Conto – Reflexos

Este é o último conto sobre Sir Drakkan, vilão redimido de uma campanha que narrei há alguns anos, um personagem que gosto muito. Aqui, ele começa a questionar certas verdades na sua vida. A história dele pode ser melhor entendida neste conto.


Darius Drakkan não conseguia dormir. Era um leito confortável, em um aposento bem aquecido do maior castelo sob seu domínio, com uma aquecedora de camas qualquer ao lado e o melhor vinho que sobrara no reino em guerra. Mesmo assim, o sono não vinha. Viajara sete léguas, por entre abismos e florestas, desafiando senhores que não passavam de garbosos ostentadores de lanças que já viram dias melhores. Nunca se vira tão só.
Nascera da lama e cavara sua própria glória. Sagrado cavaleiro, serviu por anos ao Santo Reino de Bielefeld, sob a balança de Khalmyr, Senhor da Justiça. Mas seu maior tesouro veio do inimigo, na forma de uma druidisa de coração ardente saída de uma terra bárbara. Mas aqueles eram dias desleais, e sua própria fé o destruiu: sua família ardeu na fogueira. Seu próprio senhor salgou suas terras e tentou lhe tomar a vida. Perdeu sua sela e sua espada, seu castelo e sua princesa. Escorraçado como um cão, encontrou a virtude nas mãos de outro reino inimigo, que já fora parte de Bielefeld mas se emancipara à espada. Portian o acolhera como um filho pródigo, lhe alimentara, vestira para a guerra e lhe dera homens para a sua vingança. O escudo talhado de branco e prata com barra e dois leões vermelhos agora era um leão dourado rampante em campo branco e azul.

