Eragon e a transposição de mídias

Há alguns anos fui assistir Eragon no cinema pela aventura com o pessoal, já que esperava um filme de fantasia pop furrequinha, mas pelo menos tinha o John Malkovich, Robert Carlyle e Sienna Guillory (teteia!). O filme não decepcionou, sendo ruim como eu esperava. Os anos passaram, e minha cunhada sempre me dizia que o filme estragou o livro, que os livros do Ciclo da Herança (como é chamada a série) são bacanas e tal. E aí eu li, e nem achei ruim.
Eragon é um livro escrito por Christopher Paolini, na época um moleque filho de um dono de editora pequena e editorado pela mãe, que acabou fazendo (bem) mais sucesso que imaginava. É uma história fortemente inspirada em J.R.R. Tolkien, inclusive com o cuidado de ter um idioma próprio – na verdade o norueguês medieval com algumas expressões inventadas. O reino de Alagaësia tem elfos altivos e superpoderosos, anões antigos e solenes, uma ordem de antigos cavaleiros-feiticeiros montados em dragões (que lembram os númenor em espírito), um tirano cavaleiro renegado que dissolveu a ordem e agora domina o reino e um povo endurecido (os Varden) que resiste à opressão.

No meio disso tudo Eragon, um jovem caçador arqueiro de 15 anos encontra nas montanhas uma pedra azul polida. Logo ele descobre que se trata de um dragão, o que muda rapidamente sua vida. Ele se torna um heroico cavaleiro, protagonizando uma grande aventura pelo reino e o início da guerra contra o Império. Nessa jornada, Eragon e sua dragoa Saphira precisam enfrentar os monstruosos Urgals, um sombrio Espectro e as diversas tramas que envolvem o Império.
De cara vemos o cenário praticamente tolkeniano. Idiomas antigos, elfos majestosos escondidos nas florestas, anões com salões ancestrais e impressionantes, uma terra decadente com glórias antigas, dragões quase desaparecidos, espectros nazgul style, orcs e uruk-hais (aqui, urgals e kulls). Toda a história do cenário, bem como a contextualização sobre magia, as relações entre as raças e os tais cavaleiros de dragões são amarradinhas. A fantasia é, como era de se esperar, bastante simples e até um tanto infantil (imaginei os elfos cavalgando unicórnios :P), mas o autor até flerta com alguns aspectos um pouco mais adultos (mortes terríveis, intrigas e tensões políticas interessantes, um ou dois comentários levemente sexuais, etc.). Talvez a coisa seja como em Harry Potter, onde mesmo mantendo a história “para toda a família”, ela cresceu com o público ao longo dos livros, jogando temas mais pesados e sombrios.
O enredo em si (lá vem alguns spoilers, nada comprometedor) é a jornada do herói em sua forma mais comum, e uma colagem de Star Wars, Tolkien e outras referências do autor: um jovem fazendeiro (Eragon/Luke) encontra um aliado importante (Saphira/C3PO e R2D2), tem o lar destruído (tio/tios), conhece um velho ex-cavaleiro que se escondia ali para cumprir uma profecia (Brom/Ben Kenobi), recebe uma ajuda adicional (sabre de luz/dragão e Força/magia), descobre que tem uma ascendência antiga e poderosa e se torna um grande herói em tempo récorde. Temos um mentor ocasional esquisito e pequeno (Solenbum/Yoda), um aliado anti-herói (Murtagh/Han), uma resistência rebelde (Varden/Aliança), um Império (bem, esse é descarado) e um chefão pau-mandado das trevas (Durza/Darth Vader). É uma história bastante pop, a jornada básica do herói, mas não deixa de ser divertida pela roupagem de fantasia medieval e o cenário bem construído. O ritmo varia entre o tolkeniano (descrevendo até as refeições de Eragon) e a literatura cinematográfica atual, sendo agradável de ler apesar de um pouco arrastado.
Eragon é um produto bastante comercial nascido do sonho de escrever fantasia que muitos de nós temos, que ganhou notoriedade por ser bem editado (do ponto de vista mercadológico) e “paitrocinado”, e acabou gerando um filme fraquíssimo, que não agradou nem o público-alvo dele. O ator principal foi mal escolhido, algumas mudanças beiraram o ridículo, e a transposição de mídia ficou malfeita (acabei pegando o filme pra assistir de novo :P), de modo que quebrou a história e deixou mal construída para quem nunca leu o livro, e irritante para quem leu. O grande problema de adaptações é esse: as mídias são diferentes, de modo que a não ser que você vá fazer uma transposição literal (o que eu acho um desperdício de criatividade), é melhor fazer um bom filme e correr o risco de ouvir mimimi dos fãs.
O livro, todavia, além de cumprir o propósito de ser entretenimento puro e ter uma prosa legal, serve muito bem para o público infanto-juvenil. Vamos ver se os próximos seguem essa receita ou pioram!

