Escolhendo nomes: critérios e truques

E se esse cara se chamasse “Goiaba”?
Se existe um assunto polêmico em fantasia, é a questão dos nomes. Jogadores e narradores raramente pensam muito na hora de escolher os nomes de seus personagens, locais e etecétera (esse ótimo post do Pontos de Experiência fala mais do assunto), bem como folheio livros de autores novatos de fantasia sem lá muito critério.
Eu sou bastante criterioso (meus jogadores diriam até muito chato) com nomes. Acredito que eles podem ser bem ambientados e climatizados com a história que se conta, ou ser um desastre total.
Fico nervoso quando vejo monges chamados Chan Ti Li (essa veio de uma antiga Lendas Lendárias da saudosa Dragão Brasil) ou uma cidade chamada Shupinski Mock (alguma doideira que saiu da mente da pessoa na hora), ou um cavaleiro chamado Kjerthdsavrin (teclei aleatoriamente), ou pior, João.
Acredito que essa questão precisa ser bem pensada, sob risco de perder a credibilidade da sua história ou do seu personagem. Cada ambientação tem seu clima, e os nomes são importantes para passar esse clima.

Se em qualquer gênero de história eu penso bastante antes de atribuir um nome a algo ou alguém (e infernizo meus jogadores com isso), na fantasia ainda vou além, buscando inspiração na vida real para fundamentar os nomes juntamente com as civilizações reais que me baseio (conforme já falei nesse post sobre inspirações de cenários). E, como que para corroborar com minhas maluquices, recentemente me toquei do truque mais usado pelo malandrinho George R. R. Martin.
Estavámos esses dias conversando, eu e minha amiga Allana, sobre essa malandragem: ele busca as raízes de cada sistema de nomenclatura, pega os nomes criados pelas civilizações, troca algumas letrinhas, e voilá! Temos Khal (Khan), Kevan (Kevin), Eddard (Edward), Petyr (Peter) eJoffrey (Jeffrey).
Se você pensar direitinho, no caso de Martin, a pronúncia dos nomes quase não muda, mas a escrita diferenciada, às vezes só trocar um i por um y ou algo assim, dá um charme danado à coisa. Depois de nos damos conta dessa estratégia nao tão óbvia, nosso sistema de nomenclatura mudou bastante.
De personagens como Lorana (Lorena) e Kyevan (Kevin) até alteração de vários nomes de lugares que eu tinha no meu reino e eram muito parecidos com nomes de lugares reais ou de outros cenários de fantasia (além de usar bastante aventuras prontas, e copiava muitos nomes de outros cenários quando era mais novo).
Por exemplo, no Tormenta, cenário no qual minha ambientação de fantasia se baseia (vocês sabem a história, né?), existe um reino chamado Yuden, cuja inspiração de nomes é vagamente russa, mas o reino tem feeling de Alemanha do 3º Reich. Ao criar minha versão, fui bem além nessa inspiração russa – pesquisar sobre a Moscóvia e o Principado de Kiev, além de dar uma olhada no que fizeram em Khador (Iron Kingdoms) e Karameikos (Mystara) me ajudaram nessa fase. Então compilei uma pequena lista de nomes e de quebra ajeitei a forma com que os yudenianos se nomeiam, a seguir.
Todo nome yudeniano é composto de três: um primeiro (dado), um nome patronímico e um sobrenome. O patronímico é derivado do nome do pai, de acordo com a seguinte regra: homens adicionam -evik ou -ovik (Nykolaevik, Zavullovik). Mulheres adicionam -ovra ou -evra (Nykolaevra, Zavullovra). O patronímico combina com a última vogal do nome, descartando a última consoante, se preciso (de modo que Zavullon vira Zavullovik, e não Zavullonovik). Yudenianos usam o primeiro e patronímico em relacionamentos formais.