Vestiu as peles e foi até a sacada, contemplando mais uma vez a combalida cidade na noite gelada, silenciosa exceto por um latido ou cantiga ao longe. Além da muralha, as planícies manchadas cuja neve não havia conseguido ainda devolver a brancura. Muitos perceram naquele cerco sangrento, chafurdando na lama sinistra da guerra, agonizando por semanas em uma tensão infindável. Túneis eram cavados para transpor os muros, combatidos com espadas, balestras e feitiços do inimigo. Flechas voavam por nada, doenças matavam mais rápido que os parcos curandeiros conseguiam trabalhar, os ânimos em frangalhos enquanto o assédio se arrastava. Mas poucos deserdavam, porque viam seu líder inabalável à vanguarda de batalha, muito diferente dos empolados cavaleiros felden. De fato, Drakkan angariava simpatizantes por onde passava, camponeses e senhores menores desejando uma vida mais justa – muitas cidades se renderam sem luta. Bielefeld, cortado ao meio por uma cadeia de montanhas, vira sua porção oriental ser conquistada em um ano. Norm, a cidade que sediava a pomposa Ordem da Luz e onde ironicamente tudo começou, era a única que ainda resistia no leste.
Decidiu caminhar pelos corredores. O frio era um bom companheiro, já que combinava com seu estado de espírito, e o lembrou de uma noite no castelo do conde de Benagore, durante uma nevasca que o surpreendera em campanha. Deixou os cortesãos desconfortáveis ao lotar o salão com seus homens, mercenários contratados para escaramuças de fronteira. Festejava vinho e comida sem se importar com olhares perniciosos e cochichos velados, esquentando o corpo no cadeirão imponente do conde. Seu anfitrião era um homem intimidador, um bastardo que rachara o crânio do pai depois de tomar-lhe as terras com uma tropa de lenhadores e patrulheiros, que achava graça do rebuliço da noite. Subitamente o fogo se apagou e as portas abriram de sopetão. Os homens foram às armas, mas o frio agarrou seus corações com garras cortantes e eles paralisaram com o vislumbre da figura tenebrosa à entrada do salão. Era um homem, mas parecia mais um fantasma enrolado em mantos sinistros, uma mão esturricada segurando um cajado de madeira negra. Darius demorou mas reconheceu aquela face. A conhecia da época que sua espada era jovem e sua prata era efêmera. Era o mago Belchion, um antigo amigo que retornara com o toque da frialdade e uma proposta irrecusável.
Belchion lhe dera quatro mil orcs. Normalmente recusaria aqueles monstros, mas ainda eram guerreiros robustos e dispensáveis, uma ferramenta necessária para sua vingança. Muitos dos seus guerreiros recusaram imediatamente lutar ao lado da escória de pêlo cinzento e presas salientes, inimigos centenários de feldens e portianos, mas o apoio dos mais fieis converteu boa parte dos homens relutantes, que o seguiram, enquanto os outros guarneciam regiões conquistadas. Certo dia Leona, sua primeira filha vinda de um amor mais antigo e impossível, regressou de suas viagens liderando um pequeno bando de mercenário, que jurou servi-lo em sua causa. Mais tarde, Drakkan descobriu que ela tinha um irmão gêmeo, um varão para continuar o legado que ele conquistaria. Conseguiu abrir seus olhos e trazê-lo para junto de si, junto dos seus próprios companheiros de viagem, que acabaram simpatizando com suas motivações. Darius começava a ter esperanças de que a corrupção no poder e nas ordens de cavalaria daquele reino seria expurgada, e as coisas começariam a mudar.
Agora, Norm era o objetivo final. Os cavaleiros khalmyritas da Ordem da Luz se juntaram ao clero e a alguns fidalgos e de alguma forma fugiram da cidade, segundo os rumores. Seus homens encontraram passagens em ruínas subterrâneas, devidamente fechadas com feitiços, para evitar que a cidade fosse invadida pelo mesmo caminho usado pelos gloriosos servos da justiça para abandonar seu povo. A poucos dias de viagem estava Carnagh, um dos reinos bérnios, de bárbaros que resistiam à dominação felden ano após ano. Viúvo de uma druidisa cárnaga, Drakkan era amigo daqueles homens. Tarn, o rei, mandara seus homens e druidas, que retorceram os portões da cidade, secaram os fossos e instaram as próprias árvores para atacar os arqueiros nas ameias. A fúria sobrepujou o medo, e o leão foi hasteado em Norm.
Agachou num pátio e tomou na mão um pouco de terra e neve. Tanta paixão, tanto ardor, tanto desejo de vingar a dor sofrida, tantos que o aclamavam. Tinha ainda coração? Ainda lembrava o propósito de tudo aquilo? Não sabia onde acabava seu desejo genuíno de destruir a maldade naquela terra e começava o ódio vingativo se tornara uma chaga na sua alma. Se perguntou quando as coisas lhe fugiram do controle, com comandantes mesquinhos queimando, massacrando, saqueando e estuprando em seu nome. As alianças separatistas que lhe mendigavam honrarias em um novo regime culminavam em vilões que ele mesmo tinha criado, provavelmente fazendo outros sofrerem o mesmo que ele. A Igreja de Khalmyr entrava em uma cisão bem no meio da sua guerra, com os portianos progressistas indo de encontro à facção ortodoxa de Bielefeld. E ainda haviam os boatos de que demônios e criaturas ainda mais bizarras, saídas de dimensões de pesadelos e infiltrados entre seus homens, para atormentá-lo. Os fantasmas dos mortos, das noites perdidas e do questionamento sobre a valia de tudo aquilo continuavam assombrando aquele homem. Sangue demais nas suas mãos, espesso e podre. Sua alma jamais seria limpa.
Trocaria tudo por um pouco de paz. Sua vontade se esvaía como a terra e a neve por entre seus dedos. Não deixaria o serviço pela metade, mas nunca mais teria a consciência leve. Mal notou quando Belchion se aproximou.
Darius – a voz sepulcral.
– Meu velho amigo – respondeu, sem tirar os olhos do chão.
O que o aflige?
Drakkan deu um breve e amargurado sorriso. Pensou um pouco, e decidiu quebrar o silêncio.
– O que estamos fazendo, Belchion? Até onde chegamos?
Seja mais específico.
– Quanto sangue precisa ser derramado para que a justiça seja feita? Até onde estamos dispostos a ir para destronar Hederick I? Destruir sua família e tantas outras, deixar este reino em ruínas apenas para reconstruí-lo e ainda ter de lutar contra as tentativas de dominação do Velho Abutre?
De fato, o rei Ferren quererá uma boa parcela do butim. Afinal, foi Portian que o acolheu no passado, e ele jamais forneceria os homens que engrossaram nossas fileiras por acaso.
– Pelos deuses, Belchion – sua voz ia de angústia a irritação. – Não é com ele que me preocupo, e sim com o peso da minha espada. Já há muito não sei se estou fazendo o certo, e não sei se a trilha de corpos é justa.
Não seja dramático, Darius. Você está agindo tal qual um garoto na frente de uma mulher. Está envergonhando o homem que você já foi. Já deu o primeiro golpe, e Bielefeld está sangrando. Você é um idiota se está pensando nisso agora.
As palavras de Belchion saíam desprovidas de respeito ou emoções, porém mais severas do que o habitual, e caso não estivesse com crescente resignação, Drakkan se perguntaria se ainda restava algo de seu antigo amigo ali.
– Não sei o que nos tornamos – Os dentes estavam cerrados. – Sequer sei o que você se tornou.
Não cabe a você saber. Vim aqui apenas para encerrar nossa breve e proveitosa parceria. Minhas obras em Kelgroth estão concluídas, e a maioria dos meus orcs voltará para lá. Deixarei uma pequena parcela de subordinados aquartelados naquele buraco onde estão agora. 
Os dois se olharam brevemente. Drakkan estava menos surpreso do que achava que ficaria.
Como você está com a fraqueza da carne, aviso de antemão que não cruze nunca meu caminho. Adeus – e se foi.
A Drakkan coube apenas matar um rei bárbaro de presas enormes dentro da sua fortaleza nas montanhas centrais de Bielefeld, um lugar chamado Kelgroth, e assim convencer os orcs a aceitá-lo como seu general. Assim, Belchion lhe concedeu ajuda mágica, conselhos e estratégias úteis, e acima de tudo o medo necessário para que as criaturas fossem obedientes, enquanto ele mesmo ordenava parte delas a escavar algo entranhado nas montanhas. Não era mais da conta do cavaleiro, pelo visto, e agora ele tinha mais um peso nos ombros – teria sido responsável pelo despertar de algum mal terrível? Logo saberia.
Mas agora não. Agora ele deveria voltar para os aposentos e tentar esquecer-se de tudo por um momento, até que o inverno acabasse e ele pudesse terminar a sua guerra.
Imagem: Viktor Vasnetsov
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