recomeçou, e alguém vomitou no fundo do salão. Antes que o caos tomasse conta dos aldeões, o taverneiro começou a direcioná-los para os fundos, ajudado por seus filhos e Broonlek, mas de repente houve muito barulho nas ruas e o telhado começou a pegar fogo. As pessoas começaram a berrar e a se pisotear tentando alcançar logo as saídas, e a situação começou a sair do controle.
Hamper subiu em uma mesa e começou a cantar uma estranha e compassada canção, que era ouvida com dificuldade, e como por magia os agitados convivas começaram a se acalmar e sair do estado de loucura amedrontada que se encontravam, obedecendo àqueles que os conduziam e começando a deixar comportadamente a Caneca pela saída de trás.
Broonlek pensou em cumprimentar o cantor mais tarde, mas o perigo estava longe de passar: como se não bastasse o teto ameaçando desmoronar e o incêndio iminente, a fumaça começou a invadir a taverna e logo sufocaria a todos. Todavia, uma mulher que parecia ter saído do nada, de cabelos castanhos escuros e uma longa capa preta com capuz, gritou palavras em um idioma desconhecido por todos os presentes, agitou os braços em movimentos graciosos, como se evocasse seres invisíveis do mundo, e de suas mãos projetou-se uma inacreditável rajada de vento que simplesmente expulsou toda a fumaça que preenchia o aposento pela chaminé, apagando a lareira e até mesmo o fogo do telhado de sapé e deixando boquiabertos aqueles que estavam mais atentos. Aquilo garantiu a saída do povo, que correu em polvorosa na direção da segurança do castelo.
– Recuar! Manter ponte abaixada! – bradava o capitão a plenos pulmões.
Seu pesadelo começara quando a última guarnição das nonas horas trouxera os vassalos próximos dos montes e comunicara sobre a horda que se aproximava. Suas juntas doíam, porque ele teve de correr novamente depois de anos para dar ele mesmo a notícia ao seu senhor. Demorou muito para encontrar lorde Fergus, que estava ébrio e lhe fez perder tempo precioso enquanto se recuperava. O homem então lhe mandou reunir todo o contingente, fechar o castelo com quem tivesse conseguido entrar e defendê-lo.

Fenthick então mandou seus imediatos procurarem mensageiros para buscar ajuda nas terras vizinhas, especialmente os feudos de Norhold, Latchford e Jarvec, todos pertencentes a homens vassalos do lorde. Em seguida começou a distribuir ordens, sempre correndo de um lado para o outro dos passadiços e observando, incapaz, os campos serem queimados e a vila ser invadida.

Quando viu que as guarnições haviam se juntado em regimentos e retornavam à base, parou nas ameias da seção sul da muralha, a parte mais defensável do forte, onde viu os primeiros grupos de aldeões adentrarem pelos portões. Graças ao prestígio militar de Sir Fergus e de suas glórias no passado (e de uma boa influência), seu castelo possuía defesas sólidas, um bom fosso e ponte levadiça e uma razoável quantia de tropas regulares.

Ortshire era próxima das montanhas, mas havia uma fortaleza de anões ao norte, o que tornava a região razoavelmente segura. Assim, Fenthick tivera tempo de treinar boa parte dos camponeses de infantaria, e naquele momento os ancinhos e foices que estavam sendo levantados eram hábeis. Além de já ter defendido suas famílias e lhes permitido chegar vivos ao castelo, tinham a fúria de homens que não queriam perder suas terras ou o dote de suas filhas ou já viam suas casas pegando fogo. Mesmo assim, o capitão sabia que seria um cerco dificílimo. Ele sabia que aquela coruja não fora uma mera coincidência.

