Minha visão sobre os dragões

Os dragões são os monstros mitológicos e fantásticos mais famosos da humanidade. Segundo o antropologista David E. Jones, estas criaturas foram criadas pelo instinto humano, já que nossos ancestrais primitivos teriam como predadores lagartos, aves de rapina e grandes felinos. Os dragões seriam uma junção subconsciente desses medos, esculpidos através de fósseis de dinossauros encontrados pelos povos antigos. Eles estão presentes em todos os mitos, sendo que os ocidentais são quadrúpedes com grandes asas de couro que sopram fogo, guardam tesouros e são derrotados por heróis, enquanto os orientais são serpentinos e estão ligados à natureza (como cobras trocam de pele e estão associadas às força naturais de renovação por lá, o monstro acaba sendo ligado a deuses e imperadores).

Porém, este não é um post apenas sobre dragões (pra isso, você pode ler livros como o Draconomicon ou posts na net como este, de onde tirei a explicação acima), mas sobre como minha forma de ver e usar estas criaturas nas minhas mesas mudou ao longo dos anos. Como sempre mestrei D&D/AD&D, usava dragões cromáticos, metálicos e suas variantes. Quando os protagonistas entravam em contato com um dragão, seus jogadores já sabiam de que cor ou tipo era e seus poderes. Mas eu naturalmente fui amadurecendo, e desde que larguei o D&D uso outra abordagem para estes formidáveis inimigos. Provavelmente muitos fazem isto desde a invenção do RPG, mas a coisa é meio que novidade pra mim.
Cada mundo de fantasia tem sua abordagem de dragões, como os deuses antigos, altos dragões e arquidemônios de Dragon Age, ou os quilométricos de Dragonlance. Mas a que mais usamos no RPG é a de D&D. Segundo Gary Gygax (traduzido pelo grande sábio Rafael Beltrame), ele começou a “cromatizar” os dragões graças a menções “históricas” desses bichos como serpentes com hálito venenoso, de cor verde. Daí nasceu o dragão verde que espirrava gás venenoso (o gás clorídrico é esverdeado). O jogo de mahjong tem dragões verdes, vermelhos e brancos, e sendo fã do jogo desde criança, o grande mestre inseriu estas cores (e associou neve e frio ao branco). Após pensar um pouco veio o azul, que representava relâmpagos e havia uma magia que cobria este raio elétrico. Sopro ácido parecia outra forma razoável de ataque, e veio o dragão negro. Os matadores de dragões agora teriam que se preocupar com tipos variados de ataques e defesas, e a simples visão poderia ser um enigma – afinal, a cor, armas e vulnerabilidades poderiam ser de qualquer um dos cinco tipos.
A maioria das lendas, livros e filmes retratam os dragões como únicos e bem clássicos, geralmente derivados uns dos outros e/ou de mitos coincidentes, como Fafnir (da Saga Volsung), o dragão de Beowulf, Draco de Coração de Dragão e Smaug (de O Hobbit). Quando larguei o D&D, puto da vida com todas as vacas sagradas do jogo, pensei em largar também os dragões coloridos e usar apenas o tipão clássico. Mas comecei a mudar de ideia quando assisti um dos Harry Potter (não lembro qual), onde vemos tipos de dragões atrelados a locais, como espécies de animais de verdade. Rabo-Córneo Húngaro, Dente-de-Víbora Peruano, Olho-de-Opala, etc. No filme Como Treinar seu Dragão, também temos classificações mais variadas: Fúria da Noite, Pesadelo Monstruoso, Gronkel, etc. E ao contrário dos de HP, o bafo de fogo desses também varia, indo de chama líquida a uma espécie de plasma azul explosivo. Em Game of Thrones, é dito que o fogo dos dragões derrete até pedra. Isso tudo me levou à forma como penso nos dragões hoje em dia nas minhas campanhas.
Eis o que aplico hoje em dia nas minhas mesas. Para a maioria das pessoas do mundo, um dragão é um dragão. É um ser alado, enorme, reptiliano e completamente assustador. Dragões são, no imaginário popular, bestas demoníacas gigantescas, arautos do apocalipse que provocam pesadelos e podem destruir até o chão qualquer lugar onde despejam sua fúria. Então, para elas, pouco importa a espécie ou característica do monstro. Acadêmicos, caçadores e pessoas que já sobreviveram a mais de um encontro com dragões de diferentes tipos, mas o conhecimento de dragões é algo que varia e é imensamente incompleto, uma vez que as únicas formas de estudar estas criaturas são dissecação de seus corpos (meio difícil) ou coletando informações não muito confiáveis de pessoas que dizem ter visto e sobrevivido a elas. Assim, podemos contar com inúmeras lendas, tipos e características, uma verdadeira panaceia de possibilidades.
Eu ainda não compilei nenhuma lista com detalhes de espécimes de dragões (e tempo?), mas meus jogadores compreendem. Mas basicamente todos seguem os padrões em comum: enormes, escamosos, alados e cospem fogo. Alguns ganham nomes por suas características físicas, como por exemplo “rabos-farpados kirevos”, enquanto outros podem ser classificados por seu impacto em uma terra (“terror rubro shantalês”). Todas as baforadas são de fogo, porque eu não gosto muito da ideia de dragão cuspindo gelo ou arrotos venenosos, mas a variação está nas chamas. Alguns cospem como um lança-chamas, fogo líquido azul que derrete estruturas, enquanto outros cospem bolas de fogo amarelo que explodem ao chegar em seu destino (dragão-bazuca, hehe). Mas se tem uma característica que não varia em nenhum aspecto é: eles são poderosos e terríveis. Quando um dragão aparece, os jogadores precisam tremer nas bases.

