Jornais em cenários de fantasia

No cenário oficial de Tormenta, há um famoso jornal chamado Gazeta do Reinado, que espalha notícias mensais para todos os reinos (e cuja sede, se não me falha a memória, é em Valkaria, a maior metrópole do mundo) através de um engenhoso sistema com jornalistas-magos e tudo mais, e que vem encartado na Dragon Slayer como um handout.

Eberron, se não me engano, também tem jornais periódicos, incluindo jornalistas como classes de prestígio de D&D. Sempre fui meio avesso a este elemento, talvez por estar preso ao modelo de fantasia mais tradicional de Tolkien, que inspirou mundos selvagens com “pontos de luz” que mal se comunicam. Mas agora, com uma cabeça mais aberta e mais segurança dos “níveis de tecnologia” das regiões da minha versão de Tormenta, estou pensando em inserir os jornais, tribunas, gazetas e clarins nas minhas campanhas.

O danado é que eu nunca consigo usar essas coisas levianamente, ou aceitar de qualquer forma o que vem escrito nos livros. Sendo assim, tenho pesquisado (informalmente) a respeito da história da imprensa no nosso mundo, para ver a forma mais coerente e verosimilhante de ter jornais no meu mundo de fantasia. Descobri algumas coisas muito interessantes, que compartilho aqui com vocês enquanto colho opiniões e sugestões de como deixar decentes os meus jornais medievais.

A primeira publicação regular foi a Acta Diurna Populi Romani (Relatos Diários ao Povo de Roma), gravada em pedra em espaços públicos no governo de Júlio César (em 59 a.C.), com eventos políticos e sociais, guerras, sentenças judiciais, execuções e escândalos. O primeiro jornal em papel, Notícias Diversas, era um panfleto manuscrito a partir de 713 d.C., na China, onde também foi inventado o tipo móvel, usando blocos móveis de madeira. Na Baixa Idade Média, as folhas escritas com notícias comerciais e econômicas eram muito comuns nas ruas, em pele e papiro. A prática mais normal era os donos de bares e cafés puxar conversa com os viajantes, pegar suas histórias sobre guerras e outros eventos interessantes, imprimir e entregar aos seus clientes. Mesmo com as publicações escritas nas cidades, a maior parte das notícias viajavam através de trovadores (bardos), que as levavam para as terras mais longínquas.

A imprensa moderna surgiu depois de 1400, quando Guttemberg criou a famosa prensa de impressão e começou a produzir livros e jornais de forma mais rápida e com maior alcance. Em 1500, haviam oficinas de impressão em 226 cidades europeias. Basicamente, usa-se tipos móveis (placas em alto relevo) para montar uma página em uma placa, e coloca-se numa geringonça que imprime esses tipos (molhados em tinta) em um papel. Dezenas de pessoas montavam pacientemente essas páginas e montavam publicações inteiras. Abaixo um vídeo demonstrando esse processo.

Entre o século XVI e XVII, os jornais traziam principalmente notícias da Europa e de vez em quando informações vindas da América ou Ásia. Eles raramente cobriam matérias nacionais – os ingleses, por exemplo, preferiam relatar derrotas militares sofridas na França, enquanto os jornais franceses iam à forra e cobriam os mais recentes escândalos da família real inglesa. Na segunda metade do século XVII, os jornais começaram a focalizar assuntos locais, internos dos países.

A censura era algo normal (tanto da Igreja quanto do Governo) e os jornais raramente podiam abordar eventos que pudessem incitar o povo a uma atitude de oposição. Daniel Defoe, autor de Robinson Crusoe, é considerado o primeiro jornalista do mundo. Em 1704, iniciou a publicação Review, periódico que cobria assuntos europeus. Em 1766, a Suécia tornou-se o primeiro país a aprovar leis de liberdade de imprensa.

d2744-gaz2Todas essas informações me deram boas ideias. Os possíveis jornais em Arton compartilhariam as seguintes características: teriam circulação a partir de grandes cidades, em reinos mais prósperos e/ou cosmopolitas; trariam notícias de guerras, eventos políticos importantes, escândalos e grandes feitos de aventureiros; quanto maior o alcance, menor a periodicidade (por exemplo, Valkaria poderia ter mais de um jornal local semanal, enquanto os que circulassem até os reinos próximos seriam mensais ou trimestrais); bardos e trovadores seriam altamente considerados pelas pessoas que criam esses jornais; eles estariam altamente sujeitos aos interesses dos poderosos (como a imprensa real, claro).

