Fantasytelling #07 – A barreira

Antes de mais nada, gostaria de dizer que hoje respeito e admiro profundamente os designers de jogos. É uma tarefa muito ingrata criar um jogo que você acha que será divertido para você e conciliar com os anseios do seu público (ainda que seja somente o seu grupo de jogo e mais alguns heróis que resolveram apoiar sua empreitada). Eu acho extremamente difícil achar bons termos e fazer mecânicas funcionarem como engrenagens, e tudo isso combinar direitinho com a sua proposta de jogo.
Entre os maratonistas existe o termo “bater contra o muro” ou “barreira”, que é quando eles estão mais ou menos no quilômetro 30 da corrida e sentem como se estivessem com uma parede à sua frente. Bem, estou me sentindo mais ou menos desse jeito em relação ao Fantasytelling. Ainda que criar um hack não chegue nem perto da proeza de criar algo do zero, me encontro completamente travado nesse momento. A coisa até que ia bem, mas comecei a questionar o mérito do funcionamento de algumas coisas, regras que eu estava criando para consertar buracos em mecânicas básicas que eu havia alterado (por exemplo, Vantagens para cobrir o fato de não haver uma boa distinção entre certos Atributos e Habilidade, ou ao fato deles estarem muito genéricos), entre outros problemas.

Mas nenhum deles supera o maldito nome da característica de determinação, convicção e fibra dos personagens, que eu não consigo encontrar um que me agrade e que proporcione uma boa imersão no jogo. No Storytelling se chama Força de Vontade, mas como eu criei um Atributo Vontade, estava dando conflito. Chamei de Essência, mas isso conflitava com outra característica do jogo original, que serve como combustível para poderes sobrenaturais. Algumas pessoas me apontaram que esse termo era algo mais mágico, e sugeriram outros. Heroísmo não serve, porque até mesmo cavalos possuem esse atributo (pra você treinar um, por exemplo, precisa obter sucessos iguais à Força de Vontade do animal). Fadiga gera um conflito com a fadiga em si, uma condição que aflige personagens – além de ser inadequado para simbolizar uma qualidade. Determinação, Fibra, Convicção e outros assim não me dão uma boa sonoridade (imagina alguém dizendo que vai gastar um ponto de Determinação). Resistência era minha melhor aposta, por ser mais genérico, mas também entra em conflito com o ato de resistir.
Eu comecei este hack porque adoro o Storytelling, e sempre achei que um jogo de fantasia nesse sistema traria a dramaticidade e verossimilhança que eu queria para os meus jogos (especialmente depois de ler livros de Glen Cook, Bernard Cornwell, George Martin e afins), e porque estava enjoado do D&D. De início eu não pretendia mudar muita coisa – mas por minha própria mania de querer simplificar tudo, acabei transformando o jogo em outra coisa. Nessas horas, tenho que dar o braço a torcer para as pessoas que dizem que muitas house rules estragam um jogo.
Assim, eu vejo quatro saídas possíveis:
• Desisto de tanta alteração e volto para o Storytelling com sutis alterações para settings de fantasia. 9 Atributos, 24 Habilidades (tudo devidamente dividido em Mentais, Físicos e Sociais), Força de Vontade, uma magia mais limitada (retirada do Vampiro, Lobisomem e Second Sight) e as regrinhas que o Mirrors sugere para o que ele chama de World of Dark Fantasy (basicamente apenas alguns apontamentos, nada brusco).
• Deixo o jogo com sete Atributos (Força, Destreza, Vigor, Intelecto/Astúcia, Perseverança/Coragem, Autocontrole/Prontidão/Foco/Percepção), modifico as Habilidades de acordo e volto a ter Força de Vontade.
• Jogo no lixo o conceito de Força de Vontade e considero apenas que os personagens possuem Pontos de Fadiga/Destino/Façanha/Proeza/Heroicos que podem gastar, e para quaisquer valores comparativos de estoicidade, brio, fibra e determinação, eu considero a Vontade ou o dobro dela. Por exemplo, para treinar um cavalo, você precisaria de uma quantidade de sucessos igual ao dobro da Vontade dele, assim como para seduzir uma pessoa você precisa de sucessos igual ao dobro da Vontade do alvo.
• Largo de vez esse sistema e vou tentar outra coisa. O Dragon Age e o Old Dragon andam tão atraentes…
Enquanto não resolvo este infeliz dilema (os amigos poderiam me dar alguns conselhos?), vou só ficando como jogador e mestrando meu jogo de Supernatural e as aventurinhas de Old Dragon. Mas uma coisa é certa: nunca mais volto para o D&D. :P

