O retcon pode ser seu amigo

Às vezes alguém teve um dia ruim, faltou inspiração na hora do jogo ou outra adversidade. Daí faz-se uma besteira, uma briga desfaz o grupo, o TPK parece próximo, uma dungeon é mal conduzida, as coisas saem do controle. Geralmente dá pra contornar a situação ingame e/ou ela acaba gerando novos plots, e a coisa contribui para a trama. Em alguns casos, contudo, uma cena ou a campanha inteira é arruinada. O clima fica ruim, a história vai empurrada com a barriga e encontra um fim precoce.

Quando isso acontece, uma forma bacana de salvar o dia é o retcon (retroactive continuity). É um termo usado em quadrinhos e outras obras de ficção, onde muda-se coisas pregressas na história para preencher lacunas, consertar problemas, explicar algo melhor e coisas do tipo.

No RPG, a forma mais comum é inserir algo novo na campanha (como uma raça ou facção nova do suplemento que você acabou de comprar) e usar a abordagem de que a coisa sempre existiu no mundo. Eu uso o termo também para “voltar a cena”, ou seja, reconsiderar algo que aconteceu no jogo para melhorá-lo ou apagar algo que não queríamos que acontecesse na história.

Muita gente não curte retcons, achando que é falta de criatividade ou tosquice. Mas vi muitas campanhas que poderiam não ser estragadas se apelassem para esse recurso narrativo, e quando passei a usar as coisas melhoraram substancialmente. Parto do princípio que como estamos criando uma história em conjunto, erros podem ser corrigidos enquanto ela acontece. Se todo mundo estiver de acordo, logo se esquece a cena e a trama segue continuando bacana.

Mas mesmo usando, sei que retcon deve ser o último recurso, levando em consideração a diversão da mesa. Primeiro porque pode não ser necessário: geralmente protagonistas criam sozinhos as tramas ao fazer burradas (boa parte de Sons of Anarchy, por exemplo), e uma leve rixa entre protagonistas pode ser interessante, especialmente se for ideológica. Segundo que pode ficar mais tosco ainda, como na trilogia de Spiderman, onde Sam Raimi fez com que Flint Marko tivesse matado o tio Ben (antes era um vagabundo aleatório).

Por aqui costumamos fazer por alguns motivos. Às vezes a cena fica aquém do que esperávamos, e nos piores casos eu ou um ou mais jogadores pedimos para mudar e todo mundo leva tranquilo. Parece fácil ignorar e seguir em frente, mas além de às vezes a cena gerar desdobramentos desagradáveis, melhor ficar uma memória boa. Algumas brigas e cabeçadas arruinam o clima da mesa e, como eu disse, são resultado de um dia ruim para os jogadores ou o fato deles não terem considerado direito as circunstâncias. Aí conversamos depois e mudamos ao invés de deixar um gosto amargo.

Também usamos o retcon mais comum, geralmente em campanhas antigas quando há trocas de sistema ou mudanças de gerações (nossa cabeça muda com os anos, né?). Não temos problemas em considerar que conceitos (raças, ordens, magia, religiões ou até os próprios PJs) sempre foram da forma que ficaram após a mudança. Além disso, detesto eventos cataclísmicos bizarros para introduzir essas coisas no cenário (oi, Forgotten Realms), porque acho que mudanças levam tempo para acontecer. Exemplos incluem a história dos draconatos da 4E (só a história) aplicada a meus meio-dragões, que passaram a ocupar o papel de império do qual os minotauros do cenário se libertaram.

Em alguns casos nem precisa fazer o retcon, porque o mundo é grande e pode ser que os personagens simplesmente nunca tivessem ouvido falar naquele conceito novo que você vai introduzir. Mas quando isto ficaria tosco (em Harry Potter, apareceu um Torneio Tri-Bruxo nunca antes mencionado, mas que na teoria todo mundo devia conhecer), melhor usar o retcon e os jogadores fingem que sabiam da coisa antes.

É importante pensar na mudança em si, de um simples “isto não aconteceu” até um “sempre houve lobisomens na floresta”. E imprescindível é estar todo mundo de acordo e/ou entrar em um consenso, já que todos são co-criadores da história. Por aqui, é tranquilo mudar desde cenas a aspectos de personagens, relacionamentos falhos ou brigas: o importante é estar todo mundo satisfeito com o jogo.

