Conto – A Legião das Almas Perdidas

Esta história foi adaptada de uma lenda da aventura Legião das Almas Perdidas, da Trilogia do Fogo das Bruxas, publicada no Brasil pela Jambô. Ela se passa nos Reinos de Ferro, mas como mestrei na minha Tormenta, fiz uma adaptação. Então, é uma lenda da península conhecida como Lannestul, um lugar frio e inóspito onde apenas os corajosos sobrevivem.  

É uma terra inspirada nas Crônicas Saxônicas de Bernard Cornwell (a época que a Inglaterra esteve sob o reinado de Alfred O Grande). Mestro uma campanha por lá, e os jogadores entraram em contato com a lenda quando passaram pelo Vale dos Ossos, um lugar enevoado com crânios antigos por todo lugar e mortos-vivos à espreita.

Do CCCLII Códice Eterno da Tradição e Conhecimento, Datado de 1352.
Reza a lenda que em Lannestul, durante o reinado de Malagant, houve um tempo de perturbações horrendas.
Como todo rei, Malagant O Amargo tinha inimizades sangrentas e nenhuma paz. Naqueles dias a fronteira entre Lannestul e Drael, um pequeno reino nos Picos dos Dragões que já não existe mais nos dias de hoje, estava em perpétua disputa. A então rainha dos draeses era Cherize A Astuta, uma notória bruxa de grande poder que adorava mandar suas tropas contra seus vizinhos. Cherize desprezava especialmente seu grande rival graças à sua filha, lady Ereshka, conhecida como A Dama Graciosa, que havia viajado à corte de Malagant e caído em suas graças.
Logo, a despeito de suas hostilidades, Malagant anunciou intenções de tomar Ereshka como sua rainha, a contragosto de seu Conselho. Amaldiçoando Malagant com todas as forças, Cherize viajou até a Eredane, a cidade do rei, e endossou a paz junto ao monarca e sua nova consorte, uma vez que naquele momento uma guerra entre os dois povos seria de péssimo alvitre. Malagant e a Rainha Astuta vinham lutando há tanto tempo que não conheciam outra forma de se relacionar. Assim, naquele punhado de anos, o rei permanecera com a esposa, rangendo os dentes no sono e chamando fantasmas ao campo de batalha. Ereshka velava seu sono intranquilo com grande preocupação.
Mas sua mãe nunca fora dada à preguiça. Ela abordou as tribos bárbaras do Tharn – selvagens cobertos de runas que viviam nas florestas pantanosas da região da Garganta da Serpente, nas montanhas do norte. A rainha bruxa convenceu os crédulos tharnen de que era uma oráculo da Divina Serpente e os fez atacar seu inimigo. A horda assolou as terras ao norte do alto burgo de Varnung, chacinando o povo e destruindo os fortes fronteiriços de Brachemir e Loghrin. Se deleitavam horrivelmente com seus massacres, uma vez que precisavam apenas de um pequeno incentivo, já que adoravam a Divina Serpente, a besta cruel e insaciável da bravura que exige sangue e carne como oferenda.
Os templos de Keenn e Khalmyr, além dos intendentes e conselheiros reais, se reuniram na corte de Malagant para discutir como proceder a respeito dos pagãos tharnen. O Rei Amargo conhecia bem a verdadeira fonte desta nova ameaça, mas não ousava mencioná-la por medo da acusação contra sua esposa, já amada em Eredane e em todo o sul, e uma guerra contra Drael, na época uma linha de defesa bastante útil contra Tapista – o rei já tinha seu quinhão de problemas com os nordanos, gredões e krodos que sempre atacavam do Mar do Norte. Ele não iria mover espadas contra a Rainha Astuta; em vez disso, ia jogar o seu jogo.
