Conto – O Rei Acorrentado

Estimados convivas! Agradáveis companheiros de canecas! São bravos em estar numa taverna no fim do mundo em uma gélida e agourenta noite como esta! Sendo assim, vou brindar-lhes com uma boa história, para entreter seus ossos gelados. Seus próprios corações irão julgar se tal narrativa é ou não verdadeira. Pois bem, que a taverneira encha minha taça enquanto dedilho alguns acordes.
Esta é a lenda do amado
e bondoso rei Rorjavik
seus cavaleiros capazes
seus campos vivazes
seu nome adorado
Reza uma lenda antiga de um rei de terras distantes, que viu no inverno cruel seu reino implacavelmente atacado por criaturas míticas das trevas mais profundas. O bondoso Rorjavik pertencia ao milenar clã Bolderon, e era querido e amado por todos os seus súditos. Era um carismático e astuto senhor, grande cavaleiro e lutador, com uma famosa tropa de cavaleiros de grande capacidade. Seus éditos eram justos, suas palavras exultadas e seus campos prósperos. Era uma época de poucos inimigos.
Mas dizem que quanto mais alto é um indivíduo, mais longe vai a sua sombra. E a sibilante traição tocada por ela seria a ruína de tudo.
Ao lado do grande rei, havia uma bela e régia rainha chamada Inara. Suas palavras derretiam os corações dos mais endurecidos guerreiros, e sua visão fazia tropas inteiras quererem lutar por ela. Seu casamento com o monarca era perfeito e apropriado, e conforme fora instruída desde criança, depois de proferidos os votos, o amor viria com o tempo. 
Certo dia, o rei caçava em campos montanhosos repletos de carneiros e alces para nobres e perspicazes caçadores, mas uma outra presa o tomou de chofre: a cintilante forma feminina de uma viçosa jovem de cabelos vermelhos como o fogo, que imediatamente arrebatou seu coração. Rorjavik tinha que ter aquela gazela. Foi ao seu encontro como um sedento no deserto, mas a garota fugiu de seu chamado, galhardia e respeitável presença! Fugia, como uma raposa vermelha dos cães de caça, como o diabo de um servo da luz! O rei a perseguiu por uma curta distância até que ela tropeçou, tombou pela relva, rolou o declive e caiu em um precipício, para desespero de Rorjavik.
Sua alma tomara um sentido e este se fora em um sopetão.
Todas as esperanças arrefeceram dezenas de metros abaixo, quando o rei e sua comitiva encontraram o cadáver. Rorjavik gritou como nunca ao perder sua breve e arrebatadora paixão. Imediatamente mandou todos os homens embora, para ficar sozinho com a sua tragédia.
Inara, porém, havia seguido o rei, desconfiada de suas cada vez mais frequentes evasivas. Ao ver aquele amor imortal, aquele homem em cacos por outra e não por si, ferveu em ódio! O pensamento de que aquele homem amaria qualquer coisa que visse fortuitamente, mas nunca àquela que tinha ao lado todo o tempo, a consumiu como uma enchente. 
“Se este sacrílego não pode ser meu e apenas meu, que não seja de ninguém mais!” Bradou a rainha às pajens, à medida que descobria as escapadelas do fugidio rei. E, em uma noite sem lua ou estrelas, foi à procura de um bruxo nas profundezas de um bosque, chamado Morgsten. Era um profundo conhecedor dos segredos do passado, e também pai da jovem de cabelos de fogo, assassinada pelo descaso daquele que deveria proteger seus súditos. As serpentes comemoraram e os anjos choraram quando aquela dupla conspirou, e na nevasca seguinte, sangue foi derramado e as portas foram abertas.