Sei que isso parece um mimimi para ganhar tapinhas nas costas, mas é apenas um desejo de dar uma satisfação aos poucos broders que acompanham, ao invés de deixar o projeto inacabado para sempre (caso eu decida mesmo parar).

Imagem: Adrian
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14 comentários em “Fantasytelling #07 – A barreira

  1. Respire, pare e pense.

    Já deu altos esporros em você por causa disso. Que tal ocupar a mente com outra parte do FST que você ainda não completou? As magias, o bestiário, etc. Talvez fazendo alguma outra dessas partes te ajude e vc tenha um insight ou algo do tipo.

    Quanto às opções:

    1 – não vai dar certo. Te conheço e essa opção só vai te fazer mais desanimado;

    2 – talvez funcione e se quiser ajuda, eu já me ofereci;

    3 – essa é uma opção interessante e boa pra ser estudada. Vamos conversar mais sobre?

    4 – NEM PENSAR! ¬¬ E lhe expliquei no chat no FB o porque ¬¬

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  2. Um pitaco meu: Não sei se tu já pensou em usar “ambição” como o nome da característica de “determinação, convicção e fibra”. Pesquisei um pouco e acho que ambição poderia cair bem.

    Por exemplo, determinação pode ser tido como “firmeza de propósito, resoluto”; convicção pode ser tido como “qualidade de mostrar que se está convencido de suas crenças”; e fibra pode ser tido como “força de caráter, coragem ou valor”.

    Ambição é “o desejo de fazer ou alcançar algo, tipicamente, através da determinação e trabalho duro”. Então, pode-se dizer que a Ambição é ser firme de propósito (fazer/alcançar algo), através de sua coragem, mostrando que realmente está convencido de suas crenças”. Logo, Ambição = Determinação, Convicção e Fibra (não necessariamente nessa ordem) xP

    Não sei se forcei a barra com isso nem se a sugestão foi, de alguma forma, interessante para ti, mas eu tentei ;P

    E não, não é mimimi, cara. Eu estou um pouco afastado do RPG por vários motivos e um deles passa por não querer voltar a jogar D&D e não encontrar algo que me deixe satisfeito de jogar e que outrem também o queira.

    Vez ou outra apareço para comentar e tudo mais, porém, por enquanto, fico só nessa mesmo.

    Bom, espero ter ajudado e que tu consiga mais ajuda e outras soluções para os outros problemas ^^

    Abraço o/

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  3. Dan, já passei incontáveis vezes por isso, principalmente com meus próprios designs (inclusive, é um dos motivos de ter deixado o Highlights de lado), e sei que o peso de ter que tomar certas escolhas sozinho (mesmo que pensando em agradar o máximo possível de jogadores) é sufocante.

    Este seu projeto está ficando muito bacana, não vale a pena engavetar. Porque você não volta às origens? Pense no que te levou a querer hackear o Storytelling em primeiro lugar – o que você buscava preencher? Talvez isso ajude a recuperar o foco.

    Quanto à sua barreira, já pensou em personalizar essa força de vontade? De certa forma, seria como as Motivações de Mirrors (ou os gatilhos de Unknown Armies, ou as Paixões de Mortal Coil, etc). Digamos que cada personagem comece com 3 estímulos, e que quando estes estímulos estiverem em pauta, o personagem possa usar aquele nível como dados extras (ou ganhar um 9-again?).

    No momento estou bastante envolvido num novo projeto de jogo, justamente por minha insatisfação com o Storytelling. Acho os cenários da White Wolf super bacanas, mas não acho que as regras em si reforcem os temas dos jogos: percebi que se seu jogo é marcante, envolvente, evocativo e dramático, o mérito é do grupo e nçao do sistema. Então, novamente, sei muito bem como se sente! (Aliás, se quiser dar uma olhada nas anotações iniciais, é só avisar).

