Conto – Reminiscências

Gosto muito desse conto. Nele apresentei a origem (no meu antigo blog de contos) do melhor NPC que já criei, o vilão que acabou sendo aliado em uma campanha de fantasia (esta aqui).
Nascera da lama. Galgara resistentes e espinhosas muralhas enquanto brandia a lâmina em defesa de qualquer senhor. Sentara finalmente no dorso de uma montaria, sentira o sangue bastardo azular e agora cavalgava, rasante como uma ave de rapina, descendo a espada por sobre couros mais baixos. Tingiu o mundo de vermelho, dando comida aos vermes. Mas era uma vitória sem gozo em uma batalha sem sentido. Enquanto voejava na dança da morte, o cavaleiro pesava se todos os infelizes naquele mar de sangue e merda valiam de fato ser mandados para o inferno. Guinou o corcel e parou a matança, estóico, a pouco da testa do último diabo na linha de carga. Observou, sem ânimo, o coitado fugir.
– Está ficando mole, Sir – atreveu-se Ronan, o escudeiro.
Os poucos sobreviventes do ataque relâmpago fugiam. As fumaças de chaminés denunciavam uma aldeia próxima. Estavam longe de casa naquela incursão de rotina ao vizinho inimigo, arautos das provocações da Trindade, as três ordens de cavalaria a que ele servia. Portian, até então, até então nada mais era que um condado na porção ocidental na gloriosa Bielefeld, emancipado à guisa de rebeldia. Tal atitude tão blasfema era implorar pela guerra, e houve um momento de euforia. Mas os senhores cavaleiros se deram conta de que possuíam outros inimigos, de bárbaros bérnios do norte a orcs das montanhas, e um conflito massivo não valeria a pena. Mas era preciso defender as novas fronteiras e retomar o que pudesse ser retomado. Assim, grupelhos de cavaleiros e servos eram enviados para rondar os limites, observar o movimento de possíveis tropas na terra inimiga e servir à arapuca, clamando por covardes emboscadas e ataques furiosos.

Muitos desses cavaleiros desimportantes regressavam sem suas cabeças para viúvas chorosas e carpideiras hipócritas. Mas aquele que sentia a brisa sanguinolenta da tardinha era Darius Drakkan, que nascera da lama e galgara as cabeças de homens tolos e arrogantes até levar sua espada aos quatro cantos do reino. Ocupava agora a cabeceira de mesa de um solar, servia um renomado conde e liderava homens com maestria incomparável a qualquer bem-nascido senhor da guerra.
– Já empilhamos os corpos dos arminhos e tomamos os espólios, senhor.
– Queime. Nenhum arminho portiano merece sequer uma cova rasa.
– Muito bem, Sir Darius – Ronan pôs-se a dar as ordens dadas sem muito interesse pelo distante Drakkan. Não odiava os portianos, em verdade. Considerava admirável sua determinação em não obedecer cegamente, assim como ele mesmo. Gostava de quem cuspia na cara do mundo, e mandava cremar seus mortos porque assim era nos reinos bérnios, onde todo o vazio de seu espírito um dia foi preenchido.
Embainhou a espada, tirou o elmo e o bojo de couro. Cabelos loiros caíram empapados na face suada e ondularam até o peitoral robusto de metal enegrecido. Levou-os para trás com as mãos e coçou a pouca barba no queixo quadrado. Olhos azuis firmes ignoraram os arredores carmesim e se concentraram num bosque mais além…
… onde as folhas do outono caíam.
Tinham cores mais avermelhadas que doiradas. Em Carnagh, um ano antes, um jovem cavaleiro estrangeiro jamais perceberia as nuances. Mas Darius estava deitado em um tapete delas, recostado em um delicado colo. Caíra ali depois de quase perder a vida ao chacinar um bando de enormes bárbaros de outro dos pequenos reinos que nunca cansavam de guerrear entre si. Antes dele, a jovem Coração de Fogo lhes enfrentava sozinha. Uma druidisa – sacerdotisa e conselheira versada -, mas apenas uma. A maré batia furiosa contra seu cedente penhasco quando foi ajudada pelo reluzente, sujo e faminto cavaleiro inimigo vestido em aço. Uma vida pela outra, entrelaçadas para sempre.
