Conto – Remo’s mind

Este pequeno texto faz parte de uma crônica de True Blood no Storytelling, que jogo com meu irmão Rafael. São alguns pensamentos aleatórios do meu personagem Remo Soza (este aqui).

A vida é engraçada.

Nessas horas, depois de um dia cheio de trabalho duro no negócio de restauração de carros – como há muito tempo eu não tinha -, vejo o pôr do sol e me deparo pensando nessas paradas. Eu me chamo Remo Soza, e sou apenas um mecânico texano meio perdido no mundo.
Sempre me senti completamente deslocado, como se não pertencesse a lugar nenhum, um alienígena total. Acho que é porque minha história foi escrita por um Tarantino com viagens loucas de cogumelo encarnando um autor de romance noir trágico barato. Tudo começa com o meu velho, um europeu que estranhamente conseguiu cair fora da máfia siciliana sem morrer e veio virar traficante na América. De cara, roubou a minha mãe de um cartel mexicano e escolheu pra viver o único estado onde podia manter seu arsenal particular. Sério, acho que ele queria fazer uma guerra. E essa guerra veio, na forma do irmão da minha mãe, que varou nossa casa de balas e atirou na cabeça da própria irmã por acidente. Meio que por acidente, também, acertei a testa do puto. Vingativo pra cacete, o coroa me pilhou para arrumar um bando de motoqueiros – os Dust Ravens – para achar o resto do cartel e enterrar todo mundo. 

Tudo que eu fiz até hoje, foi meio por inércia. Acho que não sou muito bom no negócio de esquentar a cabeça. Já me disseram que tenho ataraxia, um troço que me impede de ficar preocupado. Deve ser verdade, porque eu caguei para a notícia que sacudiu o mundo nos últimos anos. Beleza, os vampiros saíram do armário (ou era do caixão?), mas a hipoteca do velho Marc Soza ainda está nas minhas costas pra pagar, e o bar do Brett ainda serve a mesma cerveja. O pai também não ficou nem um pouco preocupado, mas no caso dele parecia mais que ele não tinha sido surpreendido – como se soubesse de alguma coisa. O velho é cheio de mistérios, vai saber.

Mas o pior é que os vampees viraram o mundo de cabeça para baixo, mesmo. Tudo mudou na rotina do pessoal e – por mais que eu achasse impossível – na minha. Desde que apareceram aqui em Wichita Falls, minha vida tem sido uma maluquice completa. Meti a mão no arsenal do coroa e voltei à época da guerra, onde eu era só mecânico mas era obrigado a pegar em armas de vez em quanto. Metralhei lobisomens (ééé, compadre), briguei com os rapazes do clube, tomei porrada de vampiro, fui enfeitiçado, descobri que tenho parentes mexicanos macumbeiros, virei feiticeiro e deixei de ser, vi e enfrentei fantasmas e enterrei velhos amigos. 

Pra fechar com chave de merda, uma vampira francesa empoladinha chamada Marie entrou na minha vida e me pegou de jeito, me fazendo ser chamado de fang banger e tudo. Já fomos e voltamos, brigamos e fizemos coisas que eu nunca imaginei que faria. O pior de tudo é que estar apaixonado por uma criatura dessas é que nem criar um gato. Ele está lá, você o ama, mas não tem a menor certeza de que ele corresponde, e ele pode ir embora, te sacanear ou te atacar a qualquer momento. Principalmente agora, que estamos em um estado esquisito, com um gelo danado da parte dela e um elefante na sala.
Sabe o que é melhor? Agora que minha vida virou essa zorra, eu finalmente me sinto mais integrado com o mundo. Talvez eu me sinta bem me arriscando feito um doido, talvez seja só uma vontade destrutiva meio reprimida, sei lá. Enfim, não sei o que o futuro me reserva, mas vou ficar no meu cantinho porque de uma coisa eu sei: não é nada bom.
A vida é engraçada.

6 comentários em “Conto – Remo’s mind

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