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  4. Daniel, é primeira vez que posto.

    Aviso que tenho acompanhado a construção do sistema com expectativa. Nâo que realmente conheça os detalhes, apenas acho a iniciativa louvável, pois sua visão do mundo medieval fantástico é bem próximad a minha.

    Eu mesmo já tentei modificar o D&D para deixá-lo mais próximo daquilo que eu queria “ver”: desisti. Não sei se o que irei falar abaixo, servirá como incentivo (ou o contrário), mas gostaria de deixar a seguinte mensagem:

    RPG não é sistema. O sistema é como nós achamos que a realidade devem funcionar. Isso significa que, por mais que você se esforçe, cada narrador fará o que bem achar das regras, pois compreende que a realidade deve funcionar de determinada maneira.

    Sei que você sabe disso. Apenas quis reforçar.

    Meu lema ao narrar atualmente não é mais: “Vamos jogar D&D?” Eu decidi mudar para: “Vocês querem participar de uma boa história?”. Por isso desisti de modificar o D&D; Pouco importa se ha regras infinitas para determinada situação, o que deve prevalecer é o divertimento. No fim, para mim, qualquer sistema serve tão somente para me dar uma noção em como me divertir jogando tal jogo. Mas, me divertir mesmo, só eu vou saber como (seguindo ou não suas orientações).

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  5. Obrigado pelos comentários, pessoal.

    @Bia – o problema é: ajudar com o quê, e como? Eu sou horrível de delegar funções, e nessa fase acredito que a única ajuda realmente útil seria com sugestões.

    @Erick – pra mim cai no mesmo problema de imersão que resistência, infelizmente. =/

    O pior é que Essência é um bom nome para que se presta a qualidade. A definição de dicionário:

    1. A natureza intrínseca e qualidade indispensável de algo, geralmente algo abstrato, que determina o seu caráter.
    2. Uma propriedade ou grupo de propriedades sem os quais algo não existiria ou seria o que é.

    Pena que ficou tão associado a magia pelas pessoas.

    Estava hoje martelando de ficar com os Atributos Força, Destreza, Vigor, Inteligência, Percepção (ou Autocontrole, ou Foco), Convicção e Carisma, pra poder deixar a Força de Vontade (Autocontrole/Foco + Convicção, ou Vigor + Convicção se eu usar Percepção).

    @Serginho – bom, o que eu quero é manter simples e não me estressar. Por isso estou pensando em voltar às origens ou desistir. Mas ainda adoro o Storytelling, nossa crônica de Supernatural é perfeita nele.

    @Anônimo – agradeço pela força. Estou querendo resolver de uma vez por todas esse perrengue com sistema justamente para focar meus esforços em continuar as boas histórias com meu grupo. Mas definitivamente não aguento mais D&D, me dá um faniquito quando eu penso nesse sistema!

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  6. E ae Dan, beleza?
    Bem, tive minha quarta sessão no meu hack do seu hack heheh, o andamento do jogo é impecavel, com momentos muito malucos (explosão do 10 man, jogo muito volatil) e cenas muito heroicas sem tirar aquele medo de tomar um bom golpe e quase ir pro saco, é ótimo ver os jogadores com o brioco na mão a cada combate heheh. A unica treta como sempre é o sistema de magia, mais ta começando a se ajustar (ainda mais depois que você postou o seu para que eu pudesse comparar). Eu realmente não penso em tapar todos os buracos pois gosto da imprevisibilidade e da criação de pequenas regras para momentos inusitados. Traduzindo, estou gostando da coisa, e sinto que meu grupo também.

    Sobre seu momento decisivo, devo ressaltar que todo processo criativo passa por barreiras, sejam elas internas ou externas. Desde brancos até resistencia do público, criticas mal colocadas que te derrubam ou até mesmo aquele momento que você pensa que todo aquele trabalho é simplesmente inútil, que há caminhos mais faceis.