• Vladvir Vladvirovik Putnev
• Fyodor Mikhailovik Dosteavsk
• Dimitri Zavullovik Bruenov
• Nikidda Sergyevra Gelevna
Nomes comuns masculinos: Arkad, Arten, Aleksen, Antor, Andrev, Aden, Borys, Davik, Dmitri, Evgen, Egor, Yvan, Kiril, Lev, Leorid, Ludvic, Olek, Petyr, Romon, Rusen, Seman, Stanislev, Stasik, Staphan, Tymur, Fillyp, Mitkov, Yure, Yekov, Yan, Valentyn, Vladmir, Vladslav, Vladik, Viktarion, Vankeslav, Grigor, Mikhal, Kyevan, Abran, Aron, Zavulon, Kyral, Nester, Olesken, Pavlon, Petro, Sergyen, Nykolaj
Nomes comuns femininos: Danechka, Darya, Dasha, Dianna, Zhana, Zhenya, Katheryn, Katiya, Katyuna, Elana, Elizavet, Zinaid, Zinna, Zoyka, Iryne, Irinka, Lada, Lalya, Lidiya, Lilya, Ludov, Lyudmil, Natelyia, Netasha, Olga, Olenka, Raya, Svetlen, Sveta, Snezhana, Sofyia, Tatvana, Hristina, Elvyr, Yullya, Yanna, Dimka, Vanya, Lenya, Lenechka, Olezhka, Petya, Klera, Tsillia, Alla, Alexandra, Sashen, Anzhela, Valeryen, Valya, Valenkina, Verenka, Galen, Nikidda
Sobrenomes comuns: Feldaran, Fridennach, Ravnovrosky, Bredsky, Zenslavjy, Kegan, Gorodshten, Grinmelren, Keplen, Oleksienko, Ovseenko, Shurenko, Shavko, Kovalenko, Shevchenko, Timoshenko, Ivendrev, Gorodets, Shvetnnach, Koshur, Kushnar, Snikur, Bandar, Kevzar, Svichkar, Zolyar, Druvich, Litzink, Perkin, Kuchin, Kevalevsky, Gelevna, Kolesnnach, Vesilev, Ferodov, Mihaikov, Gervenach, Putnev, Pekrtranev, Bruenov, Yudennach.
Veja que ao invés do sufixo -vich e -ovna (Vladmirovich e Sergeirovna) optei por -vik e -ovra. Fora isso, mudei umas letrinhas aqui e ali, como faria o bom Martin, e tenho nomes bacanas, com o espírito certo para nós.
Outra coisa: composição dos nomes tem a sua própria “métrica”, como a poesia. Para soarem bem, serem realmente sonoros, há de se observar um certo critério na contagem das sílabas e no que combina com o quê. Geralmente um nome fica bem mais agradável aos ouvidos quando é composto de um curto e um longo (Luke Skywalker, Dimitri Bruenov, Warren Worthinton), dois curtos (Mara Jade, Chun Li, Jon Snow) ou dois longos com um ritmo que combine (Shang Tsung, Hederick Veladore). Para locais a mesma coisa.
Acredito que a dica principal quando você der o nome a alguma coisa é ficar repetindo em voz alta, pronunciando e procurando possíveis problemas na sonoridade ou pano pra manga pra zoação, e se dar por satisfeito quando o resultado sair bacana. =D
Ok, você pode não gostar de basear nomes (não muito, afinal todos nos baseamos em algo para criar, como eu disse no post de cenários, acima), ou preferir nomes mais exóticos e malucos, mas eu acredito fortemente que ao menos algum critério deveria ser seguido quando se está pensando em nomes. Na minha opinião, uma perdazinha de tempo e neurônios que pode melhorar qualquer experiência de leitura ou interpretação!
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15 comentários em “Escolhendo nomes: critérios e truques

  1. Gostei bastante da postagem, num dos meus grupos a linha “nome” geralmente é a última a ser preenchida e insistimos que é a mais difícil. haha

    Tem até um dicionário de nomes que usamos às vezes. Mas eu mesmo não implico tanto com o nome que meus jogadores escolhem, só quando criam vários personagens com o mesmo nome.

