A fantasia dentro da fantasia

Raça jogável ou
descrição exagerada?

Muito tenho ouvido, em minhas estadas nas terras centrais, de um dragão vermelho tirânico que governa um reino no ocidente como se fosse seu enorme covil. Pois digo, sem sombra de dúvidas: tal coisa não existe.

Dragões, por mais inteligentes e ardilosos que sejam, ainda são bestas gananciosas e individualistas demais pra governar seres vivos – a não ser que trate seus súditos como gado de abate, e mesmo assim ele jamais se preocuparia em cuidar deles ao invés de apenas caçá-los.

Imagino por quanto um dragão suportaria a política antes de cozinhar viva a corte com seu bafo de fogo. Dizem que a criatura vê a nação como seu tesouro pessoal, mas é absurdo cogitar que o dragão admitisse não controlar pessoalmente cada moeda de ouro que deita em cima – afinal, não pode ver o reino todo em um virar de pescoço.

O mais provável é que isto seja a alcunha de um tirano de linhagem antiga, talvez um mago. Não é incomum se referir a senhores como animais, especialmente os mais nobres e lendários. Portanto, senhores, até o dia que eu testemunhar estas escamas reais, afirmarei categoricamente que esta não passa de mais uma das exóticas fábulas do leste.

– Extraído do relatório de um famoso Almirante.

Nas várias eras que inspiram a fantasia medieval, o sobrenatural estava muito mais presente. Tudo que as pessoas não conseguiam explicar (e a ignorância era enorme), como acontecimentos bizarros, lugares desconhecidos, mortes ou doenças estranhas e tudo mais, ganhava contornos fantasiosos. A noite era escura e cheia de terrores (mesmo nas cidades), monstros povoavam o imaginário, etc. Baleias eram dignas do Livro dos Monstros, nórdicos eram gigantes, orientais eram feiticeiros, etc. É impossível, por exemplo, separar a Grécia e Escandinávia de suas mitologias (um dos motivos do filme Troia ser uma porcaria).

A fantasia (e o D&D) é a solidificação desses medos e lendas. O mago realmente solta fogo das mãos, a floresta realmente está cheia de monstros, as casas abandonadas realmente contém fantasmas, e por aí vai. E costumamos considerar verídico tudo que é descrito no cenário de campanha (ou o que criamos inspirados), nada de mais. Castelo Falkenstein é o máximo disso: Sherlock Holmes coexiste com seu criador Sir Arthur Conan Doyle e há dragões imperadores no Japão.

O textinho acima surgiu de repente de manhã quando eu pensava no grau de “veracidade” das coisas de um mundo de fantasia. Porque ao ver amigos dar novos contextos a elementos que consideravam toscos dos cenários sem realmente alterar (o que eu sempre fazia), comecei a me questionar que nem sempre as afirmações fantasiosas em mundos de fantasia precisam ser verídicas. Mindfuck, eu sei.

Algumas coisas dentro de um mundo de fantasia podem ser fruto do exagero que um fato ou pessoa ganha quando a história é contada (seja pelas distâncias ou através das gerações). As lendas e a mitologia podem ser parte de uma sociedade, histórias que de tão velhas servem para ensinar crianças e trazer valores, entre outras causas. Fantasias podem ser criadas para desinformar inimigos, ou esconder algo.

Em Game of Thrones, como não há eventos mágicos e dragões há muito tempo, as pessoas passaram a falar que dragões, magia, snarks e gramequins são contos da carochinha (sim, a memória do povo é curta). Ao longo da história, obviamente descobrimos que a coisa não era bem assim. E ainda há o costume de chamar as casas pelos animais do brasão, de modo que você tem os lobos Starks, a lula gigante Greyjoy, os leões Lannister, etc.

No meu cenário o oriente é ainda mais fabuloso que o já fantástico ocidente (digamos que minha fantasia está no meio termo entre alta e baixa). As pessoas falam de tapetes voadores, bolas de cristal, magos ricaços vivendo em torres voadoras, dragões donos de “resorts” para nobres, homens com cabeça de tigre… Algumas coisas os jogadores viram com seus próprios olhos, outras ficam no campo da imaginação.