Por mais que este recurso possa parecer problemático (especialmente em termos de continuidade) ou forçar a barra, quando não tiver jeito recomendo editar a história em prol de um bem maior, que muitas vezes é salvar a campanha. Na pior das hipóteses, é um jeito bem mais honesto de resolver o problema que a clássica “foi tudo um sonho”.

12 comentários em “O retcon pode ser seu amigo

  1. e isso é uma das cosias q faz um bom mestre.

    nao é facil adaptar a historia, ainda mais quando se tem muitos jogadores. como vc disse, se todos colaborarem, dai fica mais facil, e todos acabam ganahdo com isso

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  2. Desembucharei ahaha

    Concordo Dan, com a condição suprema e eterna de que seja melhor pra todo mundo na mesa.

    Aconteceu uma dessas numa mesa, em que o mestre queria railroadar os personagens na base da faca na garganta de uns gangsters do cenário. Meu príncipe anão apelou, mandou a machadada (achando q ia ter chance de fugir) apareceu um mago e matou todo mundo.

    Sugeri um retcon…mas num rolou pq a continuidade era mais importante pro mestre do que a diversão na mesa… fazer o que :/

    Mas o que o personagem faria ficou excelente na situação. Fez como o Gimli faria

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  3. Como você mesmo disse aí em cima, é importante que a mesa esteja de acordo. Normalmente não vejo isso dando problemas, até porque como as coisas devem ser criadas em conjunto, um “eita, mas isso não podia ter sido feito assim!” pode ajudar bastante na própria delimitação do tom da história.

    E cá pra nós, todo mundo tem alguma coisa de que se arrepende fazer… XD

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  4. Um retcon bem feito salva campanhas de entrarem em uma lamaçal de desestímutlo e bizarrice. O grande ponto chave é todo mundo querer brincar juntos, é chato quando tem sempre um com síndrome de “a bola é minha” e não quer contribuir.

    Viva os retcons bem feitos. Espero que o retcon de Arton 1 vá ficar massa, em AD&D ou OD. Aí sim, uma pérola. =)

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  5. O lance do retcon só é bom com duas condições, IMHO:

    1. Todo mundo concorda e abraça a ideia

    2. Não são frequentes.

    Não gosto de retcons e me apego muito a continuidade. Porém já tive que usar essa ferramenta mais de uma vez. Meus jogadores pediam retcon sempre que algo fora do contexto entrava no roleplay (tipo em D&D os personagens falando em shoppings centers), mas eu dava a ideia que eles estavam bebaços e não falaram coisa com coisa :D

    Em suma, concordo com o post do Dan! Mas com uma condição: evitem o retcon se puderem!

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  6. Valeu os comentários, pessoal.

    Realmente tem que ter esses pilares pra se mexer com uma história: todos concordarem, fazer de um jeito que não fique muito forçado, e não ser banalizado. Aliás, tudo que é banalizado perde a graça.

    Rodolfo, que revolta foi essa do DM? hehehe

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  7. No meu caso o Retcon é meu amigo. Eu sempre usei esse recurso mas não tão escancaradamente. Por exemplo, eu nunca gostei de itens mágicos abundantes e magos poderosos andando pelas ruas. Aí aproveitei a campanha do Contra Arsenal e retirei maior parte dos itens mágicos e dos magos em circulação. Foi um retcon com uma boa justificativa. Quanto a fazer isso durante a partida em cenas passadas, já fiz muito isso mas quando vi que ia ser bem pior caso não fizesse. Mesmo sem a aprovação de todos.

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  8. eu ja fiz alguns e foram bem recebidos….

    uma vez deu uma merda grande e eu fui revertendo com a narrativa ate o ponto onde revelei q tudo havia sido uma visao profetica do clerigo sobre o que aconteceria se… eles fizessem isso e isso e aquilo…

    na aventura atual, eu estava mestrando um AD&D quase 3.5 e os personagens ficaram tao poderosos q nem os jogadores sabiam tudo q podia fazer…. este foi o estopim pra minha volta as origens…so q agora com o Old Dragon, ai eu fiz um cataclisma bizarro onde alguma coisa drenou a mana do mundo e enfraqueceu todo mundo…. e outras coisas , mas ta rolando de boa a dois anos quase!!!!!

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  9. Ótimo texto.

    Bem, sempre foi do tipo “fez, fez, voltar é pra bundões”. Acho que se tivesse lido isso antes, teria salvado uma campanha de vampiro o réquiem que estava simplesmente maravilhosa…

    Acabou após um discussão em on, que foi pra off e depois influenciou o grupo.

    Irei pensar nisso quando novas situações acontecerem!

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