Dilemas morais em RPG, uma ótima pedida

Dilemas morais são situações onde nenhuma solução é satisfatória (alguém – ou todo mundo – inevitavelmente vai se dar mal) e que geralmente embaralham nossos conceitos de certo e errado, excelentes desafios para as convicções e ideais de qualquer personagem. Nos meus jogos os personagens sempre precisam arcar com as consequências do que eles fazem, mas depois que comecei a jogar Dragon Age, mesmo sem querer tenho essas situações com mais facilidade.

Imagino que isso não seja algo realmente novo, mas sempre vi dilemas morais serem abordados de forma meio tímidas em RPGs. Aquela situação que sempre acontece onde os jogadores precisam decidir o que fazer com um prisioneiro que fizeram em um combate. Alguns querem matar, outros querem soltar, e tem aquele que quer levar à justiça. Para ser um verdadeiro dilema moral, essa situação precisaria ser levada aos extremos: em um mundo sob apocalipse zumbi como The Walking Dead, com parcos recursos, um humano de fora sempre pode ser um perigo ao grupo, porque pode trair todo mundo, roubar comida e armas, etc. Em histórias mais noir, de nada adianta jogar o bandido na prisão se ele for solto por um figurão da máfia. E assim vai. 
Outras decisões clássicas envolvem salvar muitas vidas em detrimento de poucas – é a velha situação do Duende Verde com a MJ em uma mão e um vagão de trem cheio de gente na outra. Ou aquela ação das autoridades de explodir um prédio para eliminar a ameaça e salvar a cidade (ou destruir a cidade para salvar o mundo, como é o caso do filme dos Avengers). Ou um ente querido dos personagens transformado em um monstro e tentando matá-los, ou transformados em mortos-vivos e jogados contra eles por um mago maligno (nunca é fácil).
Introduzir dilemas morais tensos na sessão a torna mais dramática e densa, e precisa levar em conta uma série de coisa a respeito dos jogadores: eles precisam antes de tudo de maturidade e tranquilidade, porque essas situações podem gerar discordâncias entre eles, já que o dilema só tem graça quando as convicções dos personagens entram em cena. Já tive experiências boas e ruins com o assunto, mas o saldo final é positivo quando o grupo conversa entre si e deixa claro até onde é confortável o conflito dos seus personagens. 
Mas se você parar pra pensar, isso é que é o mais legal: cada um tem suas opiniões a respeito de magia, escravidão, a importância da vida, as leis, etc. Em alguns jogos (como lembrou o Fagner Lima nos comentários) você precisa escolher as crenças e ideais do seu personagem na criação, enquanto em outros você meramente decide o Alinhamento/Tendência. Mas mesmo assim, dá pra se ter uma ideia dessas crenças olhando pelo background e o tipo do personagem: um paladino dificilmente pensaria do mesmo modo de um pirata, que já teria ideias diferentes de uma ex-escrava mercenária.

Se você conhece seu grupo e pensa em situações onde essas coisas são postas a prova, vai colher os frutos de uma cena tensa e dramática. Em Dragon Age, é comum você ter magos (que nos games são mais temidos que o normal, porque a magia está ligada à dimensão de onde vêm os demônios, que podem de fato vir a possuí-los), ladrões/espiões, guerreiros virtuosos e militares xiitas no mesmo grupo, e esses tipos não deixam de provar seus pontos. Toda vez que você se depara com uma cena onde precisa decidir se deixa um mago condenado (pela igreja) viver ou não, por exemplo, vai dividir opiniões no grupo. 

É nessas horas que vemos a profundidade dos personagens; mesmo que seus jogadores não sejam muito de pensar na personalidade e ideais dos seus caras, nessas horas sempre aflora alguma característica nova – eles pensam rapidinho, baseados no histórico deles, e seu jogo enriquece. Recentemente, na minha Canção Escarlate, os jogadores ficaram no meio de uma contenda entre um rei e uma rainha élfica (uma briga de marido e mulher envolvendo muito poder e uma corte milenar, hehe), e quase não conseguiram achar uma boa solução para resolver o problema – acabaram conciliando os dois (eu nem esperava essa), mas chegaram um ponto onde ficaram literalmente no meio do casal disputando uma pedra mística que só eles podiam entregar. Noutra vez, um dos guerreiros do grupo teve que matar um amigo transformado em um homem-peixe, simplesmente porque senão seria morto pelo monstrengo. Nessas horas, até o personagem mais tranquilão e superficial do grupo (o espadachim, que é um cara meio cômico) costuma “botar os sentimentos pra fora”.
Outros exemplos de dilemas morais: 
• Um prisioneiro sabe de uma informação que vai custar a vida de muita gente, como a localização de uma bomba. Torturá-lo ou não? Até onde os personagens iriam com a tortura? O terrorista pode ser realmente resistente e os personagens descobrirem que ele tem entes queridos inocentes que podem ser usados para chantageá-lo, o que piora ainda mais a coisa.
• Os personagens descobrem algo terrível que outra pessoa fez, mas essa pessoa é alguém importante para eles ou para a sociedade (um Rei benevolente que matou a esposa, um outro PJ, o pai de um PJ). O que fazer diante disto? Nenhuma escolha, de denunciar a guardar o esqueleto no armário, vai deixá-los dormir à noite.
• Uma civilização, raça ou outro tipo de povo tem costumes exóticos até demais – os personagens presenciam membros desse povo prestes a fazer algo horrendo, como envenenar todos os primogênitos da região, com as mães aos prantos. Impedir as mortes (talvez até provocando uma guerra) ou não se intrometer nos assuntos alheios?
Assim, mesmo que não sejam extremamente inovadores, esses dilemas mais evidentes e tensos têm me mostrado que há muitas outras formas de desafiar jogadores, além de colocar inimigos poderosos para combater.
Anúncios

