Conto – Pequenas sombras da guerra

Empoleirados e tremendo no torreão frontal, os poucos vigias do decadente feudo Erathis notaram que a lua já estava quase cheia novamente. A chuva martelava incessante e furiosamente seus morriões, e o som dos trovões já se confundia com o ronco de suas barrigas vazias. Mal tentavam parecer confiantes quando sua jovem senhora passava. Lady Danna era uma bastarda, e após a morte de seu pai – por envenenamento – poucos ficaram ao seu lado quando os homens do Rei vieram reclamar a terra sem herdeiros. Porém, eram muito poucos para defender um cerco, e a dúvida se aquilo tudo valia a pena aumentava à medida que a comida diminuía.

O reino de Artoria estava em paz há anos, mas disputas internas como aquela não eram incomuns. Era uma nação de homens livres, que pelas Leis do Rei escolhiam os nobres aos quais jurar lealdade, mas na prática acabavam confinados às terras onde nasciam. Uma terra perigosa, onde soldados da glória, mercenários e heróis de vilarejos tinham grandes oportunidades. Mas a maioria dos homens que levantavam uma espada, o faziam para defender a sua terra. Aquele lugar pertencera aos Erathis desde que o herói Victor o tomara, com apoio do povo, de um cruel e tirano barão. O novo senhor era muito melhor que o antigo, e fora amado. 
Agora, os últimos soldados fiéis vacilavam a cada dia daquele cerco miserável. A Coroa agora não só tomaria as terras, como enforcaria a bastarda insurrecta. Ela sabia que o feudo era seu, e seu espírito indômito e jovial dificilmente a demoveria dali. Mas aqueles homens eram apenas velhos teimosos e cansados.
Era difícil ver as dezenas de tendas dos atacantes através das muralhas, obscurecidas com a fumaça dos braseiros que as aqueciam de dentro graças ao aguaceiro. Perto dali, dois viajantes desistiam de tentar fazer fogo. Suas roupas largas e encharcadas eram envoltas em capas escuras, com chapeus de palha e uma camada fofa de palha envolvendo a cabeça. Um era jovem e robusto, com olhos puxados e ouvidos atentos para ruídos meramente distinguíveis da chuva. O outro era, na verdade, uma bela elfa de cabelos platinados, olhos exóticos e claros como um dia de sol, e feições delicadas. Ela tremia, ele era uma rocha.
– Teremos que nos juntar aos gaijin – disse simplesmente o homem, referindo-se aos soldados acampados nas imediações.
O recruta Liam estava farto da vigília noturna e do estúpido cerco, especialmente naquela tempestade. Para ele, era muito mais fácil quebrar os portões e tirar a bastarda geniosa de seus lençois limpos à força, para que as tropas fossem empregadas em demandas que valessem a pena. Afinal, havia mortes mais honrosas que febre do esgoto e fluxo negro, e tratamentos melhores que covas rasas. Nem se importou muito quando um trapo branco foi atirado aos seus pés, indicando uma oferta de paz. Rapidamente fitou a floresta, onde dois vultos o observavam – seu primeiro instinto foi chamar os outros soldados e declarar um ataque, mas ao invés disso perguntou quem eram aqueles intrusos.

O estranho tamuran Reiko e sua protegida Elora partilhavam o fogo – e apenas o fogo, graças ao racionamento de comida – dos soldados. A elfa dedilhava suavemente sua cítara para passar o tempo, mas eventualmente se condolecia dos soldados doentes e feridos e usava neles seus dons curativos e medicinais, em nome de sua deusa. Tinha receio daqueles humanos, que eram perigosos em qualquer ocasião, mas se o fato de ser uma sacerdotisa – e uma feiticeira – não lhes aquietasse as vontades, o porte de seu estoico protetor reforçaria o argumento.

– Qual é o seu destino? – indagou o oficial Fahn, de alta estatura e vultosa barba, mexendo sua sopa rala de ervilhas.
– Norte.
– Onde, no norte?
– Apenas norte – era um homem de poucas palavras, o tamuran.
– Aedris?
– Isso não lhe diz respeito.
Fahn quase engasgou.
Como é?
– Floresta Radelathen – emendou Elora, sabendo no possível rumo desastroso daquilo. – Ouvimos falar que há… pessoas do meu povo lá. 
Elora demorara a aceitar que havia uma floresta com aquele nome em terras humanas. Significava “corte dourada” no seu idioma milenar. O nome a lembrava do Rei Elfo e sua radelathen, que não aceitaram, há pouco menos de um século atrás, ajuda dos homens contra a horda monstruosa que os expurgara de sua terra natal – a arrogância fora a sua ruína. 
Encontrara Reiko à beira da morte há cinco anos, em um lago próximo à cabana onde vivia com seu pai. O vilarejo onde o rapaz cresceu fora dizimado por monstros armados, e pai e filha se identificaram com aquilo. Segurou o jovem pelo tempo que pôde, tentando acostumá-lo à paz que seus ancestrais tanto valorizavam – afinal, eram povos parecidos e antigos, os elfos e os tamuran. Mas os monstros os encontraram, e seu pai os protegeu como pôde com seus feitiços, afugentando o líder das criaturas. Morreu em seus braços, no entanto – ela, apenas uma aprendiz, não conseguiu lidar com aquilo. Seu último alento foi arrancar de Reiko a promessa de que levaria Elora até sua mãe, justamente naquela floresta onde supostamente haviam elfos instalados.
– Entendo – Fahn sorriu ao rosto amolecedor da elfa, mas lançou um olhar feio para o tamuran. – Há todo tipo de fantasmas naquele lugar, e apenas loucos e moribundos penetram suas sombras.
Alguns homens na tenda fizeram sinais religiosos, enquanto outros saíram para a chuva, praguejando. Um cão lambeu a mão de um enfermo perto dali. Elora apenas ensaiou um sorriso educado para com a ignorância daqueles humanos simples.
– Bem, ouçam vocês dois – disse Fahn, levantando. – Pela manhã o barão Kelderic decidirá o que será feito de vocês. Provavelmente serão liberados para seguir seu caminho, mas o protocolo ordena separarmos simples peregrinos de espiões. 
Os dois viajantes se entreolharam.
– De qualquer forma – continuou -, vocês seriam muito mais úteis aqui. Você me parece ser bom com essa estranha espada curva, pelo que ouvi falar dos tamuran. E você, bela senhora, tem dotes divinos, de modo que não preciso dizer mais nada. Pensem nisso, e tenham uma boa noite.
Reiko limitou-se a fitar a saída do oficial. Aproveitou a trégua da chuva e saiu para a noite.
Fahn retirou a malha ao chegar à sua tenda, e se serviu de cerveja. Era mais esbelto que as barbas e modos sugeriam, marcado com as típicas cicatrizes de um veterano. Alguns minutos depois, com a segunda caneca já cheia, olhou para trás e viu Elora na entrada, coberta por uma capa escura. A elfa notou que ele não era muito bonito.
– Perdida, senhora?
– O senhor já mandou um emissário ao barão? – Elora se recostou numa bancada e abraçou a si mesma, com frio.
– Não, o farei ao cantar do galo. Posso saber o motivo da pergunta?
– Não sairemos daqui, não é?
– Sinceramente? – o rosto do oficial era um esgar. – Como eu disse, vocês serão úteis.
– Há algo que eu possa fazer para que deixemos este lugar pela manhã sem muito alarde? – sussurrou a elfa, pensando no tipo de idiotice que Reiko faria ao saber dos planos do barão para eles.
Fahn bebeu mais um gole da cerveja.
Sempre há.