Assim que viu o último dos aldeões da taverna passar cambaleando pela entrada, Broonlek encostou-se ao muro, exausto. Aendric, Hamper e a estranha mulher ficaram perto dele.
– Qual é o seu nome, maga? – perguntou. A jovem tinha olhos cor de mel e era bonita, embora tivesse uma expressão taciturna e misteriosa.
Estava usando uma camisa e uma túnica de lã, luvas de couro, uma calça de tecido grosso e botas simples de viagem por baixo das peles e do manto escuro. Não tinha nenhuma arma visível além de uma besta leve, e trazia pendurada uma pequena mochila.
– Melina – disse, sem muito interesse.
– Nunca a vi antes por aqui, milady – Hamper fez uma mesura cansada. – É de Bielefeld?
– Sou, mas do leste. Estou indo para Deheon.
– Sempre quis conhecer o reino vizinho – disse, cansado, o bardo.
Broonlek se endireitou.
– Se sobrevivermos a esta noite, você terá companhia ao menos até Roschfalen, menina.
– Não pretendia passar pela capital, mas vou aceitar a escolta, obrigada – deu um tímido sorriso.
Aendric trocou olhares com seu senhor. Estavam dentro do castelo, e os orcs estavam mantendo todos os guardas ocupados. Era a chance de o cavaleiro encontrar Sir Fergus cara a cara.
– Levantar ponte! – gritou o capitão.
Uma pedra enorme atingiu um dos torreões como um trovão, e o tempo pareceu ficar mais lento quando toneladas de destroços começaram a desabar sobre o pátio, dando início a uma correria enorme. Pedregulhos vieram rolando na direção do pequeno grupo, separando Broonlek e Aendric dos outros dois. Eles então saíram correndo para uma das portas internas, enquanto Melina e Hamper seguiam para as áreas cobertas, onde estava o povo da cidade.
Lá fora, as tropas de orcs haviam passado com facilidade pela pouca resistência montada no vale, perto do rio. Todas as outras guarnições dos arredores fugiram, junto com boa parte do povo do vilarejo, para a fortaleza. Os monstros então apenas correram pelas ruas, entrando nas casas dos retardatários e fazendo a algazarra que adoravam, embora pudessem apenas queimar as camadas mais baixas dos sapés maiores e mais antigos, uma vez que a chuva com neve tinha fortalecido a mistura das palhas e impedia o fogo de se alastrar com facilidade.

 Compostos de mais de trezentos indivíduos, com o apoio dos enormes e fedorentos ogros e poderosas catapultas, eles cercaram toda a extensão dos muros, gritando e provocando os defensores, lançando pedras e trocando flechas com os homens, mas nenhuma escada de assédio ou torre foi vista ou utilizada. Os orcs ensaiavam uma entrada com aríete e troncos cortados para servir de ponte improvisada, mas os soldados já começavam a achar que seus inimigos estavam se preparando apenas para ficar ali e esperar o povo de Orkney passar necessidades. Fergus, pelo visto, acreditava que essa fosse a estratégia dos inimigos, já que esperava a ajuda dos vizinhos.

Skemp era provavelmente o pior caçador que Arton já conheceu. Nascera feio e desajeitado, um fracasso com as garotas e alvo de chacotas e bulício dos rapazes maiores. Seu pai havia sido um dos mais famosos patrulheiros da região e um exímio arqueiro que fizera parte das tropas que Sir Fergus levara para ajudar Norm na guerra com a Bérnia, mas tivera os dedos cortados ao ser pego por um bando de bárbaros, que por definição odiavam arqueiros. Sobreviveu por infelicidade, voltou para casa e estava destinado a viver o resto da vida com os louros da guerra.
Como não bastasse, sua fiel esposa dera à luz apenas a um filho imprestável, mas mesmo assim o homem tentou descarregar todas as suas frustrações na cria, e o resultado era um rapaz um tanto forte, mas bastante inábil e demente – a vergonha da família e um dos caçadores da vila apenas por consideração ao seu pai.
Todos esses fatores instigavam, obviamente, um profundo ódio no garoto.
Ele cresceu com ojeriza de todos aqueles ao seu redor, embora nunca tivesse a coragem para tomar seu próprio rumo na vida, mas viu em Jekyll, um dos ladrões da vila e recentemente seu único amigo, a oportunidade perfeita de fazer algo realmente grande e tomar partido, de acordo com o larápio, em uma fraternidade onde todos lhe aceitariam sem olhar para os seus defeitos.
Veio então a noite fatídica tão esperada por Skemp. Um ataque, arqueiros e infantaria junto com os soldados profissionais para defender o castelo, e ele nas ameias mais próximas dos portões. O rapaz estava muito nervoso, menos pelo que estava fingindo fazer e mais pela ação mais importante de sua vida.

