Bebidas alcoólicas em cenários de fantasia

Já que este blog é um bar, vamos falar de biritas!

Gosto de enriquecer meus cenários com inspirações em culturas reais (a maioria dos grandes autores faz isso) e inserindo detalhes culturais no contexto das histórias. As bebidas alcoólicas são uma parte importante da humanidade, indo de fator cultural a necessidade de saúde (achar água potável na natureza mais difícil que parece, sem falar nos rios podres de cidades), inclusive com deuses dedicados a elas (Baco é o deus do vinho, por exemplo, e Ceres é a deusa da agricultura que abençoa os cereais). Em uma ambientação de fantasia medieval, são detalhes preciosos para fortalecer a identidade das suas culturas.

A ideia do artigo veio do meu jogo solo com Elisa (vide post anterior), porque detalhei uma destilaria de uísque da família de um NPC, vinda de um povo inspirado nos escoceses. Não vou me aprofundar nas particularidades de cada bebida (o que você pode fazer com cinco minutos de pesquisa), apenas compartilhar como costumo transpor as beberagens originais para o âmbito do meu cenário.
Pra começar a cerveja, bebida mais famosa das tavernas. Produzida da fermentação de cereais (malte), é uma das primeiras bebidas alcoólicas do mundo, surgida junto com a agricultura e parte fundamental de muitas culturas antigas, já que era uma fonte de sustento. As mais comuns são de cevada, aveia e trigo, mas qualquer alimento com amido (milho, tubérculos, agave, arroz, etc.) pode ser fermentado para gerar cerveja. É fabricada de forma artesanal em casa – muitas famílias passam a vara (que possui culturas de levedura) de cerveja que dá certo de geração em geração -, mosteiros ou nas próprias tavernas. Isso acontece porque mesmo quando começou-se a adicionar lúpulo, não dá para preservar a cerveja por muito tempo. Muitos adicionam ervas, mel e outros temperos para aromatizá-la. Os ingredientes (incluindo a água) e a forma de fabricação faz com que tenhamos cervejas únicas em cada região do cenário (os nomes devem variar, também). Stouts fortes, escuras (ou ales vermelhas) e viscosas em um reino frio e montanhoso; old ou pale ales, ou malzbiers, com alto teor de pureza em uma região de serras verdejantes; pilsens claras (ou de agave, painço ou sorgo) em uma região de colinas quentes; lagers leves para halflings, e dry beers de arroz em reinos orientais exóticos. Uma curiosidade: como os anões produzem sua famosa cerveja se moram no subterrâneo? Pensei em tubérculos e cereais escuros cultivados nas entradas de suas fortalezas ou em entrepostos comerciais por perto. Podemos até extrapolar um pouco e pensar em cervejas com fermentação de cogumelos, como uma variação da kvas russa. Teríamos então uma cerveja típica anã escura, densa e muito forte (afinal, chá de cogumelos dá barato).
O vinho é mais nobre, fermentado do sumo da uva, maçã ou bagas. Comum em sociedades mais civilizadas (que consideram a cerveja bebida de bárbaros e escravos), com propriedades medicinais (misturado com ervas e minerais como pérolas; o vinho do sonhos de Game of Thrones, por exemplo, induz o sono). Além do tinto, branco e rosé, podemos destacar o nobre fortificado (fermentação interrompida pela adição de aguardente, como no caso do porto ou o xerez), muito apreciado por elfos. Quanto mais velho melhor, de modo que é uma bebida exportável. Nem sempre as uvas precisam ser de clima frio, e algumas espécies (como a Chardonnay) se adaptam a climas quentes. Podemos ter uma região quente e próspera que exporta vinho doce (em Game of Thrones temos o vinho da Árvore, das vinícolas da casa Redwyne); vinho de arroz de terras orientais (saquê) ou pulque do suco do agave (que leva décadas para amadurecer) para regiões quentes ocidentais. A sidra é a fermentação do sumo da maçã, popular em reinos de clima temperado. O conhaque é uma destilação do vinho (ou outro fruto fermentado, como maçã, ameixa, pêssego, cereja, amora ou damasco), muito forte e digestivo de culturas cosmopolitas (mais uma popular dentre elfos). Um destilado poderoso dos nórdicos é a aquavita (água da vida), enriquecido com substâncias aromáticas (alcaravia, funcho, endro, canela, etc.) e destilado a partir de cereais, praticamente álcool puro para vikings machões. O vermute é uma infusão de vinho com absinto e flores ou ervas aromáticas.