Quando consideramos a magia, que no meu cenário não é tão banal ou comum, mas ainda é poderosa e pode ser usada por figuras de prestígio, a coisa melhora um pouco. Penso em magos que criaram feitiços para copiar rapidamente manuscritos. Penso na criação de uma prensa em uma cidade desenvolvida como Valkaria, que seria aprimorada com magia de magos que pensam de forma mais prática (como Vectorius, que acha que a magia é uma ferramenta revolucionária e não um dom perigoso ou algo assim). Penso também em bardos “jornalistas” com magias poderosas para enviar notícias através da “malha” mágica (maginet! hehe).

Criando a “Gazeta do Reinado” nos moldes da minha versão do cenário, pensei em mudar o nome, mas achei bem pomposo e pretensioso para o povo de Valkaria, que se acha mesmo a “nata” da sociedade artoniana.

Seria uma publicação mensal, com informações reunidas da imensa quantidade de viajantes que passam pela cidade (ela tem entre 300 e 700 mil habitantes, dependendo do período), incluindo quando a cidade comercial voadora Vectora (do mago Vectorius), que viaja por Arton, passa por ela. Taverneiros e guildas de informantes e mensageiros seriam pagos para anotar notícias interessantes, ou venderiam essas notícias à guilda da Gazeta (semelhante às agências de notícias atuais). Aventureiros seriam estimulados ou abordados para darem notícias, e os responsáveis pela publicação teriam um trabalhão para tentar checar a veracidade dos boatos.

As histórias mais marcantes ou que parecessem mais verdadeiras seriam publicadas, a partir de uma prensa aprimorada com magia, e uma guilda de entregadores ficaria responsável por levar essas manchetes para todo o reino de Deheon, onde fica Valkaria (e além, até onde se pudesse chegar em um intervalo de um mês), em revezamento. Seria um serviço nobre e perigoso, onde escoltas teriam de acompanhar estes homens e mulheres, sujeitos a ataques de poderes ou pessoas que não querem que certas notícias cheguem em outros lugares. Em períodos de guerra, o jornal seria um poderoso veículo de informação ou desinformação, com o poder de impedir ou incitar conflitos.

Pra falar a verdade, a versão oficial do jornal deve ser exatamente assim, mas com a minha mania, acabei contextualizando ela de uma forma que me agradasse. E aí é só partir para criar outras formas de jornais, incluindo notícias em pedras dos anões ou informações através de selos mágicos dos elfos. Ou mesmo paródias dos jornais mais importantes em reinos prósperos mas sem o “tino da moda” de Deheon, como Samburdia.

De forma geral, vou usar o advento dos jornais tanto como ferramentas narrativas (como cheguei a descrever aí em cima) quanto para dar aquela ideia legal de mundo dinâmico, com os personagens chegando em uma cidade grande e vendo noticiada alguma aventura que eles completaram há algumas semanas como um grande feito (para dar um tapa no ego, lembrá-los de eventos passados, ou justificar a fama), ou dar pistas de alguma ameaça, NPC ou problema que eu queira inserir na história. A Gazeta da Dragon Slayer serve para dar diversos plots e atualizar informações do cenário, mas os jornais do meu jogo servirão para que essas coisas sejam personalizadas.

Fontes de pesquisa: WikipédiaJornal Online, Todo Poder à Imprensa e Nos Tempos da Prensa.

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4 comentários em “Jornais em cenários de fantasia

  1. Eu fazia isso com Gandara, a ideia inicialmente era uma noticia nova por dia (vinha com o nome de Piechur em homenagem a um site polonês que tinha linkado a gente). É bacana e o formato te permite extrapolar as possibilidades do cenário e viajar longe heuheu

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