Pediu então permissão à igreja para lançar um ataque religioso contra Tharn, uma vez que aquele era supostamente um teste de fé, uma guerra de moralidade e medição de forças entre os deuses. Seus emissários foram de Eredane a Cabo Wyrmnir, na costa leste, munidos de ouro e papéis, e convocaram um poderoso bando de soldados de aluguel honrados que Malagant empregara inúmeras vezes contra os nórdicos. Eram chamados de Eternos, com mais de oito mil em número, pobres e famintos depois de meia década de serenidade, ansiosos por aceitar o acordo com o Rei Amargo.
Ao deflagrar das primeiras batalhas, o clero viu verdade nas palavras do rei e decidiu ordenar a junção das tropas reais e da igreja com os Eternos, para honrar o Escudo. A companhia lhes recebeu com desconfiança, mas juntos eles marcharam por sobre os tharnen, em escaramuças onde se fez notar a bravura e competência de um soldado. Varnen era seu nome, e Lobo Negro era seu epíteto. Ele passou de mero recruta a comandante dos Eternos, cuja lâmina nunca provara a derrota.
Após sucessivas vitórias, a corte se reuniu na cidade de Braden, onde sempre se reunia, e os nobres conheceram o Lobo Negro. O arguto guerreiro impressionou a todos com sua habilidade e eloquência, recebendo muitos louros. Durante as cerimônias, foi-lhe dada a posição no exército real como comandante de batalhão, e atribuído o título de Ruína da Serpente. Suas lealdades se dividiram, pois ele mantinha seu alto posto de lider dos Eternos.
Varnen permaneceu por um ano ao lado do Rei Amargo e os dois formaram um laço de profunda amizade. Eram como irmãos, e logo o Ruína tornou-se seu guarda pessoal. Mas chegou o tempo do Lobo regressar ao seu lugar entre os Eternos, que se viam em dificuldade; Malagant considerou algo apropriado, e abençoou sua partida. O belo soldado ostentava os dois brasões quando cavalgou para longe dos portões de Braden.
Nos tempos que se seguiram, o Ruína da Serpente, junto aos irmãos Eternos e os aliados reais lannestuleses, enfrentou o inimigo sem descanso. A maré virava, e os tharnen recuavam sem parar de seus territórios enquanto as forças virtuosas reclamavam numerosas torres e fortes outrora sob domínio dos bárbaros. Contudo, o campeão teve um trágico destino – tombou em um cerco quando um de seus companheiros falhou miseravelmente em defender a sua esquerda. A recuperação do Lobo Negro era incerta.
Quando chegaram as novas, o apreensivo Malagant foi obrigado a acalmar o anseio por ir ao campo, graças aos seus deveres para com o estado na época.
Enquanto isso, Cherize A Astuta ainda não estava saciada com o sangue de Lannestul. Seu ódio ainda a dominava, e ela queria desferir um golpe tão poderoso em Malagant que ele seria obrigado a se render. Seu plano maléfico era voltado ao seu próprio ventre, pronto para atingir sua própria filha Ereshka. Mais uma vez foi à turbulenta Tharn, ter com os bárbaros. Envolvida em seu manto de mentiras, lhes convenceu a clamar por uma reunião para trocar prisioneiros e falar de paz. Desta vez, vestiu-se de um disfarce profano, falando no idioma ofídico do Corruptor, pronta para trazer tempos difíceis e fazer tremer os reinos com sua maldade.
A igreja de Keenn, cujo papel era político e militar, fez ser ouvida sua voz. O Exarca Thordan aconselhou a aceitação da proposta, e mesmo mas Malagant não era tolo. Ele sabia que Cherize a Astuta estivera preparando esta armadilha, mas ainda assim concordou bravamente com o esquema. Afinal, tinha os Eternos, e tinha Varnen, cuja lâmina nunca conheceu a derrota. Mas quando o arauto chegou a Braden com as condições, a postura do Rei Amargo passou a ser de tempestuosa indignação. Ao invés dele, os bárbaros exigiam Ereshka. Era sabido que, como em várias terras bárbaras, os tharnen valorizavam mais as mulheres enquanto figuras de autoridade. A Dama Graciosa, tão popular entre o povo, deveria ir ao Monte Presa da Serpente para se encontrar com os selvagens, onde discutiriam o tratado.
