Minha visão sobre itens mágicos

Olá, companheiros! Voltando após um sumicinho. Faz tempo que postergo esse post, mas veio um insight e cá estamos.

Dia desses um jogador estava fazendo uma ficha de Old Dragon de 8º nível e não achou preços de itens mágicos (e não tem mesmo). A pergunta foi inocente, porque ele tinha um bocado de ouro sobrando. Mesmo assim, reflete o pensamento de “mercado de itens mágicos” que D&D tornou comum nas mesas de jogo.

A abordagem do OD (que eu adoro) é de que itens mágicos costumam ser tão raros que não existem mercado para eles. Mesmo assim, na página 48 do módulo básico, chega a ter uma indicação geral de preço para eles. Como todos lidam com “círculo da magia”, assume-se que apenas itens que funcionam claramente como feitiços (alguns anéis, poções, pergaminhos, etc) podem ser comprados, e apenas em casos especiais. Ou seja, nada de “lojinhas mágicas”.

Ok, os jogos precificam mais para dar uma ideia do nível de poder deles e para personagens criados em níveis além do 1º, mas os “kits básicos +x” do D&D banalizaram a coisa toda e assim criou-se a ideia de que eles são itens quase comuns, à venda no mercado.

E aí temos o Efeito Banco Imobiliário: consiga um tesouro, venda o que não serve e faça upgrade no seu set de equipamentos. É válido, mas eu – pessoalmente – não gosto. Prefiro itens mágicos especiais, com história e personalidade, que mudam de mãos por motivos diferentes.

Magos gastam recursos, tempo, suor, compontentes raros e feitiços/receitas antigas para construir itens mágicos (e isso geralmente aconteceu há eras na campanha), dando a eles status de relíquias de arte. Os artesãos capricharam no visual e ou utilidade de cada item para ser único, ou ele foi criado por um evento épico, raro ou catastrófico (como a lança de longinus, ou o graal).

Então, nenhum item mágico é criado ou tratado levianamente. Um artefato feito para um rei, dado por um deus a um herói semideus, surgido num lago misterioso, forjado por fadas (ou anões), criado como símbolo de poder… Itens passam de mão em mão, são tomados, esquecidos, viram parte de tesouros, etc.

Some raridade, beleza e poder e você tem algo raro, único e especial (ou sagrado) para algum grupo, fé ou mesmo para todos, que pode ser perigoso se cair em mãos erradas. Portanto, se fossem vendidos, seriam sempre caríssimos. Negociados, ou valendo outros tipos de bens (terras, títulos, ou até mesmo um reino inteiro), ou até mesmo dados como presentes (aquilo de elfos presentearem os dignos com brinquedos de mithril e tal).

Governos procuram manter o controle das coisas e ganhar onde podem, e por isso todo produto e serviço legal é taxado. Imagine que itens mágicos são como tecnologia militar (sim, mesmo espadas +1). A magia permitem a seu usuário “quebrar as regras” da vida (por exemplo, em A Maldição do Anel a rainha Brunhild é famosa por sua força, secretamente vinda de seu cinturão mágico). Isso desequilibra tudo, criando pessoas imprevisíveis – e, portanto, difíceis de controlar.

Dito tudo isto, imagine o perigo de ter algo assim na sua loja! Um mercador atrairia muita atenção indesejada (e má intencionada) ao anunciar quinquilharias mágicas em sua loja (ainda que fosse mentira). Um item mágico dado de presente de um rei para outro seria transportado com um esquema incrível de proteção. Para conseguir itens mágicos pagando, só com alta patente e/ou autorização expressa do governo, e assim vai.

Nesse cenário, o mercado negro seria a opção lógica para o comércio de itens mágicos, somados a venenos, escravos, maldições, etc. Para conseguir ouro pelas tranqueiras brilhantes do tesouro do dragão, heróis precisariam suar e tomar decisões moralmente duvidosas, além de se meter em um monte de encrenca (e como sabemos, encrenca é igual a aventura!). E dá-lhe itens mágicos falsificados – coisa muito comum no nosso mundo, aliás, de talismãs a águas milagrosas e gato por lebre (ossos de santos, penas de fênix, etc).

Esse tipo de coisa gera plots pra caramba. Por exemplo, no jogo solo urbano da minha esposa Elisa, há uma ordem na cidade dedicada a fiscalizar magos e bugigangas mágicas. Certa vez um investigador foi morto e a personagem suspeitou de um ferreiro que tivera seus braceletes mágicos confiscados. Noutro plot, uma adaga amaldiçoada fazia as pessoas matarem, e ela precisou rastrear o histórico de vendas do item no mercado negro.

Enfim, essa é a minha visão. Por aqui ponho algumas em prática e o resultado é a valorização de itens mágicos (que são bem raros) e aventuras mais divertidas e contextualizadas. Na sua mesa, como é?

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13 comentários em “Minha visão sobre itens mágicos

  1. Muito legal! A ideia é bem essa mesmo, sair da lógica RPG online para algo mais dinâmico e próximo do real. Sem forçar a barra também, pois o que tenho visto ultimamente são mestres na pegada “Old School” ficarem bem tiranos com relação a coisas bobas…

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  2. Muito interessante, Dan! Tb creio pensar desta forma. Nao gosto de “loja de item magico”, nem da banalização dos mesmos.

