Os maravilhosos vilões de nível zero

Legião, cenário sem frescura
Já que o tempo anda extremamente escasso, resgatei mais um post do limbo do WordPress. Ele foi escrito logo após sair um dos posts de preview do Legião, o tão aguardado cenário de fantasia sombria para Old Dragon. O artigo mostrou a cidade de Wudor, a sede da inquisição onde as pessoas são torturadas e executadas em praça pública. Seu governante, Lorde Vilmort, é um dos principais vilões do cenário, e é um humano de nível 0.
Parece estranho pra alguns, mas quem já usou vilões com pouco ou nenhum poder combativo sabe como é legal. Claro, é muito divertido enfrentar chefões porradeiros no final da aventura ou campanha, mas o vilão “fracote” costuma ser um desafio inusitado e muito bom de usar.

Vilões sem poder combativo pessoal compensam esta deficiência com outra coisa. Geralmente inteligência, poder aquisitivo, mágico ou político (geralmente uma junção dessas coisas). Eles não durariam 15 minutos de porrada com os personagens dos jogadores, de modo que se confiam neste poder alternativo e assim fazem suas maldades, muitas vezes ocultos de alguma forma (já joguei uma campanha que o grande vilão era o nosso mentor bonzinho, nos desviando habilmente do cerne dos seus planos pra que eles dessem certo).

Exemplos incluem os donos de megacorporações, como Lex Luthor e Norman Osborn, dotados de genialidade maligna e uma boa fachada política; Rei Joffrey Baratheon, um verdadeiro capeta em forma de guri; uma epidemia que transforma as pessoas em hospedeiros contagiosos (de apocalipse zumbi aos reavers de Firefly). Filmes como Anjo Mau (antigo, com Macaulay Culkin) e Precisamos Falar Sobre o Kevin mostram garotos com a essência do mal desde o berço, se aproveitando de sua aparente normalidade para fazer suas diabruras.

Cercados de capangas, soldados e guarda-costas, esses vilões podem usar seu dinheiro e influência para contratar mercenários de renome, convocar monstros poderosos e financiar grandes golpes e sabotagens e deixar os jogadores bem ocupados. Os personagens se vêem em um dilema, porque o vilão é virtualmente inacessível para chegar lá e simplesmente dar um fim nele. Ele pode estar fortificado, ter uma fachada respeitável ou apenas ser um mal necessário (de modo que se os PJs o eliminarem, a situação vai ficar ainda pior).

Por exemplo, tirar de cena alguém poderoso e bem colocado na sociedade pode liberar os inimigos que ele mantinha controlados, provocar uma guerra pelo poder e/ou fazer com que seus aliados se tornem inimigos dos PJs. Uma aventura do Marcelo Cassaro para Tormenta é outro exemplo, onde outros heróis mataram o dragão que assolava um vilarejo e o lugar agora passou a sofrer ataques de bandidos e monstros que evitavam a região por conta do monstrão (e os PJs da aventura precisam limpar a bagunça).

Uma outra forma de “vilão fracote” melhor ainda é o que não tem culpa de seus atos, como um nobre possuído por um demônio inteligente (pra quem jogou Dragon Age: Origins, conhece um assim, em Redcliff), uma garota que não consegue controlar seus poderes extremamente absurdos (uma vez li um quadrinho sobre uma menina que matava tudo que tocava, mas não lembro onde), ou, como nos comics Battle Chasers, uma ladra que achou um bracelete com um demônio aprisionado, e este monstro a escravizou. Ela ficava paralisada quando ele se manifestava, e quando o monstro ia embora ela tentava fazer alguém matá-la, mas é tenso matar uma mocinha inocente…

Certa vez criei um garoto pertencente a uma família nobre menor, que em uma aventura infantil por porões velhos achou um anel mágico escondido contendo um gênio poderoso, que ficou submisso ao moleque. Ele, sendo um cretininho, dominou a família, a corte e a cidade, se tornando um ditador extremamente entediado, com sua mente infantil perturbada. Para ele a cidade inteira era um enorme parque de diversões, e a magia do gênio transformou o lugar em um lugar terrível. Foi osso duro para os personagens!

