Minha visão sobre NPCs poderosos

Uma reclamação comum cenários de RPG (Tormenta e Forgotten Realms são campeões) é que eles estão (sic) saturados de NPCs muito poderosos, o que costuma acarretar experiências ruins de jogo ou problemas de expectativa – os PJs nunca vão ser tão poderosos quanto os NPCs épicos, ou o narrador se frustra quando os jogadores ficam apelões demais, etc.

Eu pessoalmente acho que esse tipo de frustração acontece muito mais graças ao uso que o narrador dá a esses NPCs do que ao fato deles existirem. Ou seja, o que importa é o modo como você vê o fato.

Imagine que cada cenário de campanha é um mundo, com milhões de seres vivendo nele, espalhados por todo o território. Vamos chutar que uma dessas ambientações alvo de reclamações tenham vinte a trinta NPCs oficiais que sejam absurdamente poderosos – personagens de nível épico, anciões, semideuses ou algo assim. Agora considere os cinquenta extra que virão em suplementos ou que os narradores criam para as suas próprias campanhas. Adivinha? É muito pouca gente quando você vê a coisa como um todo.

Temos aí umas poucas pessoas no meio de uma população mundial inteira. É como os multimilionários do nosso mundo. Eles dominam tudo, eles fazem uma diferença monstra em comparação ao trabalhador médio, mas não interferem diretamente na sua ou minha vida. Ainda há milhares de pessoas ricas, celebridades, etc etc.

Voltando para a nossa ambientação, para cada Elminster ou Vectorius, há milhares de personagens de nível médio ou alto que ainda deveriam fazer suas coisas sem muita interferência desses super-NPCs.

O grande problema que acabou criando a ideia de que NPCs poderosos em um cenário é algo ruim, é que muitos narradores simplesmente saturam suas campanhas com esses personagens, colocando-os em foco o tempo todo e desprotagonizando os jogadores. Isso cria a má impressão de que os figurões globais vivem salvando a pátria no último momento (chamamos isso, você sabe, de Deus Ex Machina) ou humilhando os PJs.

Mesmo o mundo sendo um lugar tão grande, os jogadores sempre tropeçam num Khelben ou Lorde Soth, simplesmente porque o narrador se empolgou demais. Daí esses NPCs ficam com má fama, os jogadores começam a se revoltar e perguntar porque afinal eles não resolvem todos os problemas do mundo, e os criadores dos cenários resolvem aniquilar todos eles ou criar algo que não os tenha (sempre ouvi muitos elogios a Eberron por não ter essas coisas).

Como vivo falando aqui, gosto de um mundo ativo e consistente, e acho que toda ambientação precisa das suas lendas, dos seus pilares e seus figurões (quase) inalcançáveis. Em campanhas de nível baixo, os NPCs poderosos são parte do cenário, que os PJs sabem que existem e podem almejar superá-los (ou derrotá-los).

Além disso, a vida é injusta e como minhas aventuras são mais gritty e menos épicas, acho válido que existam poderes, organizações e indivíduos que os PJs (e a maioria das pessoas do mundo) simplesmente nunca vão alcançar, seja por um ou outro objetivo. Porém, ao menos no começo, estas figuras entram em contato com os personagens dos jogadores de forma muito rara e sutil, como meras ferramentas de trama. O líder distante da corporação global, o herói aposentado que apadrinha e aconselha, o mago velhote e caduco que mora numa torre isolada.

Ao longo da campanha, os contato com estes NPCs vai aumentando, até que começam a vê-los cara a cara. Mas tudo com muito cuidado, para evitar a desprotagonização – o jogo é sobre os jogadores, ainda que eles não sejam o centro do mundo.

Existe uma miríades de boas razões que podemos usar para esses NPCs interferirem pouco com a vida dos PJs, não tomarem os holofotes deles e ainda continuarem sendo importantes e poderosos. Além disso, também pode explicar a velha questão do porquê deles não resolverem os problemas do mundo.

Primeiro, eles possuem seus próprios problemas para resolver; os jogadores podem pensar que aquele arquimago deveria ajudá-los a salvar o reino, mas ele pode estar ocupado com um plot bem maior.

Segundo, quanto mais importante, mais notório você se torna. Esses NPCs possuem inimigos de nível igual ou maior ao deles, e são como jogadores de xadrez – se você faz uma jogada, outro jogador pode fazer um movimento também, e isso pode ser muito perigoso. Muitas vezes essas elites mundiais se juntam em conselhos (Conselho Branco, por exemplo) e fazem acordos e tréguas muito além da compreensão das pessoas comuns.

Terceiro, muitas vezes eles simplesmente não podem se locomover ou fazer tudo ao mesmo tempo (escrevi algo semelhante num artigo sobre vilões). Mesmo um Superman não é onipresente, por exemplo – e Lex Luthor já usou muito isso.

Exemplos incluem a atuação dos personagens mais poderosos da Terramédia, ou os apuros que passam os grandes magos de Faerun (Elminster já foi banido para o inferno, as Sete Irmãs vivem morrendo e enfrentando Shade e outras coisas, Alaster pirou dentro da megadungeon que construiu, Drizzt vive às voltas com orcs da Espinha do Mundo, etc.).