Outra característica que mudei foi o intelecto dos dragões. Gosto de variar de simples bestas animalescas a inteligentes e antigos vilões. O D&D chega a considerar que algumas espécies são menos inteligentes que outras, mas eu penso em deixar a maioria simplesmente como animais mesmo (em Como Treinar seu Dragão, os dragões parecem ser inspirados em gatos), aproveitando o que eu disse lá em cima sobre lagartos + felinos + aves de rapina. Essa combinação ancestral para mim representa bem o dragão comum, sendo que algumas espécies teriam desenvolvido, sendo milenares, um intelecto humano. Mas algo que nunca gostei e retirei completamente dos meus dragões foi a capacidade de lançar feitiços. Acho os dragões criaturas místicas por si só, e chegarei a dar algumas habilidades parecidas com feitiços quando criar as fichas, mas vai ficar nisso.

Semana passada usei um dragão adulto na minha campanha principal de fantasia (não é a que reporto aqui, é uma mais antiga). Digo, nem era um, tratava-se de um feitiço de metamorfose fortalecido com um sacrifício para que um assecla do mago do mal virasse uma dessas bestas medonhas. O monstrengo fez aquela entrada dramática na vila onde os PJs estavam, incendiando casas, destruindo coisas e dilacerando pessoas (totalmente inspirado naquele post do dragão de 16 PVs do Dungeon World, recomendo a leitura). Era um dragão de escamas de obsidiana, olhos e chamas líquidas azuis com o poder de fogo grego, que não se apaga e ateia chamas a tudo (manja o fogovivo de Game of Thrones? Eu usei aquele efeito). Quando os PJs chegaram, precisaram rebolar para esquivar das baforadas (meus dragões podem baforar à vontade, todo turno, é sangue nos zóio), escapar das terríveis garradas, mordida e rasteiras de cauda. No fim, como eram muitos (os 4 PJs mais uns 10 NPCs, é uma companhia mercenária) e já são bem experientes, venceram a criatura em um combate emocionante (com direito ao espadachim saltar de um telhado na cabeça do bicho e enfiar a espada no olho dele, já varado pela flecha de um NPC arqueiro). Mas tivemos uma boa contagem de mortos, e um PJ quase foi pro saco. Este era um “Terror Noturno” ou “Pesadelo Sombrio”, dependendo da região. Foi a primeira vez que usei uma dessas criaturas desde que mudei para o Storytelling, e a impressão foi passada com sucesso. Pra você ter uma ideia, Atributos de personagens vão de 1 a 5. Esse dragão tinha Força 10. Paradas de ataque vão de 7 a 9, normalmente; esse dragão rolava 18 dados com a garrada. Não dá pra subestimar um bicho desses.
Então pessoal, se me permitem dar uma dica pra quem nunca pensou nisso, pela minha experiência pessoal vale muito a pena mistificar um pouco esse monstro que é tão icônico e divertido de usar. Mesmo pra quem usa os normais de D&D, façam as pessoas terem impressões diferenciadas de cada dragão, confundindo os jogadores a respeito do tipo de dragão que vão enfrentar. Se estão em montanhas glaciais, talvez usar um dragão branco um pouco diferente, ou pensar em uma nova variação baseando-se nas estatísticas de outro desses bichos. Outra boa é dar características únicas derivadas da região do mundo em que o dragão está (como um vermelho serpentino em uma área mais oriental, ou um negro que lembre mais um basilisco e seja nativo do subterrâneo). Enfim, fazer de cada encontro com um dragão uma experiência única.