Malagant estava pronto a manter uma posição irascível sobre o assunto, mas a rainha implorou a seu marido que permitisse. Ela desejava um fim ao derramamento de sangue, e faria qualquer coisa ao seu alcance para tanto. O Rei Amargo estava dividido – amava sua rainha, e tinha nas entranhas a certeza de que a Astuta estava por trás de tudo, mas imaginava que a bruxa ouviria ao menos as palavras de sua própria filha. E estremecia ao mero vislumbre de sua esposa em meio a inimigos. Endurecia e se comovia de novo, sem poder tomar uma decisão, e seu conselho arcou com o peso de seu mau humor.
Eis que Braden, onde residia naquela época a corte, foi tomada de surpresa quando o Ruína da Serpente voltou de suas batalhas no norte. Ele usava uma máscara para cobrir seu terrível ferimento, mas vinha repleto de vivacidade; ainda era o mesmo Varnen. Soubera do sangue fervente do Rei Amargo, e foi ter com ele em particular, como irmãos de armas. Foi sua voz que determinou a decisão de Malagant – em uma cerimônia, o Ruína se curvou ante o monarca e, beijando o símbolo de Keenn, deu sua palavra perante a corte. Jurou permanecer ao lado de Ereshka em todos os momentos, e levar seu batalhão real, assim como a imponente Companhia Eterna, com ela para a Espinha. Garantiu que a rainha de Lannestul estaria segura, e Thordan lhe deu a Bênção das Armas, adicionando-a ao rol de brasões do Lobo. O campeão levava o medalhão de Keen no peito, o símbolo dos Eternos no estandarte e o urso de Lannestul no escudo.
Assim a expedição partiu, rumo ao norte, para encontrar as tribos tharnen logo abaixo da Presa, na Garganta da Serpente. Era a última vez que o Rei Amargo ou qualquer lanestulês viria sua rainha com vida, e todos passaram a chamar a Ruína por outros nomes – Lobo Traiçoeiro, Máscara Negra.
Os homens seguiram a Trilha da Presa e acamparam numa das muitas gargantas. A guarda pessoal da Dama Graciosa, composta por soldados lannestuleses e Varnen, aguardava a chegada dos chefes de Tharn. Mas estes não vieram. Não se sabe exatamente o que aconteceu naquela enorme montanha, mas relatos imprecisos contam que a Companhia Eterna foi emboscada ou surpreendida por uma grande massa de guerreiros tharnen, pintados para a batalha, brandindo suas espadas rúnicas e emitindo brados de gelar os sangues. Os Eternos e as forças de infantaria leve formaram colunas desesperadas sob os estandartes, e cornetas de guerra ecoaram pelo vale, ouvidas por uma pequena força de elite de infantaria, retardatária por estar montada, ao longe. Subiram o monte em urgência, mas o terreno pedregoso minou seu avanço, e eles chegaram tarde demais. Cinco mil soldados Eternos e três mil lannestuleses jaziam chacinados até o último homem, embora as lendas afirmem que duas vezes este número dos tharnen foram mandados para a cova junto com eles.
Ereshka e sua guarda também foram trucidados, dizia-se à boca miúda. E Varnen… ele sobrevivera. Fora encontrado vagando pelo campo de batalha, pedindo perdão a Keenn e Khalmyr por ter traído aqueles a quem mais amava. Eram estas as suas palavras, como ouvidas pelos homens de Lannestul. Mas, de acordo com algumas lendas, não foi apenas aquela cena que os sobreviventes testemunharam naquele dia… Os soldados e capelães de guerra teriam presenciado uma visita divina. A Vontade de Khalmyr, um arconte servil ao Senhor da Batalha Justa, desceu por sobre o campo de morticínio e veio a eles.