Reiko podia suportar todo tipo de privações e percalços, mas não se sentia nada à vontade perto da sujeira e indisciplina dos gaijin. A brisa fria e solitária da noite chuvosa era mais amigável, com o som tranquilizador da floresta. Elora deveria estar com ele, mas a garota merecia um catre menos deplorável depois de tanto chão duro e salteadores de estradas. Era uma irmã para ele, e o tamuran lhe devia nada menos que tudo.

Pôs-se a pensar na terra de seus ancestrais. Seus padrinhos dragões pouco fizeram para defender Tamura quando a tempestade rubra viera, preferindo apenas levar os clãs para longe em navios soprados por ventos místicos. Ele não sabia, mas pertencia a uma linhagem dracônica dentro de um clã importante de seu antigo lar. Pensou em como seu pai morrera no ataque à sua aldeia – não antes de lhe dar sua espada mágica e o incumbir de restaurar sua honra – e em como fizera outra promessa a outro pai moribundo, de outro povo expatriado.
Foi quando ouviu um leve chapiscar de lama; escondeu-se atrás de uma árvore e aguardou. Em uma fração de segundo, sua katana estava se chocando com o aço de uma espada bastarda. Seu pai e seu irmão mais velho Seru o haviam ensinado a começar e terminar qualquer combate rapidamente, mas ele logo percebeu que aquele guerreiro não era inferior nem superior a ele – e a luta não deveria acontecer. Guardou a lâmina e ergueu as mãos em sinal de paz. Desconfiado, seu oponente continuou com a lâmina em riste, bufando e suando, mostrando os caninos levemente pontiagudos. Ele percebeu, pelos gemidos de cansaço, que se tratava de uma mulher. 
E percebeu, pelo tabardo rasgado, que aquela era Danna, a jovem senhora do castelo sitiado por seus anfitriões.
– Você pode me deixar passar, ou podemos lutar, porque eu não vou me render – seu olhar brilhava com tanta ferocidade quanto a pedra rubra em um pingente que tinha no pescoço, e a outra engastada na empunhadura da espada. 
Era uma jovem muito bonita e altiva, com cabelos negros e olhos amarelados, busto farto sob uma cota de malha, e pernas bem torneadas. Uma beleza selvagem e nobre de guerreira. Alguma coisa nela o intrigava – ele não sabia, mas ela também era uma draconata, uma descendente de dragões, assim como seu pai Victor.
– Deve haver um bom motivo para abandonar seus homens.
Danna

– E há! Eles estão se rendendo, e os cães do rei querem a mim, então eles vão ficar bem. Dá pra sair da frente?

Reiko simplesmente deu um passo de lado e fez uma mesura. A moça saiu correndo, a velha camisa de malha chacoalhando. Mais à frente, um relinchar e um galope afastando um cavalo roubado, enquanto a chuva voltava a castigar os homens.
Pensou em como a vida é curiosa, e voltou para a tenda. Viu Elora ressonando em um canto, armou sua esteira e sentou com a espada à frente, para descansar. Quanto mais olhava o fogo, mais sentia algo familiar naquela mulher. Talvez um dia, caso eles se encontrassem de novo, descobriria o quê.
Este é um conto e ao mesmo tempo um trecho do prelúdio de três personagens, sendo Danna da minha campanha Dragões da Guerra (que infelizmente acabou por conflitos de interesses dos jogadores) e Reiko e Elora da nossa mais longa campanha de fantasia, que estamos prestes a dar um reboot neste ano. A história de Danna pode ser lida aqui, e breve criarei um site para hospedar os prelúdios dessa nova campanha (que ainda não demos um nome formal, sempre chamamos pelo singelo nome de Arton 1 [sim, tinha uma Arton 2 :P]).

Imagens: Thomas Kempkes, Dan Ramos, Martin Faragasso, montagem de Dan Ramos com Gina Carano (divulgação)
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