Try not to get worried, try not to turn on to
Problems that upset you, Oh
Everything´s alright, yes, everything´s fine
and We want you to sleep well tonight.

Sleep and I shall soothe you, calm you, and anoint you
for your hot forehead, Oh
then you´ll feel
Everything´s alright, yes, everything´s fine
Close your eyes, close Your eyes
and Relax, Think Of Nothing Tonight.
A voz límpida e suave entoava a cantilena, acompanhada pela brisa que levava as folhas da floresta encantada. Quando Drakkan saiu do feitiço do momento, suas pálpebras se perderam na imensidão dos olhos verdes-folha de Coração de Fogo, que com eles lhe sorriu. Ela pousou gentilmente a mão na sua, como uma mãe atenta à saúde do filho, e o levou para a sua cabana, e em uma aldeia o cavaleiro foi saudado pelos cárnagos. Eles não se importavam, naquele momento, com sua origem. E ele demorou naquela terra, sem pressa alguma e adiando o dia de sua partida daquele povo primaz e alegre. Sentia-se mais pertencente a eles e à misteriosa senhora que cheirava a framboesa sob o sol e a dama da noite sob a lua, sob as cobertas. Em breve, um druidisa e um cavaleiro faziam votos em uma ébria e lúdica noite de verão; uma jura marcada por sangue compartilhado, uma promessa de se encontrar no verão seguinte e nunca mais se afastar. Dois povos se odiavam, mas um casal amou.
De volta a Bielefeld, onde era nada mais que um pelego sob tutela de um conde gentil, fez a mais motivada e estimável carreira. Entre problemas dos campos e serviço nas tropas, recebia fortuitas visitas de sua amada esposa em seu quinhão de terras. Aos poucos, Coração de Fogo foi demorando cada vez mais a voltar ao seu povo, até que permaneceu. E aquele foi, sem dúvida, um dos piores erros da vida do jovem guerreiro.
Lembrou-se de sua primeira batalha perdida, em uma de suas primeiras contendas como líder de soldados, ao defender o pequeno condado de Berac dos Ursos Azuis da assombrada Floresta Sombria. As batalhas contra os bárbaros frequentemente o levavam às entranhas da floresta, onde conheceu uma bela e encantadora criatura de cabelos castanhos como avelãs. A elfa exerceu sobre ele uma atração sobrenatural, e seu forte coração derreteu como um metal na forja. Perdido de seus homens, Darius a encontrara pelo mais puro acaso em uma das fontes naturais sagradas das Dama Feérica. Tianna se deixou enfeitiçar pelo intrigante humano, em sua armadura fulgente sob os raios de sol que driblavam a copa das antigas árvores. Mas o ribombar das tropas fizeram do vislumbre uma fugidia miragem, e ele tinha dúvidas do que tinha visto.
Os Ursos Azuis foram obrigados a desistir da vingança contra as ofensas, mas o mercenário jamais deixou de regressar aos perigos da Sombria, perdendo-se tantas vezes em busca daquela visão perdida. Por muitas luas perseverou, até que a encontrou. A aldeia onde a elfa vivia, Alestil, os trancava em seus limites por causa das constantes guerras no perigoso mundo exterior, mas Tianna escapava da segurança dos arqueiros, procurando desesperada o mesmo momento mais uma vez. Os mundos se reencontraram, e um casamento secreto ocorreu em uma aldeia tão pequena que seu nome se perdeu no tempo. Uma cabana perto da floresta e de mais lugar nenhum era a garantia de uma vida. Mas acabou brevemente, quando Darius foi encontrado pelas ordens de Berac partiu em uma nova campanha. Em desespero, Tianna pariu sozinha os frutos gêmeos de seu irresponsável amor. Pior: Alestil soube. E decidiu não permitir mais aquela profana união, e o próprio Mago da Luz, sua alteza em poder, visitou o casal assim que Drakkan retornou. Foi ordenado o fim dos laços sem valor e Tianna, em fraqueza, decidiu ficar com um dos filhos para si como lembrança do cavaleiro. O outro – uma menina – foi dado a Darius, que teve de partir por ordem de um elfo secular.