Sua voz trovejou:
“Reúnam seus mortos e tragam-nos para o norte, onde uma tumba digna deles será construída. Seu sacrifício não será esquecido. A legião caída irá se erguer novamente para manter as forças da escuridão afastadas. Obedeçam, pois esta é a Vontade de Khalmyr.”
O devoto duque Breorn liderou o esforço para levar os corpos dos Eternos caídos para as Montanhas do Chifre Alto. Alguns dos homens questionaram a sabedoria do seu general, mas não tinham eles presenciado o mesmo evento? Com o tempo, mesmo o mais rebelde dos guerreiros foi posto em ação pelo líder e seus seguidores, e pelos capelães de guerra, todos possuídos pelo espírito de Khalmyr.  Logo não havia mais nenhum Eterno no vale, que ficou conhecido como Vale dos Ossos, contendo os ossos dos bárbaros e homens dos helds¹ de Lannestul, e segundo as lendas mais sombrias, seus espíritos irrequietos.
Os sábios de hoje, em todas as cortes de todos os reinos, discutem a veracidade desta história. Alguns dizem que o povo misturou as lendas para atribuir um significado sombrio ao infértil Vale dos Crânios e forçar a passagem de viajantes por vilarejos comerciais como Spragg e Varnung, ou para trazer alguma glória ao infeliz acontecimento que mancha a história de Lannestul. 
Aqueles que crêem afirmam que, à luz do grande sacrilégio, graças a uma grande interferência nos assuntos dos homens por parte de um agente da Serpente Corruptora – alguns assumem que seja o Lobo Traiçoeiro, outros argumentam que é uma referência à Astuta, mas a maioria concorda que uma gota do veneno de Szaass foi inoculada neste episódio -, e era a Vontade de Khalmyr que aqueles lendários guerreiros fossem honrados com o enterro de um soldado. 
Os clérigos e servos de Keenn indagados a respeito desmentem a palavra do Deus da Justiça, dizendo que foi o senhor das batalhas que criou aquele exército para os dias do juízo final, quando o exército Dele se levantará e marchará pelo mundo. Se a tumba existe de verdade, fica em algum lugar do Chifre Alto e nunca foi encontrada, para a tristeza de inúmeros exploradores e senhores da guerra procurando apoio bélico.
Quanto ao restante das hordas tharnen, foram terrivelmente amaldiçoados com as temidas Dez Pragas. Os ventres de suas mulheres secavam e seus filhos murchavam como folhas ao vento invernal. Após algumas escaramuças menores, seus guerreiros perderam a coragem, sua natureza selvagem se esvaneceu e eles voltaram, como cães feridos, para a velha Floresta dos Espinhos. Não se teve notícia dos tharnen desde então, e é provavel que nem existam mais.
À Dama Graciosa, não há mais menções. Alguns crêem que a mãe da amada rainha fora a responsável pelo seu desaparecimento. Nunca mais se soube da própria Cherize A Astuta após aquele dia, agora chamado em alguns tomos de O Dia da Legião das Almas Perdidas, e de forma mais sucinta em outros de O Dia Perdido.
O guerreiro Varnen, Lobo Traiçoeiro, Máscara Negra, desapareceu nas montanhas, perseguido por uma companhia de soldados lannestuleses em fúria, incluindo o próprio duque Breorn que, segundo boatos, era um grande e querido amigo do Ruína da Serpente. Seu legado não morreu, mas em Lannestul ele foi chamado de Lobo Pérfido em Lannestul até muito tempo depois de sua provável morte, décadas depois.
Por fim, o coração do Rei Amargo se encheu de tristeza e ele adormeceu ao ouvir as notícias da morte de Ereshka e da suposta traição de Varnen, ainda que nunca tivesse sabido, em detalhes, dos acontecimentos do Dia Perdido. Consumiu-se em febre e seu corpo, outrora poderoso, ressecou. Alguns meses mais tarde morreu na cama ardendo em febre, com uma praga amaldiçoando o Ruína da Serpente congelada em seus lábios pálidos.
¹ Exército camponês.

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