    Sobre a duvida que lhe aflinge: Essencia, Força de vontade, Fadiga, Resistencia, Pontos de Ação, Heroísmo, Pontos Heróicos, Poder, Adrenalina, Surto de Adrenalina ou Exaltação. Todos podem ser usados com o mesmo proposito, e uma breve pesquisa sobre sinonimos pode levar a um termo que lhe agrade. Como meus jogadores vem geralmente de outros jogos, Essencia serve muito bem pra mim, e eu acho até dificil substituila. Alguns desses nomes eu acho que vou usar para nomear habilidades derivadas da essencia, como ataque exaltado, surto de adrenalina etc.

    Bem, escrevi demais, tenho que começar a mandar emails heheh
    abraço

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  7. Olha, meu bem, acho que primeiro você precisa parar de pensar nisso um pouco. Da um tempo para a coisa “sedimentar”. Volte do início lembre o porquê do ST não ser o suficiente para jogos de fantasia medieval – se você esqueceu eu te lembro depois.

    Acho que o FST é excelente, a ideia é excelente. E só são precisos pequenos ajustes. Pense: por que você está desgostoso com a magia? O que incomoda tanto no atributo chave? A nomenclatura é o que menos importa, isso pode surgir de um insigth muito tempo depois, por mim até denominar temporariamente de “treco” é válido.

    Quanto a mudar de sistemas… Bem, pense no esforço e na energia que você dedicou a esse projeto. Agora pense que eu te conheço e daqui a pouco DA terá uma torrente enorme de house rules e você vai começar a ficar desestimulado. Lembre da abstração excessiva que você tanto detesta, nas magias em combate, lembre que é um sistema que emula o jogo de video-game. Reflita sem desespero e agonia.

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  8. Dan,

    Não sei se tu chegou a ver (ou conhece) o NaNoWriMo (National Novel Writing Month). É uma proposta de escrever um romance de 50.000 palavras em um mês. Seu dilema, sua “barreira”, me lembrou bastante a sensação de chegar nas 30.000 palavras e empacar. Isso é extremamente comum e vem, acho, de um certo esgotamento em tentar e tentar achar boas soluções para dilemas.

    Na minha experiência, a melhor coisa a se fazer nesses momentos é deixar o material descansar, pelo menos um pouco. A segunda melhor coisa a fazer você fez: pediu, de certo modo, um brainstorm para tentar achar soluções para seus dilemas.

    Entre as opções que você ofereceu, eu só recomendo enfaticamente que você não desista, indo prum caminho de 'tone-down', nem mude para outro sistema. Não tenho know-how suficiente para sugerir nada melhor, mas os outros comentaristas aqui parecem ter :D

    Boa sorte, manolo!

    – Jam

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  9. Hello Brother!
    Concordo com a @Bia que talvez trabalhar em outra parte do jogo ajude. Funciona pra mim quando empaco em alguma coisa.
    Acho que talvez você esteja pegando pesado demais no “agradar a gregos e troianos”. Pelo texto e comentários você já tem sua solução (essência), mas está dando muita margem a opinião publica (jogadores e afins). Assim como em literatura termos podem ter várias designações em RPG isso também é valido. Siga com o que achar melhor e SE surgir algo melhor altere. É o que faço, eu tive um dilema parecido entre Agilidade e Reflexos no meu jogo. Por enquanto é Reflexos e consigo viver com isso. xD

    Abraço! E não desista! xP

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  10. Opa!!!
    Eu andei meio sumido… Daniel!!!!!!!!!!! não desista!! ta ficando muito bom.
    Eu comprei até os dados, q disse q tinha poucos… Eu só discordo de ti em algumas coisas, mas nada q eu julgue como melhor ou pior. Confesso que não olhei as magias ainda mas eu tava adaptando.
    A galera aqui adorou. Eu estou ensinando RPG para meu irmão, prometi mestrar para ele e os amigos dele,e vou usar o seu sistema de cara!! Vou fazer as aventuras estilo Hero Quest mas usarei o seu sistema.
    Como dizem aqui no Sul… Não te afroxa nego véio!!!!
    Vou ler com calma as novidades e volto a opinar. Abração!

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