Esperou os outros arqueiros se posicionarem com as piadinhas de sempre sobre a sua mira ruim e, quando o corre-corre terminou e as catapultas dispararam terror e desabamento por toda a fortificação, desceu as escadas da passarela e passou por perto da multidão, recebendo um olhar significativo de Jekyll. Cuidadosamente entrou na área do pórtico e se aproximou do grande mecanismo da ponte levadiça – felizmente não havia ninguém por perto, já que os orcs não ameaçavam invadir o castelo. A cada passo Skemp suava mais um pouco, e sua mão se aproximou, trêmula, do leme.

– O que faz aqui, Morceguinho? – disse rispidamente um soldado, usando seu apelido.
O rapaz estava paralisado. Lentamente virou o rosto, amedrontado. Tudo estava arruinado.
– Eu… – balbuciou, e a voz não saiu. – Warren… Eu…
Warren examinou desconfiado o rapaz, que suava.
– Responda! A coisa é séria lá em cima! – gritou o guarda, mas não pôde continuar, porque um punhal surgiu pelo seu ombro e cortou-lhe a garganta. Era Jekyll, atrás dele. Diante do assombrado Skemp, o larápio soltou um muxoxo, irritado.
– Faça, idiota, faça! – gritou.
Skip, com um sorriso nervoso, se posicionou na roda de alavancas precisou de toda a força que lhe fugia para conseguir girá-la e fazer as grossas correntes, e a ponte foi descendo ruidosamente. O próprio Jekyll retirou as barras que fechavam os portões e correu de volta para o povo.
– Quando os orcs entrarem junte-se a eles! Drakkan sempre cumpre o que promete! Adeus!
Os soldados vieram correndo para tentar salvar o pórtico, mas Skemp estava com uma coragem renovada e sorria enquanto atirava como nunca, acertando no máximo uma perna, mas obrigando a buscar abrigo e avançar lentamente. Os homens começaram a gritar pelos arqueiros, mas era tarde demais – os orcs já saltavam para a ponte antes mesmo dela alcançar o chão. Melina, que se aproximou para ver o que acontecia, fez surgir com palavras mágicas e gestos decididos um poderoso raio de fogo que passou pelos guardas e acertou cruelmente o peito aberto do garoto, encerrando assim a breve história de bravura e vingança do pior caçador que Arton já vira.
E então os orcs invadiram o castelo da condenada Ortshire pelo lugar mais improvável, a porta da frente. Os dois comandantes daquele pequeno exército dispararam a galope e atravessaram a vila deserta, cujas poucas casas em chamas foram salvas do incêndio quando a chuva com neve recomeçou, e passaram pela ponte de madeira, entrando na fortaleza onde seus soldados já matavam guardas à vontade.
– Não façam prisioneiros! Deixem o gado humano no pátio! – gritava Shagrat aos imediatos, que repassavam as ordens, enquanto Sir Drakkan já explorava o interior do castelo.
Shagrat seguiu seu mestre, e lhe alcançou em uma das maiores sacadas do castelo. Ele parecia ter interrompido uma luta na metade entre Sir Fergus, um homem grande e corpulento, de feições duras e cabelos castanhos cortados rente aos ombros, e outro homem, alto e caolho.
– Vim anunciar o fim da sua vida, Fergus, homem fraco – disse Drakkan, imponente em sua montaria, levantando a viseira do elmo.
Fergus baixou a espada, e olhou com respeito e temor para o homem montado.