    Contudo, entendo o lado dos jogadores no que diz respeito a itens “inuteis” (tipo, dar uma flecha +1 para um grupo em q ninguem usa arco). por isso , prefiro escolher itens q tenham a ver com o grupo, e mesmo assim, é dificil.

    meu grupo de 9 nivel tem uma arma +1, ou armadura +1. basicamente isso. por costume, torno dificil o acesso a itens magicos.

    tb, ja usaram um iten “inutil” (uma vez q mestrei algo pronto) como negociação com um capitão de um exercito mercenario. foi bem interessante

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  3. Exatamente minha visão também. E aliás, quem teria dinheiro para um mercado de itens mágicos? Existem tantas pessoas ricas assim no mundo? Existe produção em massa desses itens? Quem são os pobres magos, chineses, explorados para fazer esse mercado?

    Se houver “comercialização” desses artefatos, acho que seriam caso a caso. Dependendo de interesse específico das partes, e bem raros.

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  4. Grande Dan, ótimo post.
    De um modo geral concordo com você. Na minha cabeça esse tipo de decisão tem que ser por conta da ficção do jogo e não do sistema. Mas esse tipo de coisa pega mesmo em um jogo onde pilhar tesouros é ponto central, né?
    Como não jogo D&D, isso nunca foi um problema pra mim. Já narrei jogo com escassez de item mágico, com abundância, dependendo unicamente do cenário do jogo e da expectativa do grupo.
    Num jogo de fantasia medieval onde a história foca em outra coisa, itens mágicos inúteis nem devem vir à tona.

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  5. Opa Fagner, valeu.

    Sobre o foco do jogo, eu acho que existe muito mais tesouros possíveis do que itens mágicos. Além das moedas, existem gemas, tapeçarias, colares, aneis, braceletes, itens obra-prima… Tudo isso tem muito valor e pode muito bem colorir os tesouros, deixando itens mágicos mais raros e valorosos.

    E mesmo assim, uma tocha que nunca apaga ainda é um item muito mais interessante do que uma simples espada +1. Hoje em dia, meu conceito de item mágico é o seguinte: a espada é de qualidade excepcional (dá +1) e tem um poder que é mágico (pega fogo, brilha com inimigos próximos, etc.), de modo que não tenho mais personagens – incluindo monstros – com 'kits de árvore de natal' – espada +1, armadura +1, anel +1, manto +1 e bota +1.

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  6. Então Beltra, como eu encaro a coisa menos como “dou itens mágicos aos PJs” e mais como “itens mágicos existem e por acaso raramente os PJs encontram um”, os jogadores costumam dar valor a qualquer coisa. E como eu disse ali embaixo, nunca uso itens +1, sempre tem alguma coisa por trás e assim nada fica “eu não uso esse tipo de item, então vai pro fundo do baú”.

    Mas é minha visão particular, depois de anos ficando puto com bugigangas +1 compradas no mercado hahaha

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  7. ah sim, o “dar item” é uma forma de dizer. nada cai do ceu.

    as coisas sao tão raras e dificeis nos meus jogos, q os jogadores dão graças aos deuses por um item +1.

    geralmente descrevo de forma unica, mas nao perco muito tempo criando um super background para o itens. na pratica, essa informação nao costuma ser usada (ate pq nao tenho o habito de campanhas longas, como vc tem).

    “dar itens magicos aos pcs”, como vc disse, me parece uma das piores coisas a se fazer (se entendi o sentido q vc esta dizendo)

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  8. Não, eu quis dizer “dar” no sentido deles convenientemente sempre acharem o que precisam. Mas também é uma opção que eu fiz, deixar os itens muito raros, mas os que são encontrados são sempre mais poderosos que em outras campanhas. Por isso ninguém acha nada inútil, saca?

    Também tem o fato de que, coincidência ou não, ultimamente os itens têm saído de formas inusitadas e por acaso combinaram com os heróis. Aí pode-se dizer que eu “dei aos pjs” mesmo, hahaha. Recentemente em uma campanha antiga, o guerreiro conseguiu sua espada de fogo tirando ela de um capitão pirata. Na Canção Escarlate, o pessoal salvou o reino élfico e os elfos presentearam eles com alguns itens mágicos ou extraordinários: um arco pertencente a um herói do passado que ajuda a guiar as flechas, um bastão que amplia feitiço, cotas de malha élficas, uma espada excepcional… E no meu jogo solo com Elisa, ela ganhou uma adaga-ankh que perfura mortos-vivos incorpóreos e é mais forte contra criaturas das trevas, de um necromante da academia arcana.

    Agora nada supera a 4E, que estimula os jogadores a fazerem 'listas de presentes', com o que eles esperam ganhar no jogo. Isso eu nunca farei!

    Sobre backgrounds de itens, não precisa perder tempo Beltra, em 5 minutos vc pensa numa história legal pra um item. Veja a Luminífera, espada de Azor Ahai em Game of Thrones (a suposta espada de fogo de Stannis): esse herói forjou a mais magnífica espada na Era dos Herois, e sua esposa Nissa Nissa pediu para ele trespassar seu peito com a arma para adquirir o poder de sua alma. Ele o fez, e a espada pegou fogo e virou mágica. Viu? Simples e sensacional.

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  9. eu sei, eu faço tipo:
    ” Uma espada fina, prateada, com detalhes em baixo relevo na bainha, mostrando uma série de eventos estranhos. Ela parece ser do tempo do rei Xinforímpolo II, da epoca da Guerra dos Trolls”.

    pronto, isso me basta.

    o negocio é q sou tão sovina com meus itens magicos, q nao gosto (nao acho errado, apenas acho q devem subir d enivel um pouco ainda) de dar itens com habilidades. nao q isso nao va acontecer, mas ainda nao é a hora para meu grupo (de 9 nivel)

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  10. Concordo com o que foi dito aqui, tanto é que em todas as minhas campanhas ou aventuras todos os itens mágicos eram difíceis de conseguir e aqueles de considerável poder sempre tinham uma história de fundo ( como as armas de Guerra dos Tronos ).

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