O Natal no RPG

Hoje é a véspera de Natal, mas como estou em um pequeno exílio internético (trabalhando no Blood & Honor), trago o post natalino que fiz ano passado e se perdeu nas águas do WordPress. É um post sobre sessões de jogo temáticas, com datas especiais. 
A maioria das séries de TV, desenhos animados e afins costuma ter um episódio especial de Natal, para comemorar as festas. Algumas apenas mostram como os personagens passam o Natal, usando a data como um detalhe de background legal, enquanto outras criam verdadeiras tramas em torno da festa, com o espírito natalino aparecendo (metaforicamente ou não). São muitas as adaptações de A Christmas Carol, usando os famosos espíritos do Natal passado, presente e futuro das formas mais inusitadas. Em jogos como o Mundo das Trevas, uma trama natalina macabra vem fácil à tona, bem como em jogos de fantasia. Temos muitos bons exemplos desse tipo de história (dá uma olhada nessa ótima aventura para Old Dragon, ou o relato dessa sessão natalina de The One Ring), de modo que meu foco aqui é a forma mais passiva da apresentação de festivais no RPG.
Na maior parte dos cenários é fácil estabelecer o Natal e Réveillon, já que são no mínimo parecidos com o nosso planeta (mesmo uma nave espacial nos confins do universo costuma comemorar o fim de ano). Em cenários diferentes, podemos adaptar o sentido da data com facilidade. O Natal é nada mais que uma adaptação cristã de festivais da antiguidade.
A Roma Antiga tinha dois festivais em dezembro: a Saturnália, uma festa alegre de troca de presentes no dia 17 (em homenagem a Saturno), e a festa de Mitra, deus persa da luz, que era respeitado por Diocleciano e inspirou gregos e romanos a adorar Febo e Apollo. Esse dia, chamado de natalis solis invicti (Nascimento do Sol Vitorioso), era solstício de inverno no Hemisfério Norte, o dia mais curto do ano (por volta de 21 de dezembro), cujos dias posteriores seriam mais longos (por isso o nome). Ao longo dos séculos, a Igreja foi adotando o dia 25 de dezembro com o nascimento de Cristo. Com as invasões teutônicas à Gália, Inglaterra e Europa Central, ritos germânicos se mesclaram com costumes celtas e foram adotados por parte dos cristãos, tornando o Natal uma celebração com ceia, chamas e luzes. Na Idade Méia, a Igreja introduziu as canções temáticas. Martinho Lutero, ao ver alguns pinheiros em um céu estrelado, arrancou um galho e levou para casa, onde o decorou para mostrar à família a cena iluminada que havia visto lá fora. Nascia assim a árvore de Natal, com a estrela que guiara os Reis-Magos no topo.
O Papai Noel (Noël é natal em francês) foi inspirado em São Nicolau Taumaturgo, arcebispo de Mitra na Turquia (século IV). Ele costumava ajudar os pobres, levando moedas de ouro em um saco e ofertando na chaminé das casas. Foi declarado santo depois de muitos milagres lhe serem atribuídos. Como também era amigo das crianças, foi transformado em símbolo natalino na Alemanha, de onde ganhou o mundo. Nessa época vestia verde, mas um ilustrador lhe desenhou vermelho na capa de uma revista no final do século XIX, e a Coca-Cola mais tarde transformou para sempre o visual do velhinho ao estampá-lo em suas campanhas publicitárias.
Então, se seu cenário tem deus do sol ou luz, o Natal pode ser uma celebração mitraísta modificada pelos elementos do seu jogo (região, raça, etc.). Como muitos festivais e costumes são adaptações ou misturas de tradições de povos antigos, com características induzidas por uma religião, a passagem do tempo ou diferenças culturais entre os dois povos. Os casamentos de uma região podem ter costumes diferentes ou até mesmo bizarros, dando um tempero inesquecível ao seu jogo.
A maioria dos narradores subestimam a utilidade de cenas que envolvem festivais. Mais uma vez, aprendi com o Tarantino: se for bem feita, até uma cena de café da manhã tem uma boa serventia. Em Cães de Aluguel, serve para conhecermos o jeitão dos protagonistas e o tom do filme. Esse tipo de cena pode ser útil no seu jogo para que os jogadores aprofundem a personalidade e histórico dos seus personagens, falando sobre alguma coisa da terra deles ou de como eles gostavam dessa festa quando eram crianças. Você pode introduzir histórias do seu cenário de campanha ou criar plots de intriga (no meu jogo eu procuro usar isso com parcimônia, para que os jogadores não fiquem achando que toda festa vai ter um assassinato ou conflito :P), introduzir novos personagens na história, ou até mesmo dar uma sensação de mundo vivo aos jogadores, deixando-os mais ligados à história. Em vilarejos, por exemplo, os festivais de colheita são tão importantes que as pessoas levam a vida em torno desses momentos, se preparando bastante (vamos admitir que a gente passa o ano pensando no Natal :P).
Nesses momentos, a narrativa compartilhada se torna altamente útil, especialmente se o narrador encorajar os jogadores a participar da “organização” da festa, pensando no visual de seus personagens, em motivações especiais ligadas ao background para participar, e tudo mais. Jogadores entediados podem ficar felizes com aqueles jogos esportivos típicos de festivais (arremesso, arquearia, justa, combate num tronco em um rio, corrida, etc.) ou sidequests pequenos e fáceis de resolver integrados à festa, como uma caça ao tesouro ou uma bomba no local da festa, que precisa ser encontrada sem gerar pânico nos convivas. Em uma antiga história do tio Patinhas, uma festa em um castelo tinha como maior atração uma caça ao tesouro, onde os personagens acabaram resolvendo um mistério envolvendo o clássico fantasmas da torre. É só ter cuidado para a coisa não estragar a festa, a não ser que isso seja climático e divirta a todos.
Isso tudo entremeado com eventos divertidos que impulsionem a história, como um personagem pedindo uma donzela em casamento ou os personagens convencendo um nobre a enviar suas tropas para ajudar a causa deles, pode deixar esse tipo de cena muito mais interessante.
E vocês, costumam usar feriados assim nos jogos? Feliz Natal!
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2 comentários em “O Natal no RPG

  1. Legal, Dan! Eu gosto de botar essas coisas e outras para mostrar que o mundo tem histórias além da dos jogadores.

    Eu tenho algumas aventuras de Natal programadas, entre elas a do The One Ring e uma de Grimm.

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  2. Muito bom, gosto de inventar feriados para o mundo em que jogo mas nunca consegui aproveita-los devidamente. Só o Halloween. Pensei numa aventura de Natal esse ano mas o grupo preferiu jogar Catan.
    Acho que o mundo de jogo fica mais vivo com elementos desse tipo. Boa postagem!

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