Personagem: Kestrel

Esta “coluna” começou por causa de um bloqueio criativo meu para criar um personagem como jogador (sempre mestro). Agora que voltei a criar o que considero bons personagens para jogar, passo a descaradamente roubar a ideia do Paragons, trazendo sempre uma personalidade para inspirar quem estiver sem ideias. Este aqui, Kestrel (elfo valeano, mago de 1º nível) foi criado para uma campanha de Dragon Age RPG que começamos recentemente a jogar. É bem viajado e no clima do cenário, uma espécie de conto de fada sombrio, como os originais.

Eram dias joviais quando um Peneireiro qualquer sobrevoava diariamente uma densa floresta qualquer, caçando e vivendo livremente. Mas para cada vida existe um destino, e para aquela o fado não era corriqueiro. Havia uma belíssima elfa, cabelos dourados e olhos esmeralda, que cavalgava por aquela floresta e passeava a pé pelo bosque ao redor. Todos os dias o Peneireiro a observava em suas caminhadas, e ela sorria para ele. Logo o animal pousava em galhos próximos, e por fim se permitia ser alimentado por sua delicada mão. O Peneireiro, assim, se apaixonou. Dias e dias de angústia. Sofria ao planar por sobre o teto verdejante, morria enquanto estava sozinho e revivia quando a linda criatura de duas pernas surgia. Mas morria novamente quando ela ia embora, e o Peneireiro simplesmente não conseguia falar com ela ou responder ao seu canto celestial. Então, decidiu.

Aquele pântano era evitado pela maioria das criaturas senão as de coração mais negro. Ali ele convocou a Bruxa, que alegremente ouviu sua proposta. Ela o faria, mas apenas com uma condição: ao conquistar para si o coração da jovem, deveria pagar um tributo de sangue em retorno, entregando-lhe seu primeiro filho. Completamente cego pela forma mais pura e tola de amor, o Peneireiro prontamente aceitou.
Terríveis foram as primeiras voltas de lua. Onde estavam as asas, o bico? Onde estava a liberdade e o vento no rosto? Era um corpo quase morto de tão limitado. Pernas desajeitadas, braços pesados. Vagou como um filhote perdido por tanto tempo que não pôde contar, até que finalmente podia andar e balbuciar as primeiras palavras no idioma dos bípedes. Finalmente estava pronto para a sua amada. E finalmente foi até ela… Mas ela fugiu dele.
Apenas tarde demais o Peneireiro percebeu o seu terrível erro. A elfa era gentil com um pássaro, e não com um elfo desconhecido e perdido. Dele fugiu, assustada, e ele a perseguiu até sua aldeia valeana, onde pôde, escondido nos arbustos, observá-la entre os seus. Tudo estava perdido! O objeto de sua maior afeição estava completamente além do alcance de suas mãos, ou asas, e seu coração batia mais lentamente, imerso em completa tristeza. Regressou à Bruxa para pedir que restaurasse sua forma original mas, como todas as criaturas malignas deste mundo, a feiticeira revelou seu truque, revelando que ele não poderia ter de volta o seu corpo de ave e assim sentenciando-o a uma eternidade com duas pernas. E o pior: ela ainda clamava por seu tributo, e afirmou que tomaria a elfa de um modo ou de outro para, de uma forma mais eficiente, dar-lhe um filho feito com alguma de suas medonhas criaturas servis.
Não podia, de modo algum, deixar tal vilania! Escapou das garras da Bruxa e correu para alertar os valeanos, mas era tarde demais: a vilã sequestrara sua amada. Mostrando-se pela primeira vez aos elfos, afirmou que sabia a localização da cabana da feiticeira, e eles se juntaram para resgatá-la. Uma vez no covil da horrenda maga, lançaram seu desafio. Mais uma vez o maligno presságio do destino surgiu para destruir as esperanças: a Bruxa deixou todos saberem que se ela não tivesse a jovem, ninguém teria, e espetou-lhe o coração com um punhal, arrancando a vida de seu corpo.

Ele estava mais amargurado e destruído que nunca. Mas tal qual a maioria dos animais, por imensa que fosse a tristeza, tirar a própria vida não era algo que lhe viesse facilmente. Assim, vagou por um tempo que não soube dizer, até que foi encontrado pela mesma feiticeira ardilosa. Ciente de que a vida do elfo acabara, e dotada de alguma compaixão que apenas a mente desconexa de uma bruxa da floresta poderia compreender, ofereceu acolhida como seu servo e aprendiz. E então o Peneireiro, que por si só tinha este dom em si, aprendeu com a arcana a controlar sua energia interior na forma de magia, e por tempos serviu aos seus macabros intentos. Até que chegou à conclusão de que gostaria de um pouco de liberdade afinal: o mundo era grande, e talvez fosse o bastante para acalentar sua alma partida. Em uma noite, fortuitamente passou um punhal pelo pescoço da Bruxa enquanto esta dormia – certa feita, uma vingança justa – e fugiu, para nunca mais voltar.

Agora que estaria entre outros elfos, humanos e muitos outros seres, o Peneireiro precisava de ideias e costumes diferentes, e precisava de um nome. Escolheu então Raziel, nome que a Bruxa teria dado ao seu filho que ela tomaria, segundo uma confissão da própria em um momento ébrio. Aprendeu a escalar árvores e torres e montanhas, onde sentiria novamente o vento no rosto e teria a certeza de estar acima do mundo. E o mundo seria seu.

2 comentários em “Personagem: Kestrel

  1. *chiuf*

    Muito bom. Tom de lenda antiga, envolvendo transformações e pactos por amor.

    Adorei como você conta, de forma resumida e ainda assim com um lirismo simples, a história do elfo que era um pássaro, e que dificilmente vai se ajustar plenamente à nova vida. Muito bom mesmo.

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