A Companhia Negra

Como passei meu feriado meio recluso, acabei de ler A Companhia Negra (The Black Company), fantástico livro de Glen Cook. A saga (da qual A Companhia é o primeiro livro) é a maior inspiração do tio Nitro para escrever a Trilogia do Legião, e já que esta anda ficando muito fodástica, eu tinha que ir direto à fonte para ver o que tinha de tão bom. E amigos, vou dizer que é a nata do estilo de fantasia que eu mais gosto, a crua e realista que vivo falando por aqui. A série é dividida em três partes (Books of the North, Books of the South e Books of The Glittering Stone), já completa com 10 livros (e talvez mais coisas, não pesquisei a fundo). No Brasil só temos o primeiro livro, recentemente publicado pela Record, mas ouvi falar que eles já prometeram os próximos.
A obra de Glen Cook é tão boa que até gente badalada como George R. R. Martin gosta. Sua saga começou a ser publicada em 1984 (antes de Game of Thrones, aliás), parte de um movimento que trouxe uma fantasia menos limpinha que a de Tolkien, incluindo Michael Moorcock e seu Elric de Melniboné. Apesar do pessoal implicar com o mote da edição brasileira (Tolkien encontra Bernard Cornwell), nem acho uma frase tão ruim para definir a série. Eu colocaria esses dois escritores como os extremos do gênero, sendo Tolkien a alta fantasia e Cornwell a fantasia histórica e sem elementos sobrenaturais, mas com batalhas e uma narrativa muito legal e dinâmica. Se Martin puxou mais para Cornwell, com mais intriga e fantasia sutil, Cook ficou bem no meio, e você vai ver o porquê nos próximos parágrafos.
A saga conta a história da Companha Negra, a última das companhias mercenárias livres do mundo de Khatovar, muito antiga e com sua história registrada com muito esforço através dos Anais, que nos tempos atuais, ficam por conta do protagonista Chagas (Croaker). Sendo o único médico da decadente companhia, Chagas também é analista, escreve nos Anais e rascunha umas poesias e ficções e ainda se vira na porrada. Outros personagens notáveis na Companhia são o estóico Capitão (que sempre mantém sua pose mas é um cara legal), os feiticeiros cafajestes Duende (Goblin) e Caolho (One Eye), que vivem brigando, e o misterioso Corvo, que entra na companhia no começo do livro e se torna um personagem bastante importante.
Neste primeiro livro, a Companhia é contratada pelo feiticeiro Apanhador de Almas para lutar pelo Império do qual faz parte, ameaçado por rebeldes liderados por um grupo chamado Círculo dos Dezoito. Há muito tempo atrás, os dois feiticeiros mais poderosos do mundo, a Dama e o Dominador, tomaram dez feiticeiros poderosos (que de fato são chamados de Tomados; o Apanhador de Almas é um deles) e tocaram o terror no mundo, sendo derrotados por uma heroína chamada Rosa Branca. Recentemente um mago de pouco poder ressuscitou a Dama, mas esta o impediu de trazer o Dominador de volta e trouxe os Tomados para restituir o Império. Os rebeldes acreditam numa profecia na qual Rosa Branca ressurgirá e novamente derrotará o mal, e nossos “heróis” estão nessa, lutando pelos vilões, para não ir à falência. Ao longo da história você descobre que nem tudo é o que parece, que há mais forças malignas do que o Império, e que no final das contas todo mundo é vilão em um mundo com tons de cinza.
Chagas/Croaker
A história é narrada por Chagas (em primeira pessoa), de modo que nosso ponto de vista é sempre o da Companhia, os caras que caem como moscas na guerra, e não dos figurões. Como todo bando de mercenário, aquele é composto por párias, geralmente canalhas que lutam apenas pelo ouro e/ou sobrevivência – e aquela é a única família que conhecem. Você empatiza com eles e torce pelos vilões sem querer, embora vá percebendo que em uma guerra, todos os lados tomam atitudes questionáveis, e surgem conflitos morais e decisões difíceis, traições e reviravoltas plausíveis. Não tem como não ficar fascinado pela Dama e sua história, ou curioso a respeito dos Tomados. Chagas é um personagem muito legal, contrariando o costume de personagens de narrativa em primeira pessoa serem sem graça. É um homem de idade, meio cansado disso tudo, mas fascinado pela Dama e um romântico de coração bom, apesar de saber onde pisa. Até Corvo, apesar de parecer aquele típico anti-herói misterioso e fodão, com cara de assassino (ele luta com facas, rastreia e fala pouco; é tipo um Drizzt que não quer ser bonzinho), tem motivos críveis para estar ali. Ele tem uma química boa com personagens como Chagas e o Capitão, que se desenvolve de forma bacana.
O fato de Glen Cook narrar com primor a guerra (ele diz que aqueles personagens são inspirados nas pessoas que lutaram ao seu lado), com personagens realistas, estratégias e movimentos bem feitos, deixa tudo ainda melhor. Ao contrário de Westeros, aqui a magia é mais presente e bem poderosa, e ele a aproveita como o recurso que substituiria a tecnologia bélica – de magias que espalham doenças a artilharia mágica e tempestades criadas para atrasar tropas. E ele consegue usá-la sem aloprar nem deixar de ser crível. Tem um feitiço, usado pelo Apanhador em conjunto de Duende e Caolho, para tentar pegar um líder rebelde que é sensacional (mas não vou contar qual é para não dar spoilers). Nada é mais divertido do que a disputa constante de Duende e Caolho, que do nada começam a implicar e jogar monstrinhos mágicos aterradores para se digladiar.
A escrita de Cook pode ser difícil de se acostumar no começo, porque é muito direta e cinematográfica. Também tem o fato de que o tradutor quis ser meio rebuscado no começo, mas depois se ajeita. Basicamente, ele salta entre as cenas importantes com descrições breves de passagem de tempo. Você está numa batalha, aí logo é narrado o fim do combate, os próximos dias, uma viagem e meses de guarda em uma fortaleza. Então um jogo de cartas, uma conversa e mais um salto. O ritmo é constante e frenético, e quando você menos espera, está empolgado com o desenvolvimento da trama e devorando tudo como louco.
A Companhia Negra é mesmo tudo que eu esperava: fantasia brutal, com tons de cinza e sem frescura. Um livro excelente, cheio de ideias boas para narradores como eu (meu grupo já está provando o gosto amargo dessas ideias, hehe) e no mínimo uma literatura boa e diferente do gênero – na minha opinião ela e A Song of Ice and Fire se completam, já que a história de Cook é contada pelos olhos da ralé e ASoIaF vai mais pelo lado da nobreza e realeza (ou ao menos personagens com alguma ligação com ricos). A Green Ronin fez um Campaign Setting para d20 há alguns anos, onde embora o sistema estrague algumas coisas legais (os PVs de d20, por exemplo, não fazem sentido na história), ainda pode ser uma boa leitura complementar, ou só umas figurinhas legais. 
Enfim, recomendo bastante o livro, que ainda por cima é baratinho!