O interessante nessa abordagem é que você tem os dois mundos, e pode jogar um monte de ideias e descrições fantásticas sem se preocupar em deixar o cenário tosco. Afinal, só precisa decidir o que é verdade na hora que os jogadores vão ter contato com a coisa. Outra benesse é que eles ou NPCs podem nem acreditar em certas histórias (como o general no começo do post; imaginei um minotauro de Tormenta), mesmo que sejam verdade.

Hoje isso é óbvio pra mim (e provavelmente pra você), mas nunca tinha refletido a respeito. Já posso aproveitar tudo em um cenário de campanha (ou alguma loucura que aparecer na cabeça) e considerar que só é verdade se os PJs virem com seus próprios olhos; até então, tudo pode ser contestado. :)

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13 comentários em “A fantasia dentro da fantasia

  1. Eu lembrei agora de um certo halfling que chegou para seus companheiros de viagem dizendo que foi salvo por dois gigantes que trataram de suas feridas em um castelo nas nuvens, e que depois eles o enviaram em uma carruagem flamejante até o solo.

    Eles colocaram a culpa toda na erva halfling… kkkkkkk

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  2. eu gosto de fantasia dentro da fantasia na forma de lendas mesmo. colocar algo muito antigo, de eras remotas, antes mesmo dos primeiros homens…coisas desse tipo. geralmente esta na forma de rumores, como uma espada q pode abrir o chão, ou uma criatura q pode ler sua mente e devora-la (ate poderia ser verdade, mas o “nao ser” é mais interessante, hehe).

    Nomodulo Expedition to the Barrier Peaks, tem uma figura de um Illithid com roupas meio Space Dragon, hehhe. a ideia de que tal criatura na verdade veio do espaço, ao inves de ser mais um mosntro, é fascinante!

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  3. meu grupo atual esta horrorizado com os boatos de q pazuzu pode jorrar seu veneno a quilometros….sendo q ninguem nunca sobreviveu aos ataques dele…como podem pois acreditar nisso!? hahahha

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  4. Pois é, é aquela velha história de o Mestre poder decidir se é verdade ou não só na hora de usar os elementos, ou nesse caso de história antiga, nem precisar. Por mais que o povo fale mal de Tormenta, lá eles frisam bem isso!

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  5. Eu usei isso bastante em Ravenloft mas nunca havia refletido sobre o assunto. Lembro do assombro dos jogadores ao descobrir que o lorde vampiro que dominava uma região na verdade não era um vampiro e sim um assassino louco que sangrava suas vítimas para uma divindade imaginária.

    Agora que comentou, pretendo usar com mais frequência em minhas partidas, de forma consciente.

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  6. Bem legal a postagem Dan, e eu estou para fazer uma neste sentido também. Acredito que só possa existir o fantástico se ele estiver contrastando com o mundano. Se tudo no mundo for mágico, sobrenatural e místico, nada será fantástico, tudo será igual.

    Por incrível que pareça, as coisas na história pareceram ainda mais mágicas e fantasiosas a medida que forem mais raras, e mais difíceis de serem verdade. Se todas as lendas fossem verdadeiras, elas nãos seriam lendas e sim fatos.

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  7. Eu trabalho as coisas assim também em relação às divindades de um mundo. Em Arton mesmo, por exemplo. São VINTE deuses só no panteão, eu não consigo me prender a ideia de que todos os habitantes acreditam ou nem mesmo aceitam esse mundo de divindades.

    Eu acompanho teu blog só pelo RSS, Dan, mas poutz, ele bomba de comentários hein? Vou passar aqui no site mais vezes. ^^

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  8. Ilustre Agá! Pois é, nos meus jogos Khalmyr tem um papel mais católico, com os khalmyritas acreditando que ele é o único deus verdadeiro (Azgher, Lena, Keen e mais um ou dois são deuses mais fracos, e o resto é invenção/crendice). Culturas bárbaras adoram deuses antigos e diferentes, que os khalmyiritas, azgherytas e lenitas dizem ser apenas versões dos deuses “civilizados”, e por aí vai. :)

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