Jogadores e sua péssima memória

Sessão passada, um NPC comentou rapidamente um boato que será importante num plot futuro, mas sei que os jogadores não vão lembrar quando a coisa vier à tona. Pensando bem, iam esquecer mesmo que fosse uma dica evidente.

Muitas vezes os jogadores não ficam cientes (ou esquecem) de algo na história e ficam perdidos. A pergunta “o que a gente veio fazer aqui mesmo?” é uma máxima nas mesas. Isso geralmente acontece porque memória de jogador é uma porcaria, já que a vida tem outras prioridades, por mais dedicada que a pessoa seja ao jogo. Eu nem reclamo, já que minha memória é a pior de todas.

Às vezes, porém, o narrador não deixa as coisas claras (é importante que os pensamentos de todos na mesa fiquem o mais alinhados possível) ou joga mais informação do cenário ou história que os jogadores conseguem absorver. Quanto menos o grupo conhece sobre um cenário ou uma temática, maior é a dificuldade do narrador de passar a coisa de forma orgânica e agradável para não escapar da mente dos jogadores.

Existem alguns macetes de mídias para lidar com a memória e capturar o interesse, que com o tempo fui aprendendo e aplicando nos jogos.

Sempre tem um ou mais personagens “novatos” que serve para a linha narrativa apresentar o cenário ao espectador de forma orgânica (Ariadne em Inception, Myers em Hellboy…). No RPG, podem ser todos os PJs ou um NPC contando algo que os personagens já sabem mas os jogadores não (“Como vocês sabem…”).

Criar motes, manias e características identificáveis para NPCs também ajuda a deixá-los na mente dos jogadores. Esqueça, eles raramente lembrarão pelo nome: é sempre o sujeito do narigão, a clériga da mão atada, o mudinho… Pode ser frustrante, mas se pelo menos as peculiaridades do NPC ficarem na cabeça, há esperança que com o tempo ele vire uma pessoa para os jogadores.

Outra manha boa é introduzir informações no jogo on the fly, durante a narrativa. Contar com o conhecimento prévio dos jogadores e passar dados rápidos e gerais no começo (coisas como “esse cenário é tipo uma mistura de Dragon Age com Game of Thrones”, ou “a vila fica numa região de cachoeiras e é meio celta”). Ao decorrer da história, vai introduzindo informações ao pouco, de forma criativa. Um item mágico revela uma lenda, um costume bizarro de um lugar, um personagem exótico, etc.

Atrelando esses dados a eventos e coisas realmente práticas no jogo, você desperta o interesse dos jogadores e eles podem até querer ler mais sobre a ambientação. Facilita até no velho método de começar uma campanha na vila e ir expandindo o cenário.

Se tudo mais falhar, vale usar até o “previously” das séries de TV, que recapitulam tudo que vai aparecer no episódio e você precisa lembrar. Se um personagem se foi há duas temporadas e vai reaparecer agora, ele aparece no recap. No RPG, dá pra lembrar sutilmente os jogadores das coisas, de preferência de forma criativa.

Por exemplo, eventos que encadeiem ou sejam causados por essas lembranças: se você quer lembrar os jogadores de um monstro sequestrando gente na região, alguém some (de preferência que os PJs conheçam) e alguém comenta “já é a terceira pessoa que desaparece esse mês”. Os jogadores automaticamente puxam pela memória ou pedem ao narrador para lembrá-las, e assim a história anda.

Por fim, tem um lado bom na memória ruim dos jogadores: dá pra usar ou confundir as lembranças pra corrigir alguma coisa na campanha sem parecer forçado. Eu introduzi um NPC uma vez que queria que os personagens já conhecessem, mas ele nunca tinha aparecido no jogo. Aí manipulei as lembranças e o pus no lugar de outra NPC que eles salvaram no passado.

Então, nunca esqueça dessas dicas – e se esquecer, é só consultar aqui.

9 comentários em “Jogadores e sua péssima memória

  1. Foi por causa de algo assim q perdemos o mago na ultima seção: o jogador esqueceu q tinha tomado muito dano.

    Acho q o melhor, quando recomeçar uma seção, é o Mestre usar o “..Anteriormente…” e contar um pouco do que houve, e os jogadores darem uma olhadinha em suas fichas e anotações (ração, flechas, PVs, magias, etc)

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  2. nós utilizamos esse “anteriormente” toda a vez que jogamos… realmente é bem útil… e cada um fala sobre o seu personagem algo importante (geralmente itens), caso o mestre tenha esquecido de mencionar…

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  3. Eu costumo perguntar aos jogadores onde seus personagens estavam.

    Como mestre bonzinho acabo sempre cobrindo os buracos que os jogadores esquecem (informações descobertas pelos personagens, últimos fatos, etc.), as fiquei pensando… E se, ao invés do mestre dizer o que houve, ajustar a aventura de acordo com o que os jogadores lembram?

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  4. Eu sempre pergunto assim aos jogadores: Vocês lembram como parou o jogo? Aí eles contam o que lembra, e eu comento com eles o que de importante ficou faltando na última sessão.
    E costumo deixar meus NPCs bem humanizados, usando de trejeitos, manias e costumes.

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  5. Eu costumo pedir para os próprios jogadores falarem oq aconteceu nas ultimas sessões, assim um vai puxando a memória do outro e se passar algo importante despercebido eu lembro eles. Isso também me ajuda a perceber aquilo que eles lembram com mais facilidade e como passar informações futuras.

    Os jogadores sempre lembram os meus NPCs sempre pelo lugar onde eles o encontraram (o velho da casa cheia de animais empalhados, o homem do canto da taverna, o sacerdote da igreja do teto quebrado…), mas ai já não sei se o problema é comigo que deixo eles muito comuns XD

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  6. Valeu galeras!

    Beltra, Lagame e Madia, o pulo do gato é como contextualizar esse anteriormente. Porque tem informações que só serão úteis daqui há algum tempo, aí o desafio é reintroduzir essa informação sem que a galera perceba o artifício. Tipo um bordão ou musiquinha de personagem, que te relembra a informação sem você notar (só um exemplo, rs).

    Paulo, foi uma coisa que esqueci de dizer: usar ou confundir as lembranças dos jogadores é um ótimo artifício para ajeitar algum defeito na campanha ou corrigir alguma coisa que você quer sem parecer forçado. Eu introduzi um NPC no jogo do fds passado que queria que os personagens já conhecessem mas nunca tinha apresentado a eles. O que fiz? Manipulei as lembranças, colocando ele no lugar de uma personagem que eles salvaram no passado! hehe, pilantrice!

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