A responsabilidade dos jogadores pela diversão

Está rolando um papo na lista de discussão do Old Dragon sobre jogadores proativos. Concordamos que é dever de todos zelar pela brincadeira, ou seja, não tem essa de “here we are now, entertain us” (© Nirvana). 

Desde mostrar interesse em marcar as sessões e estar lá para contribuir (se não está a fim de jogar, saia ou converse com o pessoal a respeito) até cuidar de pormenores como chegar no horário, fazer vaquinha para lanche ou arrumar o local de jogo depois.

Porém, acredito que todo jogador precisa fazer também a sua parte ingame. Eu gosto, encorajo e procuro fazer uma boa interpretação nos meus jogos, e acho massa quando levamos as coisas às últimas consequências, evitando o metajogo (o jogador que sacrifica seu personagem porque ele é um herói, por exemplo).

Mas muitos jogadores usam a interpretação como desculpa para tomar atitudes e/ou se comportar de forma que estraga a diversão dos outros. Pode nem ser de caso pensado – o cidadão pode só exagerar um pouco na representação do personagem -, mas todo mundo precisa prestar atenção na sua conduta dentro do jogo. 
É aquela velha história de “estou apenas interpretando a índole do meu personagem, é o que ele faria”, quando ele assassina o personagem de outro jogador ou quando todo mundo está puto porque ele não se dá bem com ninguém. 

Sei que muito jogador odeia metajogo (o famoso “off”), e só se diverte interpretando à risca o seu personagem, ou com seu personagem se dando bem ou sendo o protagonista badass, mas tudo demais é veneno, e os seus direitos acabam quando invadem o espaço dos outros.
Eu vivo dizendo (acho que até aqui já falei) que cagadas de personagens geram bons plots, já que problemas estão aí para serem resolvidos. Se o seu personagem é assumidamente inconsequente, maluco e/ou ousado, é legal ver ele fazer coisas estúpidas de vez em quando, e o facepalm dos outros jogadores se torna algo até divertido. 
Mas quando você começa a exagerar e fazer besteira atrás de besteira, só porque seu personagem é assim, se torna algo chato pra todo mundo. Alguns narradores acabam salvando ele das formas mais forçadas (eu era assim) e os outros jogadores se irritam, e a sessão de jogo vira um constrangimento atrás do outro. Nesse caso é melhor dar uma maneirada, mesmo que não faça muito sentido, para garantir que todo mundo se sinta bem.
A mesma coisa acontece em outros tipos de atitudes, como ser fujão demais porque seu personagem é covarde ou fraco (porque ele não pode receber uma injeção de adrenalina num momento tenso e ajudar o pessoal de vez em quando?), ou sempre ficar do lado do personagem de outro jogador por causa de alguma intimidade maior offgame – a “panelinha”, no caso de velhos amigos ou namorados/cônjuges jogando juntos, por exemplo. 
Outro caso é tocante ao relacionamento entre os personagens – alguns são tão chatos, conflitantes ou apáticos que se tornam um estorvo irritante na mesa. É tosco um ladrão e um paladino, ou um vampiro e um lobisomem, ou um elfo e um anão andando juntos e ficando amigos? Nem sempre. O background ou as situações de jogo podem muito bem justificar a amizade (estão aí Legolas e Gimli para não me deixar mentir). 
Mesmo que não haja isso, há de se ter um pouco de colaboração dos jogadores para, mesmo que fique forçado, todo mundo se divirta. Se os personagens possuem opiniões e personalidades conflitantes, é até divertido que não se deem bem no início, e tenham algumas briguinhas. Mas a não ser que este seja o objetivo do jogo (não é o meu caso; pra mim RPG é um jogo de grupo), se essas brigas quebram o grupo e deixam todo mundo bolado, é hora de rever os conceitos. 
Nos meus jogos, personagens que viram ovelhas negras estão destinados a sair do que chamo de “esfera de eventos da campanha”, sejam como vilões ou “lobos solitários”, e viram NPCs. 
Perceba que não estou defendendo o metajogo, só dizendo que há de se ter um equilíbrio. Afinal, ao menos pra mim, a gente vai jogar RPG pra se divertir, e quem não está se divertindo, sempre pode arrumar outras formas de extravasar as agruras da vida. :)
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11 comentários em “A responsabilidade dos jogadores pela diversão

  1. Excelente artigo Dan.

    Uma coisa que as pessoas levam ao pé da letra é a questão das inimizades entre raças/personagens/etc.

    Em todas as histórias que vi isso explorado, sempre me aparecia a situação de um jogador fazer tudo para matar o outro e isso não gerava nenhum conflito interessante.

    A partir do momento que os personagens se unem em um grupo, devem pelo menos respeitar a unidade dele ou sofrer as consequências severas por não fazê-lo.

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  2. Adorei o post e devo admitir que (somado com uma coisa que Rafael me disse ontem à noite), talvez alguma personagem minha ou outra se encaixe em uma dessas coisas que falou. Pior, talvez EU como jogadora me encaixe em algumas coisas faladas/escritas aí.

    É bom uma mesa equilibrada com risadas on e off (por quê não?) para aliviar um pouco mais, afinal, como vc falou, RPG é pra se divertir (TODOS se divertirem, inclusive o mestre).