    Chan Ti Li e afins eu acho válido em one-shots mais despreocupadas e cômicas. Até em jogos como Paranóia e Toon escolher um nome divertido faz diferença (o 100-N0554UM no Complexo Alpha é um dos meus favoritos).

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  2. Ah! Lembrei também de uma outra coisa.
    Dois dos MMORPG's que eu mais gosto (Wizard101 e Pirate101) são livres para todas as idades e possuem um rigoroso sistema de chat para impedir os jogadores de dizerem palavrões e asneiras. E também para deixar todos os jogadores mais no clima, não há opção de digitar seu nome, mas existem três tabelas com várias opções que permitem fazer algumas combinações interessantes. Já trombei com alguns “Luke SkyWalker” no game, mas de resto há vários bem criativos. Não é difícil montar uma tabela no excel que gere nomes aleatórios usando opções assim.
    Para quem se interessar, é possível criar um personagem sem entrar ou instalar o jogo: https://www.wizard101.com/wizardCreator/BuildWizardCreator?siteId=8ad6a40421866c50012188e0c72b0075

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  3. Não costumo ser rígido com nomes, mas exijo o mínimo de coerência. O personagem não vai se chamar Kaoru, Takero, Aoki ou qualquer nome oriental numa campanha de fantasi medieval ocidental.

    Quando dou nome a um NPC procuro alterar alguns nomes comuns (como no exemplo do sr. Martin) ou uso alguma característica em outro idioma, as vezes os dois, como por exemplo um mateiro chamado Hurty “econtra trilha”. Para localidades eu gosto de usar nomes em pt mesmo, como Colina Escarpada, Mata Velha, Estrada do Comércio…

    Mas sem dúvidas o nome é muito importante como você ressaltou, abraços!

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  4. Eu uso o google translate pra gerar nomes.

    Se quero um nome élfico digito algo como “guardião das florestas” e traduzo pro finlandês (que na minha cabeça é quase élfico) e sai: “Valvojana Metsien” inverto a ordem pra gerar algo menos afeminado e ficaria com “Metsien Valvojana”

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  5. Rapaz, sabe que eu não sabia?

    O Paolini (Eragon) usa o norueguês medieval pra o idioma antigo dele, que anões, dragões e elfos usam. Pode ser uma boa alternativa! Outro idioma bom pra simular nomes fantásticos é o gaélico :D

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  6. Bem legal… Últimamente tenho feito algo como disseram acima. Pego uma palávra, como Espada, traduzo para um idioma que tenha a ver com a cultura fictícia do jogo, pego a tradução, troco algumas petras, acrescento prefíxos e outras coisas e tenho um nome novo, legal, e com um significado. :)

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  7. O pessoal lá na lista falando sobre Laracna (segundo o Mr.Pop, Shelob é “Ela” em inglês + “Aranha” em inglês arcaico, daí usaram Laracna que é a raiz latina), misturado com o que vocês estão dizendo aqui, está me dando muitas ideias! Até então só costumava pegar sobrenomes em inglês e alterar um pouco, tipo nome de anão indo de “Stoneshield” pra “Stonshild”. Valeu galera!

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  8. Gostei do post , eu geralmente uso que nem o Diogo falou ai acima, pego nome de algo e traduzo para outra língua e vou juntando.
    Eu também uso um método meio insano, eu escrevo uma palavra, e vou fazendo pequenas mudanças nela em linhas abaixo ex: Bruno, Bhumo, Brhumo, Brhoma, Brahma… rsrs é louco mas as vezes funciona.

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  9. Gostei, Dan! muito interessante

    Uma aluna tinha me dito sobre os nomes russos, e achei muito legal.

    o -ova ou -eva seria a “filha de” , como o “-son” do Thor (Thor Odinson). Assim, Ivanova é a filha do Ivan, por exemplo.

    eu gosto muito de pegar uma palavra em outra lingua e mudar um pouco.

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