Minha experiência com uma campanha solo

Não que interesse a vocês, mas esses dias eu dei uma engavetada nos meus jogos e larguei o infame Fantasytelling, após uma sequência de sessões infelizes. Tretas internas, reclames e má vontade com o sistema, ideais diferentes no jogo, etc.

A novela, porém, teve final feliz. Todo mundo reviu seus conceitos, rolou DR e todo mundo se entendeu porque queria continuar. Mas passei uns meses sem mestrar nada e postando menos no blog, ainda meio desgostoso.

Nesse meio tempo percebi que tentava emular um D&D com bolinhas. Aí larguei o FST (foi mal pessoal :/) e como adoro o Storytelling, tomei uma abordagem próxima do original, adaptando-o a dark fantasy. Com a atualização de regras do God-Machine, fiquei bem mais satisfeito em contar sucessos, e a alegria de narrador voltou.

Assim, para testar esse novo hack, pus duas ideias antigas em práticas: oficializei meu cenário próprio, chamado Drael, e comecei uma campanha solo com minha maior incentivadora, minha esposa Elisa.

A premissa: uma história urbana meio noir em Igros, grande metrópole do cenário e maior porto do reino onde fica, virtualmente uma cidade-estado. Seria meio GTA e Lankhmar, aproveitando a ideia de outra personagem dela.

Surgiu então Malbereth (a imagem do post), uma elfa que quando pequena perdeu os pais na caravana a caminho de Igros, elfos fugidos da queda de sua cidade. Instalada com o avô no gueto élfico local, viu o velho ser escravizado por jogos de azar e drogas, e devendo muito dinheiro a mafiosos. O conselho élfico, com medo de problemas, expulsou os dois, que foram passar fome numa favela.

Logo três soldados da máfia vieram cobrar do avô, mas estava apenas a elfa em casa. Eles a brutalizaram e lhe arrancaram um olho como “pagamento”. Da violência nasceu seu filho Nolan, que ela entregou a um orfanato. O avô, senil, foi viver numa causa de repouso. A moça se escondia e vivia de bicos, traumatizada.

Certo dia, ajudou um homem a escapar de perseguidores, e este se apiedou dela. Kevan, dono da companhia de mercenários Lobos Cinzentos, a acolheu e a fez mortal em subterfúgio e luta com facas. Assim, Malbereth agora era Mal, que todo mundo acha que é homem até conhecer, e é uma das melhores no que faz (e o que faz não é nada bonito ;D).

Nunca tinha narrado um jogo solo e tal. Mas como hoje prefiro grupos menores, é massa poder desenvolver melhor a personagem e o cenário, afinal é só uma pessoa para dar atenção. Testamos as regras novas num ambiente mais controlado e brincamos com vários estilos de narrativa: ação, cinismo noir, fantasia, romance e erotismo, etc.

Como o bucaneiro Rafão já sabe, me inspirei muito na campanha urbana dele em Iron Kingdoms, roubando plots e usando PJs de lá como NPCs aqui e aproveitando muito da cidade que ele detalhou. Reportes são bons por isso, compartilham material que ajuda outros narradores.

Até agora, Mal já salvou amantes de nobres, roubou documentos, intimidou mercadores, ajudou magos, investigou a morte de magos detetives, se meteu com relíquias amaldiçoadas, desbaratou seitas satânicas de ricaços, conseguiu o olho de volta com um sacerdote-mago, começou um romance com seu chefe, entre outras histórias ótimas.

Resumindo, coisas que aprendi até agora com essa campanha solo:

  • O protagonista tem todo o “tempo de tela”, como num livro narrado em primeira pessoa;
  • O tempo passa bem mais rápido e você precisa de muito material preparado ou jogo de cintura de sobra;
  • Você não precisa se preocupar em criar “encontros”, porque o ritmo do jogo é mais livre; sozinhos, alguns adversários já dão um bom combate para Mal, e de vez em quando ela pega um reforço da companhia para resolver trabalhos mais cabulosos;
  • A narrativa compartilhada é uma mão na roda (e pontos de trama ou similares ajudam demais).

Eu já vinha pensando em retomar as campanhas de grupo, e hoje firmamos o compromisso de voltar usando esse meu hack, quando eu tiver algo mais paupável. Com todo mundo brincando direito, acho que tudo vai funcionar melhor e eu voltarei a ser feliz como narrador.

Mas estamos bem empolgados com o jogo solo, que rolamos sempre que temos um tempinho livre. Vida longa a Mal!

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16 comentários em “Minha experiência com uma campanha solo

  1. Boa postage. Tudo na vida em excesso acaba cançando, talvez vocês tenham tido uma espécie de over-game e por isso tenham desanimado/desentendido com o seu sistema (que não conheço, mas adorei a descrição D&D com bolinhas rsrsrs), agora com novo sistema, novo-velho-cenário e uma história nova a coisa pode funcionar novamente, torço para que sim.

    Faltou falar mais do sistema (esperamos nova postagem sobre isso) e faltou reportes das seções (vai rolar?).

    Obrigado por compartilhar.

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  2. Nada como uma narrativa solo (ou com, no máximo, 2 jogadores). É possível abordar aspectos psicológicos muito interessantes e aprofundar bastante a história dos personagens. Minha experiência, ao menos, tem sido muito agradável.

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  3. Faz um guia de como mestrar aventuras solo!!! Eu também ja pensei em rolar uma camapnha com a minha namorada mas tenho muitas duvidas, ate por ela ser um pouco inexperiente. As vezes acabo levanto uma narrativa assim por sobre trilhos… Um guia de como mestrar campanhas solo seria um máximo!!!!

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  4. Muito interessante, legal que essa semana estava pensando justamente nisso. A narração para uma pessoa só, acho que vou considerar isso em minha nova campanha para Tormenta.

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  5. Poxa Hebert, é a primeira vez que dá certo, ainda não tenho gabarito pra criar um guia. Mas acima de tudo, acho que o que faz dar certo é pensar numa dinâmica diferente do jogo de grupo. Assistir umas séries de protagonista único, como Justified, Hell on Wheels, House, Castle e outras também ajuda muito a ter uma ideia de como as coisas funcionam!

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