O licor é uma bebida doce com frutas, ervas, temperos, flores, sementes, raízes ou cascas de árvores. Pode ser bebido como digestivo ou um destilado chique, e pode ser popular entre elfos e halflings. Também é usado de forma medicinal, inclusive adicionando pepitas de ouro às misturas, consideradas panaceias (remédios para todos os males) associadas a bálsamos e tônicos milagrosos. O hidromel é outra bebida popular (fermentada à base de mel e água e bastante forte) em regiões bárbaras inspirados em celtas, saxões e escandinavos e em reinos mais civilizados. Imagine o famoso hidromel élfico (no meu cenário se chama méren) sendo ainda mais concentrado, com temperos como canela e gengibre e alguma erva especial fantasiosa (mágica ou não, mas fortíssima; pode como o absinto; veja adiante). Esta bebida de fadas seria responsável por desmemoriar ou tirar a noção de tempo de outras raças que a bebessem.
O rum é uma famosa bebida fermentada do melaço e caldo de cana com posterior destilação. É uma bebida antiga de aroma suave e forte teor alcoólico, típica de regiões tropicais; considerada medicamento e um encorajador de marujos, bem popular entre piratas. Podemos criar runs encorpados e escuros de ilhas tropicais, runs aromáticos com arroz vermelho de reinos exóticos ou runs leves e dourados do oeste quente. É uma bebida que pode servir de moeda de troca; no meu cenário, os minotauros escravistas trocavam runs de ilhas tropicais por escravos, mas esta “vil bebida” quase destruiu seus guerreiros e foi considerada ilegal pelas igrejas de deuses antigos.
Entrando no campo dos destilados mais populares, temos o uísque, bebida destilada de grãos (às vezes inclui malte de cevada, trigo, centeio e outros) e envelhecida em barris, onde ganha boa parte de seu sabor dependendo da madeira e qualidade da flambagem (por isso o Bourbon é envelhecido em barris de carvalho). Forte e tradicional, o uísque (“água da vida”) é o orgulho de regiões inspiradas na Escócia, que reverenciam a chuva por suas regiões irrigadas e pantanosas, cheias de turfas essenciais. A água que passa pelas urzes cheias de flores fica perfumada, e a turfa é queimada na secagem do malte, dando um sabor defumado ao uísque. A vodca é incolor e forte, similar ao uísque mas destilado a altas temperaturas (da fermentação de arroz, cevada, milho, trigo, centeio, erva, figos ou batatas), processo que neutraliza os aromas dos cereais. Bebida pura que esquenta reinos gelados e montanhosos; no meu reino inspirado na Rússia, a vodca é um ponto central da cultura. O gim é um destilado de cereais e zimbro (ou amêndoa, lírio e outras), tão forte que é diluído em água destilada. O absinto foi criado como um remédio e é tão forte que tem o apelido de “fada verde”, por seu efeito alucinógeno (popular entre eruditos e magos). Costuma ser proibida em cidades, por ser popular e causar problemas mentais e alcoolismo no povo. É destilado de erva-cidreira, anis verde, funcho e cálamo, e pode ser uma excelente alternativa para o famoso hidromel élfico (veja acima). A tequila é destilada do agave azul, que cresce em solo vulcânico, e pode ou não ser envelhecido para ganhar corpo. Todos estes líquidos compõem o hall de “bebidas de macho” das tavernas – imagine uma beberagem chamada “bafo de dragão” em uma taverna, talvez um gim ou vodca aromatizado com caramelo e com uma destilação poderosa, apenas para os fortes!
Além destas bebidas, podemos criar variações e líquidos inéditos, com a cara de uma região ou cultura exótica. Lembro de uns bárbaros de Forgotten Realms que bebiam um vinho especial preparado por bruxas, para ganhar força e entrar num frenesi. Bebidas que induzem um estado contemplativo ou de êxtase, usadas por oráculos ou magos em rituais doidos (no D&D 3E, a magia de identificar itens usava uma mistura especial de vinho e o mago ficava doidão). O grappa italiano é um destilado de bagaço da uva, aromatizado com arruda, que uso como uma popular bebida os halflings do meu cenário (inspirados nos italianos). Por fim, há a bebida de lyrium e o preparado com ervas e sangue de darkspawn de Dragon Age, biritas que podem matar e/ou dar poderes!
A propósito, uma característica comum a todas as bebidas é que os povos as inserem na sua culinária, então uma boa pedida para o narrador é dar uma olhada em pratos com cerveja, vinho, uísque e outros (ou inventar os seus próprios; imagina um prato de cocatriz ao molho de conhaque!) e compor características ainda mais únicas na narrativa de um jantar com aquele chefe tribal ou no vilarejo onde os personagens pararam para curar seus ferimentos.
Então é isso. Seus cenários possuem bebidas peculiares? Vocês se preocupam com isso ou ficam só na cervejinha da taverna? Contem aí suas experiências!
Imagens: Toru Meow, Dan Ramos (eu :P).
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4 comentários em “Bebidas alcoólicas em cenários de fantasia

  1. Sensacional o post. Dá pra inclusive mestrar uma campanha bem alcóolica, servindo as bebidas “típicas” de cada região que os personagens estão visitando durante a sessão. Só não vale ficar alucinado e dar um TPK de bobeira… rs

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  2. Acho que uma boa bebida faz toda a diferença. Mesmo que o personagem ébrio não lembre de todos os detalhes, é muito divertido jogar as conversas depois. Foi ótimo quando minha personagem tomou um porre com a família do namorado e acordou sendo jogada em uma tina de água gelada. =D

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  3. Em grande parte das campanhas, temos aquela velha disputa na mesa da taverna: Quem bebe mais?.

    Normalmente não passa de um momento de descontração, mas pode muito bem ser um bom inicio de aventura. Será que os personagens conseguem lidar com as consequências de uma bebedeira desenfreada?

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  4. É, no caso as bebidas típicas das regiões colorem bastante a campanha, mas jogar RPG bêbado gera histórias muito malucas, uhahahua

    Nada melhor pra sacanear jogador que 1) Botar sonífero na birita pra sequestrar e 2) Botar lutas quando eles estão biritados, huahauha

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