– Mas milorde, eu não entendo… Mantive-me fiel ao senhor… Mas os protegidos de Broonlek sumiram naquele bosque de fadas! O idiota teve suas terras devastadas e eu achei que estava morto, não havia mais nada a fazer!
– Não seja tolo, seu verme. Eu sei onde aqueles garotos estão agora. Além do mais, me parece que você não foi tão bem sucedido na sua empreitada.
Uma pedra destruiu a parede mais próxima, mas só Aendric, que observava a luta, se mexeu.
– Olá, Broonlek – disse Drakkan de repente, como se tivesse acabado de notá-lo.
– Darius – cumprimentou.
– Este homem inútil falhou em puni-lo por sua traição, não é?
– Eu não o traí – respondeu Broonlek, calmamente. – Parece que ele estava irritado com a mulher, que estava lhe chifrando com o escudeiro, e se esqueceu de me avisar que eu deveria pegar os fedelhos que passaram pelo meu feudo.
– Não é verdade, meu senhor – implorou Fergus, levantando novamente a lâmina para o antigo vassalo. Aendric retesou o arco e Shagrat segurou o cabo do machado, mas todos pararam quando Drakkan estendeu o braço em sinal de trégua.
– Ah, é? E porque ele o atacou?
– Porque ele se borra de medo de você e não me queria vivo para contar a história.
Sir Drakkan pensou um instante, cofiando a barba.
– Está bem. Shagrat, garanta que este homem e seu escudeiro partam em paz.
Broonlek olhou de Fergus para Drakkan, irritado. Mas não tinha como protestar.
– Vou levar uma mulher, um bardo e o taverneiro comigo, Darius.
– Certo, certo, mas ande logo – disse por fim. Aendric, pasmo, acompanhou seu senhor e o orc, deixando os dois homens restantes sozinhos. Fergus engoliu em seco.
– Agora, queira me poupar o trabalho de derrotá-lo e transforme-se logo naquela fera imunda para que eu possa simplesmente abatê-lo.
– Minha morte será vista por Cernunnos com orgulho – bradou fracamente Fergus. Em seguida, desembainhou e pôs em riste sua montante.
– Que seja então, amaldiçoado.
O sol despontava fracamente no horizonte quando, montados, Hamper, Melina, Broonlek, Aendric, Guthrum e seus três filhos alcançaram as planícies ao sul de Ortshire, de onde ainda era possível ouvir gritos fracos ao longe.
Melina e Hamper já trocavam mais que algumas palavras, e tencionavam viajar juntos para o próspero reino de Deheon. A maga procurava conhecer a mãe, que lhe abandonara no nascimento e até a morte de seu pai pouco havia sido mencionada na casa, na gigantesca cidade de Valkaria. Hamper apenas procurava emoção e cortes e tavernas que bem o pagassem. Guthrum iria começar de novo, e Broonlek prometera ao menos uma escolta até Roschfalen e uma indicação comercial. 
Mas Aendric, o escudeiro, não se conformava com a situação. Finalmente resolveu perguntar.
– Porque diabos o senhor deixou Fergus nas mãos daquele homem, afinal?
Sua resposta foi um meio sorriso.
– Eu já servi aquele cavaleiro de armadura negra, Aendric. Sei o quanto ele é forte, temível e experiente, e jamais sairia vencedor de uma luta com ele. Além disso, o terror nos olhos de Fergus foi muito mais satisfatório do que qualquer dor que eu pudesse ter causado.
E eles seguiram cavalgando, enquanto amanhecia e os corvos vinham buscar seu desjejum.
Créditos de imagens: Dark Void dev team e James Zhang.

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