Dessa forma, é necessário quebrar a cabeça para lidar com o problema. Desmascarar o vilão, por exemplo, pode ser muito difícil, especialmente porque ele pode gerar vários contra-planos (dar um jeito de se inocentar, fugir da cadeia, forjar a própria morte, incriminar os PJs antes que eles consigam, etc.). Enquanto eles queimam a mufa, o vilão envia seus lacaios para silenciar esses insetos, e temos ótimas cenas de combate e perseguição. Muitas vezes os PJs acabam agindo mais para frustrar os planos do vilão do que para acabar com ele, e você tem um antagonista recorrente bacana.Chegamos ao fim de mais um post com experiências de um narrador maluco, para ajudar quem nunca pensou nisso. Espero que ainda sirva pra quem ler!

Anúncios

12 comentários em “Os maravilhosos vilões de nível zero

  1. Vilões de nível baixo são muito bons! Creio que para esse plot, uma das melhores coisas é dar poder político ao safado. Por exemplo, o Dr. Doom. Ele é o líder político do seu país, então os Vingadores não podem simplesmente entrar lá e quebrar o cara porque estariam causando um problema internacional. Ele tem poderes místicos também, mas não precisaria. Um vilão com seu próprio país ou reino, já é um prato cheio para uma bela campanha para tirar o safado do poder e depois dar uma lição!
    Ótima postagem Dan!

    Curtir

  2. É, especialmente considerando os superpoderes de vários supers, o Doom acaba sendo um vilão “nível baixo” nesse quesito. Aliás, acho que roteiristas de comics precisam lidar com esse desafio o tempo todo, de como fazer com que os heróis tenham limitações e não consigam resolver tudo e matar todo mundo no cacete. :P

    Tem um filme que não citei, que é o B13, onde o herói invade o “covil” do chefão do crime logo no começo e o leva para a polícia, mas acaba que o vilão sai ileso por uma série de motivos que podem ser incluídos na burocracia e podridão do sistema, e o herói fica de mãos atadas, aí vai arrumar outros jeitos de lidar com ele. Nessa linha, um vilão bacana é o Norman Osborn (depois da época dos clones, quando voltou dos mortos e virou “empresário inocente”).

    Valeu o comentário! :D

    Curtir

  3. Em minha campanha atual os jogadores vão ter como inimigo principal um que conspirou durante a guerra para matar o rei, culpar o conselho, dar um fim na princesa e assumir o trono.

    Ele é nível 0, mas não aquele que está manipulando ele!

    Gostei MUITO do post, valeu Dan!

    Curtir

  4. Vilões de nível zero ainda conseguem compor um duelo moral mais facilmente do que vilões de nível alto, penso. Na maioria das vezes, eles também parecem ter motivações mais trabalhadas, ou uma história mais atraente. :)

    Curtir

  5. Valeu, galera. =)

    Realmente vilões com outras formas de poder que não o pessoal precisam de uma história mais aprofundada. Acho que é o esquema de criatividade com poucos recursos, afinal você tem que queimar muito mais a mufa para pensar nos porquês de um vilão assim do que de um dragão, por exemplo.

    Curtir

  6. O que é massa nos vilões de baixo lvl é que eles não matam os inimigos e pronto, não. Os caras são cruéis, bolam planos mirabolantes, vide vários dele em GOT, e fazem os outros sofrem de verdade. Vilões low lvl são tão, ou até mais, perigosos que vilões bombados, afinal contra um vilão bombado você sabe contra quem está lutando.

    Curtir

  7. eu fiz algo semelhante em uma campanha solo que narrei para uma amiga minha. Ela tinha uma vilã que viva tentando matá-la. No último capitulo ela descobriu que a vilão era na verdade, sua aliada elfa!

    Curtir

  8. A maioria dos vilões que usei em jogo mostraram mais perigos através de suas ambições mesquinhas e influência sobre terceiros do que poder físico propriamente dito.

    É difícil usar espadas e magia quando o verdadeiro inimigo esta longe.

    Até a dúvida, nessas horas, pode ser usada como arma pelo antagonista! Uma vez mestrei Arkanun onde um PdJ mago conquistou um imp como servo. O imp conhecia alguns segredos de seu antigo mentor e o personagem do jogador queria estes segredos… Mas se sentia impotentemente manipulado pela aparente falta de inteligência do imp, que mostrava uns momentos de lucidez que sempre o deixava a um passo dos tais segredos ou de matar o desgraçado que (TALVEZ) estivesse planejando alguma artimanha para traí-lo.

    O próprio jogador me xingou pelo desconforto, foi lindo! Tamanha tensão na história provocada por um simples imp!

    Curtir

Dê um pitaco, não custa nada

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s