9 comentários em “Eragon e a transposição de mídias

  1. Ele conta em detalhes até quantos quilômetros os personagens rodaram no Deserto. Total Tolkien. Eu particularmente tenho “Eldest”, o segundo livro, como favorito. O começo do livro é eletrizante com um acontecimento que vc fica sem saber o que pensar e o final trás grandes revelações sobre profecias ao redor de Eragon, além de sua própria ascendência =D. Me arrepio só de lembrar *–*

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  2. Excelente post Dan!

    Estou lendo agora Eldest, é realmente posso afirmar que o filme está muito aquém da obra de Paolini que, para um moleque de 15 anos (primeiro livro), escreveu uma saga sensacional. Realmente o enredo não se destaca pela originalidade, seguindo fielmente os rastros de O Senhor dos Anéis e Star Wars, na verdade uma mistura bem temperada dos dois. Mas as descrições do sofrimento e do cotidiano dos personagens são um show a parte. A escrita do autor leva em conta aspectos físicos, ignorados em outras obras. Por exemplo: já imaginou como seu corpo ficaria após voar em um dragão pela primeira vez? Paolini pensou, e descreveu magistralmente as consequências disso :)

    Reforçando a resposta do amigo acima, o quarto volume saiu sim, e se chama Herança (a cor dele é verde). Tenho os 3 primeiros que comprei por uma verdadeira pechincha, e quero comprar o quarto pra ontem!

    Se você está com tempo livre entre a leitura das Crônicas de Gelo e Fogo, unanimidade entre os leitores de fantasia no Brasil, dê uma chance à esta obra. Prometo que você não irá se arrepender.

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  3. É verdade Sérgio, muito legal ver que 1) Saphira não cresce em 1 dia, e sim já estava há anos esperando pra nascer e leva meses para crescer e 2) Coisas muito legais são descritas, como os efeitos do voo sangrando as pernas dele e coisas como a planície e o deserto que secam a garganta e ferem a boca. A descrição das cidades é bem legal também. Ele fez um trabalho bem consistente nisso. Esqueci de mencionar essas coisas no post!

    Bom ver você por aqui, está curtindo os reportes da Canção? Outra coisa, a Sangue e Glória morreu? Nunca mais vi os reportes!

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  4. Cara acompanho o blog semanalmente. Nem sempre dá tempo comentar, mas minha audiência você tem, até porque a produção está de parabéns :)

    Rapaz, ao que parece, morreu sim, infelizmente. Mas pretendo fazer um conto encerrando a campanha. Em breve pretendo explorar as Guerras Táuricas. Estou muito empolgado lendo o suplemento.

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  5. Ainda nã li, mas que o filme é péssimo é. Até o momento li apenas o prólogo, e a partir desse início nota-se que a linguagem é bem simples, de fácil compreensão e dessas em que se lê um livro inteiro em uma tarde.

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