Por fim, duas franquias que subvertem esse conceito de NPC overpower de forma genial: Dragon Age e Game of Thrones. Há personagens muito poderosos (tanto em termos de exércitos quanto em termos de magias e combate corporal), mas ninguém está a salvo, as fraquezas são bem exploradas e os passos são dados com muito cuidado.

Em uma campanha minha os PJs já estavam poderosos (nível 15 salvo engano), resolvendo problemas enormes que envolviam exércitos, outras dimensões e tudo mais. Só que ainda existiam dragões oprimindo vilinhas, pessoas desaparecendo, duques sendo assassinatos e mortos-vivos assolando castelos. Aventureiros mais fracos chegavam a eles para pedir ajuda, e eles simplesmente se sentiam tão abarrotados que negavam, sentindo na pele como é ser um desses NPCs.

Em outro jogo, um mago muito poderoso apadrinhava os personagens dos jogadores, mas precisava sempre montar vigília em sua torre, para impedir um mal antigo de ser trazido à tona das profundezas das montanhas.

Enfim, quando meus jogadores encontram os famosos do cenário, eles ficam é felizes. :D

12 comentários em “Minha visão sobre NPCs poderosos

  1. Concordo com você Dan! Particularmente, não gosto muito de NPC muito poderosos, por isso sempre usei eles da forma que você sugeriu.

    Uma coisa importante (principalmente em cenários que usam o sistema do OD) é que ninguém chega ao nível 10 (desculpe, mas além disso já é épico pra mim) peitando qualquer ameaça que cruze seu caminho. Como você ressaltou, todos estão sujeitos a alguma desgraça, incluindo a morte, independente de seu poder ele não pode se arriscar ou se expor futilmente. Além é claro, de ter seus próprios problemas, Gandalf mesmo não deixa a comitiva de anões e seu amigo hobbit sozinhos para resolver outras coisas?! :)

    Uma ótima postagem, abraços!

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  2. Leo, creio que quanto maior o nivel dos personagens, mais cautelosos os jogadores ficam, pois todos os perigos são do tipo mortal e perder um personagem de nivel 10 + é tensoOooOOoo!!!!

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  3. acho q é meio como no senhos dos aneis, que as pessoas dizem “ah, mas pq as aguias nao levaram o frodo voando ate mordor?”

    tipo, os npcs poderosos nao estao sentados tomando chá, esperando para alguem flar com eles. e acho q o oposto, dos npcs se intrometerem demais, atrapalha, como vc disse.

    eu costumo usar apenas um ou dois, e eles nem sao “os empregadores” nem “os salva vidas” dos pcs. sao apenas npcs, q interagem por alguma razao, trocam informações com o grupo, e em “off”, deixam um gostinho de “ah, q legal, era o Otto!”

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  4. Não consigo imaginar um cenário sem vários NPCs épicos. Pecando seu exemplo seria um mundo sem um Bill Gates, Steve Jobs, G. Soros, etc. E olha que ainda há os bilionários menos famosos, como os Sheiks árabes.

    Problema é que todo mundo acha que tem q evoluir constantemente até matar um deus e tomar o lugar dele, o que não é, de forma alguma, algo trivial, qualquer que seja o cenário.

    Ainda no seu exemplo de bilionários em nosso mundo, o povo deveria saber que pode acontecer como o Eike Batista, o foco do cara é: “Vou ser o homem mais rico do mundo”, e ele tava numa crescente, ganhando dinheiro pra caramba e experiência, mas algo não foi bem e ele saiu da lista dos 10 mais ricos para estar fira dos 200 mais ricos. E olha que o cara ainda é épico!

    Resumidamente, concordo com você, o problema é que o pessoal banaliza a presença desses caras nas aventuras.

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  5. Muito legal esse artigo. Gostei bastante e concordo com tudo que vc disse. Eu sempre enxerguei os Npc's épicos, de um cenário, como parte deste para servir de modelo ou inspiração para os personagens-jogadores, nunca usei nenhum deles no meu jogo, pois sempre deixei bem claro que os protagonistas são os meu jogadores. Se precisar vou usar como um acessório dramático ou algo parecido. Acho muito legal as histórias oficiais desses personagens, como os de Vampiro(Jan Pierterzoon expl.), Forgottem Realms(Elmister e outros)e de Dragonlance(Tanis), acho inspirador.

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  6. Acho que esse problema está mais relacionado a como o sistema mais famoso de todos os tempos “educou” os jogadores.

    Pense bem: o objetivo do jogo é seu personagem desafiar criaturas/vilões cada vez mais poderosos. O jogo educou o pessoal a uma busca incessante por níveis, o jogo os acostumou a pensar que se há alguém mais forte o dever dos jogadores é superá-lo.

    A mentalidade do grupo basicamente depende de duas coisas: o sistema e o tipo de aventura, mas mais o sistema porque ele dita que tipo de aventura dá para jogar.

    Então, quando você tem um sistema em que os jogadores não são jogados numa busca louca por níveis, geralmente este grupo não vai ter este tipo de problema.

    Pelo menos é assim que vejo.

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