O Um Anel e o preço dos RPGs no Brasil

Como você provavelmente já sabe, a Devir está trazendo o excelente The One Ring: Adventures over the Edge of the Wild para o Brasil, com o título O Um Anel: Aventuras além do Limiar do Ermo (leia o release da versão brasileira clicando aqui). 
O jogo está vindo com o mesmo conteúdo (e como agora a editora é a MC Zanini, cujo trabalho eu confio, creio que virá com a mesma qualidade): uma caixa com o Livro do Aventureiro, o Livro do Mestre, dois mapas e 7 dados personalizados. Este módulo básico é ambientado nas Terras Ermas  (região da Terra-média a leste das Montanhas Sombrias), cinco anos após o final d’O Hobbit. A luva (capa da caixa) de OUA é de papelão grosso revestido com couché, os livros são capa mole com acabamento especial na 3ª e 4ª capa e os mapas são em couché encorpado. Tudo em cores e ricamente ilustrado (arte de John Howe, Jon Hodgson e Tomasz Jedruszek). 
O sistema em si é muito elogiado, com uma resenha muito confiável de um blogueiro brasileiro, o Diogo Nogueira, que mestra uma campanha nele. Do pouco que já li só tenho a elogiar, emula bastante bem uma aventura na Terra-média, com o clima tolkeniano (pra você ter uma ideia, canções são algo importante no jogo) e sem incorrer ao problema de jogar em um cenário que já tem as melhores histórias contadas. O preço final da caixa está em R$ 165, e a MC diz que está vendo as possibilidades para a pré-venda. 

Quando a Devir lançou em português o Mago: O Despertar a 100 mangos, rolou uma enorme polêmica a respeito do preço, e no caso do OUA não foi diferente. 165 dilmas é um valor relativamente salgado, claro, mas para fãs de Tolkien como eu, está aceitável. O mercado está crescendo, a economia brasileira já é um pouco mais madura e o poder de compra geral já é um pouco mais ousado. O RPG, como qualquer outro segmento, tem produtos mais populares e apelativos, e produtos mais caros. Há o argumento de que é mais barato comprar o produto original (se não me engano está saindo por R$ 120). Da minha parte prefiro ter o material em português e acessível, mas vai de cada um. De qualquer modo, temos que considerar alguns fatores, como os custos de produção e licença
Como eu disse há pouco no Twitter, algumas pessoas se surpreendem que o preço de jogos traduzidos geralmente é maior que os nacionais, mas provavelmente nunca cotaram uma licença. Quanto mais badalado e bem sucedido um jogo é, mais caros são os seus direitos, como em qualquer mercado. A licença de um Pathfinder ou Warhammer da vida não sai por menos de alguns milhares de euros, ao contrário de licenças pequenas indies, que ficam nas centenas de doletas. Além disso, os publishers originais recebem uma parcela do lucro do preço de capa, dependendo do contrato. O segundo fator é o custo, obviamente: estamos falando de dados importados (a Devir vai trazer os originais), um possível bom acabamento, impressão especial, mapas encorpados e tudo mais. Mesmo que a tiragem seja grande como as da Devir, isso tudo em cores ainda eleva muito o custo de gráfica. Isso sem falar em despesas operacionais e etc. O terceiro fator é a análise de risco de mercado: é caro publicar RPG no Brasil porque o retorno é menor, e a aceitação é um enorme fator de risco. Neste caso a Devir preferiu agregar valores ao produto e obter retorno de nicho, com uma margem de lucro aceitável em relação ao risco. 
A Devir podia ter orçado mais barato? Até poderia, mas até agora não achou interessante. Uma versão econômica do OUA, segundo a Zanini no Twitter (só os livros, ou em P&B como o Dragon Age RPG da Jambô, ou sem os dados, etc.), não é rentável para a editora, embora eles estejam dispostos a explorar algumas opções. Esta é uma análise que sempre fazemos aqui na Redbox, procurando oferecer o produto luxo e versões mais em conta (embora quem tenha a versão de luxo do Shotgun não se arrependa jamais), mas é bem possível que a Cubicle 7 não permita isto em contrato. De qualquer forma, o Lan de Borba fez uma análise bacana de preços de RPGs trazidos para o Brasil que no fim das contas ficaram mais baratos que os originais – mas perceba que são jogos que não chegam nem perto do porte de um The One Ring. 
Bom, esses foram meus dois centavos sobre o assunto. E vocês, o que acham?

3 comentários em “O Um Anel e o preço dos RPGs no Brasil

  1. Concordo e é muito. A ideia do preço no RPG, na verdade, foi uma das formas de lançamento de novas editoras (como a Jambô, mas também antes com aquela-editora-que-não-pagava-seus-editores), que entraram no mercado com o diferencial de vender material mais em conta.
    Demonizar o preço em um mundo de relações de mercado não leva a muitos lugares. É como você disse: o preço define um público-padrão, que, se for destacado, cria moda e leva ao desejo geral dos outros públicos. Honestamente, RPG começou como um jogo onde você tinha que juntar uma grana pra começar. Lembro de pagar quase 50 reais em cada livro de D&D em tempos onde o salário mínimo valia metade do que hoje. O jeito era ratear.
    Se formos pensar a realidade econômica do Brasil é mais fácil entrar em um longo debate sobre os custos de tablets e smartphones (“incompatíveis” com nosso país”). E quem vai mesmo querer puxar esse debate?

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  2. Eu achei o preço justo por causa da qualidade que a DEVIR vai dar ao produto. Agora se fosse um produto em P&B, sem os mapas, dados, luva, etc. Acharia sacanagem. O negócio é que quem nunca conversou com ninguém de alguma das editoras do país, acha que as licenças são quase de graça e que quem trás o material para o Brasil é o explorador.
    É como você disse Dan, dono de editora não vive de luz e existe uma série de custos operacionais.

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