Imagens: Editora Record, Green Ronin, Raymond Swanland

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7 comentários em “A Companhia Negra

  1. Boa resenha Mr Dan!
    Vc curtiu pelos mesmos motivos que eu, aliás eheh.

    Podíamos fazer um abaixo assinado pro tradutor não tentar ser bonitão de novo eim, kkk.

    Abraço!

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  2. Esqueci de colocar ela no pacote de quando fiz umas compras lá em Recife! Que droga! Estava doido para ler essa série justamente por causa do Tio Nitro, faz tempo que ele fala destes livros. Se tudo der certo vou comprar ainda esse ano. Ótima resenha Dan.

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  3. A tristeza é ainda estar no primeiro, eu já comprei, mas ainda não li. No momento quero terminar a série “Caça-Feitiço”, mas já vou começar a ler o quinto dos seis livros publicados no Brasil.

    Também tenho alguns livros aleatórios do Lovecraft pra ler…

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  4. “Recentemente um mago de pouco poder ressuscitou a Dama, mas esta o impediu de trazer o Dominador de volta e trouxe os Tomados para restituir o Império.”

    – Cara, se não me engano, isto foi um puta spoiler. Eu li o livro faz um tempo, foi assim que lançou. Mas acho que isto fica lá pro meio-final do livro.

    “A escrita de Cook pode ser difícil de se acostumar no começo, porque é muito direta e cinematográfica. Também tem o fato de que o tradutor quis ser meio rebuscado no começo, mas depois se ajeita. Basicamente, ele salta entre as cenas importantes com descrições breves de passagem de tempo. Você está numa batalha, aí logo é narrado o fim do combate, os próximos dias, uma viagem e meses de guarda em uma fortaleza. Então um jogo de cartas, uma conversa e mais um salto. O ritmo é constante e frenético, e quando você menos espera, está empolgado com o desenvolvimento da trama e devorando tudo como louco.”

    – Exatamente. E isto pode incomodar legal, mas eu me acostumei rápido. O que senti falta mesmo é que nas mortes, a descrição dele é meio “seca”, se comparada com Martim(ficou difícil evitar a comparação, eu o li entre Tormenta de Espadas e Festim de Corvos, pessoal).

    E não sabia que havia um livro de RPG! Vou caçar!

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