A segunda batalha perdida de Sir Darius Drakkan veio anos depois, em sua própria terra. De volta de mais uma cansativa e desnecessária incursão a Portian, deixando sua jovem filha Leona em um feudo vizinho para preparar seu casamento, encontrou à porta de casa um destacamento sob a bandeira de seu próprio senhor. Ficou ainda mais ressabiado ao ver quem saiu de sua casa. Conde de Berac em pessoa, as cãs acariciadas pelo vento, a velha armadura polida, o abdome enganando covardia e um mangual pesado sugerindo poder. Foi cumprimentado e viu a própria Coração de Fogo surgir, amarrada a cordames, vestido rasgado e corpo coberto de queimaduras e ferimentos que marcavam seu semblante com dor. Seu séquito era composto de homens corpulentos e um sombrio sacerdote inquisidor, e ele não teve mais dúvidas do que acontecia.
– Espero que tenha feito agradável cavalgada, meu servo. Não tomarei vosso tempo com frivolidades; imagino que já tenha consciência de que não há como esconder qualquer perfídia nas barbas de Khalmyr da Justiça, portanto seus crimes serão todos revelados agora.
Sem dar tempo de reação, o Arcebispo Colgrevance, precedido de enorme prestígio na grande cidade de Norm, se adiantou e levantou a mão direita.
– Este é um julgamento simples, sem necessidade de tribunal, em virtude de pecado maior. Esta autoridade acusa Darius Drakkan de violar as sagradas leis de Bielefeld, da Trindade, da Ordem da Cavalaria da Coroa e da Santa Igreja de Khalmyr. O delito, de mancomunar-se com uma praticante de atividades tidas pagãs pelo Sacro Código da Luz, deve ser imediatamente punido. Sendo apenas sequaz da ré de primeira instância, esta autoridade condena-lhe à execução pela forca. Como prova da benevolência da Igreja, terá extrema-unção para a entrada de sua alma em Ordine, reino do Todo-Poderoso.
A fúria ardia e rasgava o peito e a gargante de Darius. Preparou sua espada Glaurung, fiel companheira de anos, e cruzou o olhar com a corajosa Coração de Fogo, que morreria por sua fé, crenças e amor. Deu um cauteloso passo à frente, mas uma vintena de homens também se adiantou. Azgher, o Sol, observava de sua morada cada vez mais homens de Drakkan se aproximarem do local.
– Bruxa bérnia, invasora pagã – continuou a berra o creligioso. – Esta autoridade a acusa de praticar a assim chamada Arte Druídica, proibida nas terras civilizadas, incluindo mas não limitadas ao reino de Bielefeld, sob a Égide da Ordem da Luz e onde quer que alcance a palavra sagrada da justiça, além de condenar à morte cinco homens tementes a Khalmyr e à Dama Verdadeira com ritos de magia ímpia. Como reza o Código, a pena para tal sacrilégio não é outro senão o julgamento pelo fogo, quando a piedade da Dama do Cálice poderá ou não se manifestar. Neste caso, a pagã será excomungada e sua alma irá aos Nove Infernos. À prole deste pacto das profundezas florestais a pena se extende.
– Duvido que a Dama se preocupe com tal criatura de Bel – murmurou Berac. – Homens, levem o padre, a pagã e suas crias de volta ao feudo para enfrentar o fogo, e fiquem apenas dois oficiais e o carrasco comigo para selar o destino de Sir Darius. Tenho certeza que o enfrentará com honra – disse por fim.
Os homens de Drakkan já se preparavam para defender seu senhor, prontos para morrer por ele. Aproximando-se de seu senhor, Ronan deixou isto claro e recebeu uma resposta murmurada. 
– Eu enfrentarei com honra a você, à Igreja e ao próprio reino – bradou Darius, erguendo Glaurung. 