14 comentários em “Dilemas morais em RPG, uma ótima pedida

  1. Mas falando sério…

    Primeiramente, ótimo post Dan! o/

    Segundamente, eu particularmente sou, como narrador, um pouco intransigente no quesito (até onde é confortável), por que para mim somos todos adultos e todos devemos ter a noção de que o que acontece em ON fica no ON, levar a coisa a sério para fora dele é um absurdo de infantilidade.

    Visto isso, minhas campanhas (se vc lembra bem) sempre estão cheias de dilemas morais, de brigas internas do grupo e até de traições (adoooro PVPs! =D).

    Num dos grupos de Dragon Age, existiam duas magas no grupo, uma maga rivainni chamada Rasiya e outra maga elfa chamada Ashabur, ambas apóstatas e grey wardens. Elas, como amantes, passaram (e ainda passam) por um dilema moral muito foda.

    Basicamente, o espírito da Fome ofereceu à Rasiya a chave para matar um espírito encarnado que seria imortal sem a ajuda dele, em troca disso Rasiya se tornaria uma Djanni (discipulos da Fome na terra). Rasiya aceitou, e Ashabur consentiu. Porém, Ashabur planejou junto com outras elfas (Lady Arya e Velanna, elfas do grupo) a quando expurgarem o espírito para o Fade, que fizessem isso com Rasiya, numa tentativa de tirar a influência do espírito da Fome. Resultado: Rasiya descobriu, ficou puta de raiva pela “traição” de Ashabur, e foi embora. As duas já tiveram duas discussões tensas de conceitos, pois Rasiya acredita que não precisa ser maligna para servir a Fome e Ashabur acredita que ela deva ser “curada” desse mal. Quase houve um PVP e a cena de discussão das duas foi muito tensa, e por isso, para mim me agradou muito como narrador, sendo mera testemunha do caso.

    Outra vez foi no grupo dos Qunari, que a elfa, que era apóstata mas se disfarçava de curandeira para não ser taxada de Saarebas, foi infectada pelo sangue de Darkspawn e eles precisaram levá-la até os Grey Wardens. Ela se tornou Grey Warden e os Qunari à demandaram de volta. Resultado: Rolou um combate foda entre os grey warden e o esquadrão, com o jogador da elfa do lado dos Grey Warden e o resto do grupo do lado dos Qunari. Foi sensacional!!!

    Eu já falei que gosto de PVP? =D

    Curtir

  2. Mas aí você está falando dos conflitos em si. O dilema moral está nas escolhas, no momento que todo mundo pensa: fudeu, o que a gente vai fazer? No primeiro exemplo, só averia um dilema moral se a elfa tivesse a outra moribunda em suas mãos e precisasse decidir se matava a amada ou a deixava ir mesmo contrariando seus princípios. No outro caso, o dilema esteve (ou estaria) no momento onde eles olharam pra maga infectada e tiveram que decidir se a levavam aos Grey Warden ou se a deixavam morrer por conta do problemão que seria depois.

    Curtir

  3. Muito bom texto Dan. Faz um bom tempo que não jogo mas estou planejando uma mesa do Burning Wheel. Como o jogo prevê que TODOS os personagens estabeleçam suas convicções no começo do jogo e as aventuras vão girar em tornor disso, eu espero um jogo carregado de dilemas morais!
    E dá pra ter isso mesmo em uma mesa menos 'dark' ou realista.

    Curtir

  4. Texto bom por demais da conta!!! huahuahaua
    Daniel, você não tem ideia de como seus post estão me ajudando (e aposto que não só a mim, mas também a muitos outros que pouco comentam aqui na birosca) , pois começei a narrar recentemente, e só tenho a lhe agradecer!! Muito obrigado, e que este antro de conhecimento rpgístico se mantenha por longas eras que ainda estão por vir.
    =D

    Curtir

Dê um pitaco, não custa nada

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s