    Por exemplo, na nossa mesa Ferelden Nights tem muita conversa, comentário e tititi off porque é geralmente um jogo à noite e vai madrugada a dentro, e precisamos ficar falando e nos mexendo o tempo todo pra não dormirmos sentados. Tudo bem, tem hora que exageramos e nosso mestre pega “ah”, mas se não tivéssemos as gaiatices e talz, seria bem chatinha. Mas vou começar a me regular mais.

    É sempre bom para um pouco e refletir (isso é válido para ambos os lados) e também para um pouco e falar, e parar um pouco e ouvir. =D

    Essa é a beleza da diversão em grupo, se não sebe brincar em grupo, fica em casa jogando online ou falando merda no FB. Somos seres individuais dependentes do coletivo. =D

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  3. Pois é amigos, mesmo que a gente esteja pensando que está trazendo conflitos interessantes e dando bons plots, às vezes temos que prestar atenção no resto do pessoal e pensar se está exagerando. Isso vale até mesmo pro narrador (eu tenho refletido muito ultimamente), que precisa dosar um pouco seu estilo em detrimento do que o resto da galera gosta – apesar de ter o direito de se divertir também!

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  4. otima postagem , Dan. o que comentaram acima, sobre horario, é bem pertinente tb. nao importa se a trama é otima: se o pessoal esta cansado (ou se é muito tarde), é melhor jogar com uma tematica mais light, ou ate mesmo outro jogo

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  5. Adorei, realmente todos são responsáveis pelo divertimento na hora de jogar uma partida de rpg. É preciso que o grupo esteja em sintonia e que, como na vida real, os integrantes saibam o que precisam fazer para tornar esse tipo de convivência a melhor possível. O jogador precisa saber quando está exagerando. E quando não contribui para que aquilo seja algo agradável. Também precisam colocar na cabeça que nem tudo depende do mestre.

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  6. Desde sempre tenho essa mentalidade e essa atitude, e em qualquer mesa de jogo em que participo. Sermos próativos, empáticos, e sociáveis. Isso tudo com um objetivo comum: diversão! E gosto sempre de frisar que divertir-se bem é saber que não só você está se divertindo mas todos que estão ao seu lado estão compartilhando dessa sua alegria.

    Me sinto triste em ver muitas vezes ver excelentes jogadores, ou estrategistas que na sua jogada, fazem decisões brilhantes, mas na hora de interagir com seus companheiros de mesa, não sabem ser cortêz ou quando se expressão usam de termos pejorativos ou humilhantes.

    O tema falado acima é de extrema relevância:”a resposabilidade dos jogadores pela diversão”. Ser responsável é estar consciente que ao se juntarem numa mesa, de expontânea vontade, e concordam em aceitarem as regras do jogo, juntamente com os demais jogadores, também estão concordando em fazer de tudo para que o jogo seja divertido, instigante, desafiador. Mesmo num jogo abstrato? Ou numa partida de damas? Sim!
    Um dos grandes objetivos dos jogos de mesa atual é sociabilizar a humanidade, aproximar as pessoas fisicamente, intelectualmente e de forma inteligente. Não vamos deixar que o Sr. Ego domine, mas que a Sra. Empatia, Sr. responsabilidade e Sra. Diversão estejam sempre à mesa!
    Boa diversão, com responsabilidade!

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  7. Pois é, o problema também é quando isso tira a diversão do mestre, que, na minha opinião, deve ser o primeiro a se divertir com a história que ele mesmo criou e teve um trabalho fudido pra preparar tudo…

    Todos tem que se divertir, se num consegue se divertir nem se adaptar, sai do jogo e marca de se ver pra fazer outras paradas.

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  8. Excelente texto, Dan. Aliás, rebatendo de trivela uma de suas citações, lembrei de uma do Márcio Fiorito, do podcast DM's Dirty Talk, que largou um “DM não é playstation”, meio como cagação de regra, mas tão acertado que me deu vontade de fazer uma camiseta com isso. Por que é verdade, a diversão no RPG não nasce do DM, mas da INTERAÇÃO entre todos na mesa. No final das contas, toda narrativa é compartilhada, pois por mais que o mestre seja railroad (ou camisinha, como se diz por aqui), os jogadores tomam suas próprias decisões, não importa o que o mundo (o mestre, no caso) jogue em sua direção. O problema, é que a diversão dos jogadores não DEVERIA ser arruinar o plot do mestre (e este não deveria também ter um plot engessado) e a diversão do mestre não DEVERIA ser estragar a diversão dos jogadores.

    É, às vezes é complicado, mas tudo em que houver interação entre seres humanos é, por definição, complicado.

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  9. É bem por aí. Apesar de quando o railroad é demais, acaba acontecendo o efeito “safari”. O DM conduz os jogadores em um “passeio”, assistindo “cutscenes”, e ocasionalmente para o carro a fim de mostrar um monstro que eles precisam derrotar ou um desafio a superar. Nada contra, mas eu já joguei assim com um narrador e achei meio chato. :P

    Valeu o comentário! Aliás, valeu a todos!

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