– Drakkan! Drakkan! – gritaram seus fiéis comandados, insuflados por Ronan, e imediatamente atacaram os soldados de Berac com enorme ferocidade. O conde afastou-se, surpreso e indignado, com seus oficiais e tentou desesperadamente distinguir o cavaleiro dentre quase sessenta homens em uma peleja. Subitamente Darius surgiu em um bote feroz, como o leão de sua flâmula. Atingiu o escudo de um oficial com tanta força que o explodiu, deixando apenas a bossa e moldura e fazendo-o gritar de dor. Outro girou um machado mirando o flanco do cavaleiro, mas Glaurung postou-se com surpreendente rapidez no caminho do golpe, e as duas armas se encaixaram com um sonoro clangor. Drakkan girou a espada e arremessou longe a arma do oficial, e no retorno simplesmente decapitou o homem. Os outros oficiais se posicionaram por sobre o cadáver gorgolejante, mas o cavaleiro os atropelou com um encontrão – lutava para chegar ao arcebispo, mas viu o conde à frente. O ódio guiou seus braços em um poderoso arco com a espada de meia-mão, e o nobre por pouco não conseguiu suportar a cruel mordedura da arma, escondido atrás do escudo. Aproveitou o momento de recuo da arma de seu vassalo para atacá-lo com seu mangual, mas o guerreiro aguardava aquele movimento: sua defesa fez com que a corrente se entrelaçasse na espada, mas Drakkan soltou as duas armas com um solavanco. Glaurung mais um vez mordeu o escudo de metal com força e maldade, e o conde precisou se apoiar com o joelho esquerdo, sentindo a dor em cada osso. Começaram a trocar golpes, Drakkan com a clara vantagem. 
Os dois combatentes permitiram-se tomar fôlego. Perceberam que estavam sozinhos no local – os homens de Drakkan fingiram evadir, e os soldados do conde lhes deram perseguição. Eckmund Beric sentiu mais uma onda de pavor pela fama do guerreiro à sua frente, ainda por cima mais jovem. Afastou-se com rapidez com passos longos, sem jamais dar as costas. O cavaleiro, ansioso para terminar tudo aquilo, castigava o velho com golpes cada vez mais furiosos e violentos, destruindo armadura e escudo, tirando sangue e se aproximando do pequeno lago próximo ao solar. Assim que puseram os pés na água, o lodo fez Darius escorregar – Berac então fez seu melhor movimento, soltando o escudo quase arruinado e desferiu um golpe com as duas mãos. As armas se beijaram em um choque tão violento que a bola de ferro do mangual mágico simplesmente partiu Glaurung em duas, liberando faíscas de magia que queimaram a pele de ambos. Uma cólera nunca sentida brilhou no âmago de Drakkan. Em um rápido, surpreendente e definitivo movimento, sangue farto jorrou da lateral do corpo do velho conde quando o que restou da lâmina do cavaleiro o perfurou. Eckund caiu com as costas no lago, e Darius ajoelhou-se por cima dele com a calma assustadora de um homem que perdeu tudo. Suas mãos encontraram um pescoço, e uma prece rápida foi sussurrada.
Chuva e sol, noite e dia. Por uma eternidade cavalgou, trocando joias e ouro em abrigo e comida. Chegou a Norm em um amanhecer cinzento, em farrapos e sob um manto escuro. Na praça principal da cidade, em um enorme palanque no centro, avistou uma miríade de troncos queimados e alguns troncos centrais, onde Coração de Fogo e os quatro fihos que tivera com ele haviam sido queimados na noite anterior. Pouco a pouco foi encontrando seus homens, também ocultos e tristonhos por terem sido incapazes de alcançar a comitiva e impedir a execução. 
Ele também, como uma brincadeira maligna do destino, tinha chegado tarde demais. 
Reuniu seus comandados e ordenou a Ronan que fosse buscar Leona e o encontrasse nas terras de fronteira. Logo seria admoestado e caçado por toda Bielefeld, então planejou se esconder no lugar mais plausível naquele fugaz momento: o reino inimigo. Em Portian, encontrou outros cavaleiros renegados, sendo surpreendentemente acolhido pelo reino.
Nascera da lama, conquistara tudo e perdera tudo. Tianna havia sido uma grande perda para Drakkan, mas ele não havia culpado Bielefeld por isso. Mas agora o reino havia lhe tirado algo importante demais. 
Ele teria a sua vingança.

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