Esta é a lenda do amado
e bondoso rei Rorjavik
A noite mais negra chegara
e o vento chorara
seu reino arruinado
Foi o cerco mais rápido e macabro de que tive notícia. Em uma noite mais fria do que esta, seres saídos de pesadelos tomaram os campos, varreram as aldeias e se proliferaram nas cidades. Homens e mulheres foram tirados de suas camas ou engolfados pelo caos ululante enquanto bebiam à lareira. Dizem que os gritos foram ouvidos até mesmo em reinos distantes, enquanto as criaturas faziam seus experimentos profanos. Pegos de surpresa, os homens de bem das urzes lutaram, mas não foram páreos para a força dos demônios, e morreram em agonia.
O impávido rei combateu com bravura até o último momento, quando o castelo caiu e as horrendas criaturas laçavam seu corpo com pesadas correntes feitas de aço temperado com ódio e invídia. É dito que Rorjavik fez fronte àqueles que provocaram sua queda – Inara arrependeu-se de seus atos, mas o velho Morgsten fazia questão de lhe rir à desgraça e culpá-lo pela morte de sua filha. Destruído e arruinado, o rei gritou justas palavras de vingança e foi levado ao mais alto torreão de vigília além das montanhas brancas que abraçavam a região. Trancado no último andar da torre, em uma pútrida cela, morreu com os membros agrilhoados com correntes de malevolência, amaldiçoado a ver sua amada terra queimar até que o sol surgisse no horizonte.
De Inara e Morgsten ninguém mais soube, e dos demônios restou apenas a marca negra que transformara o reino em uma chaga perdida.
Esta é a lenda do amado
e ardente rei Rorjavik
Era de vontade forte
nem mesmo na morte
se deixou ser curvado
Do outrora bondoso Rorjavik, sobrava um homem imerso em dor e fúria. Mas sua força de vontade era inabalável, e sua resistência era bravia. O vento tempestuoso cortava e talhava, e o frio era insuportável e tenebroso. Lutou e lutou para se ver livre, mas as correntes espinhosas apenas se cravavam mais em sua carne, ardendo com o terrível frio. No fim, fechou as pálpebras e feneceu. Mas era tão perseverante que, mesmo morto, seu corpo se recusava a definhar, e isto aconteceu muito lentamente. Os tempo passava naquela câmara esquecida, sem conseguir tirar-lhe a carne dos ossos. Uma macabra força ali começava a ser gerada.
Assim, houve um momento onde seus músculos voltaram a se mexer. As correntes que o fustigavam se uniram à sua ressequida pele. O antigo monarca renasceu, nem vivo e nem morto, apenas dor e raiva movendo o seu ser. O rei acorrentado se livrou da prisão e passou a arrastar suas correntes pela torre abandonada, vagando aos tropeços pelos restos calcinados de seu reino, silenciosas colinas tumulares onde uma vez cavalgara em brilhante armadura e grande altivez. Ali ele coletou as cabeças há muito mortas – mas também conservadas, graças ao espírito do rei – de seus cavaleiros, que lhe davam força para continuar. 
E assim os únicos que conheceram sua história foram os poucos pastores que, incrédulos, testemunhavam a visão assustadora ao se aventurar em terras ermas, e sobreviviam para informar que era um antigo rei desmorto. A lenda ganhou contornos mias sólidos recentemente, enquanto um bando de aspirantes a heróis descansava nas ruínas do que fora seu soberbo castelo, agora cheio de porões escuros e malcuidados. Seu sangue se tornou água ao vislumbrar aquela assombração terrível, prestes a dar cabo deles. Cabelos ralos e trapos, decrepitude e a face exposta da morte, com correntes negras e enferrujadas girando como fantasmas crueis. Daquele infortunado grupo, com verdade nas minhas palavras, sobrevivera apenas um, fugido com o rei em seu encalço.
E este pobre diabo está aqui, deixando vocês a par do que está para acontecer. Esta noite, enquanto bebemos e ouvimos, está vindo 
o Rei Acorrentado.
PS.: esta criatura surgiu primeiro na Dragonslayer 07, cujo autor do texto original é MEDC.
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