Imagens: Applibot

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17 comentários em “Minha visão sobre os dragões

  1. São realmente criaturas fascinantes! O engraçado é q jogo (A) D&D, mas o que menos enfretamos sao dungeons e dragões! Contudo, quando nos deparamos com algo assim, geralmente algum pc/npc morre.

    Outro ponto interessante, ao começo, é a ideia de q osmonstros sao representações do medo dos homens. podemos ver como se desenhavam demonios, com figuras ate mesmo engraçadas (sei la, tpo, corpo de ganço e cara de burro), mas é por causa da rferencia que se tinha na epoca.

    Por fim, tb acho q o dragao perde um pouco o encanto hj em dia no D&D e seus parentes quando o poder esta atrelado à cor.

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  2. Pois é Beltra, acho que no começo, quando Gygax criou, devia ser bem inusitado vc ter dragões diferentões e tal. Mas o fato dos mestres sempre usarem aquele dragão daquela cor daquele jeito, acabou banalizando a coisa na minha opinião.

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  3. Eu nunca consegui usar um dragão em sua plenitude e na minha campanha de D&D não combina com dragões usados em sua plenitude. Sempre são controlados por algum outro NPC =(

    Por exemplo, o grupo ainda vai enfrentar um poderosissimo dragão azul, mas ele é uma marionete de sangue de um NPC poderoso, no caso um drow épico mago de sangue.

    Quem sabe em alguma mesa de Dungeon World eu mude de paradigma e faça surgir dragões bem mais temíveis.

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  4. Bem, acho que a visão de dragão ocidental é essa mesmo que o Dan usa. Que é parecida com a de Tolkien. Ou seja, lagartos gigantes cruéis, temíveis, sádicos, inteligentes e que cospem fogo. Não há cores, não há diferentes tipos de bafo.
    Porém quando vamos para outras culturas as coisas mudam, e o Gygax implementou isso no D&D na forma de cores.

    Acho que pouca gente repara no Dragão de Tolkien porque ele só é bem apresentado no Silmarillion e no Hobbit. Talvez com o filme, o povo perceba que o dragão de Game of Thrones é bem semelhante ao da Terra-Média. Exceto que, pelo que já vi por aí, o de GoT não são inteligentes como o Smaug.

    Creio que o pessoal que é rpgista e aprecia literatura, já tem noção disso, como Dan. Quem só joga rpg e não lê muita coisa, quase impossível mas existe, pode ser mais guiado por modas como os dragões de Game of Thrones.

    Então acho que tanto a visão “Tolkeniana” quanto a visão “Martiniana”, são bem clássicas, como a do Dan. A visão do Gygax é que é bem diferente do clássico, apesar de ser o clássico dos RPGs. O que difere entre Tolkien e Martin é que o primeiro é mais fantasioso, e o segundo mais animalesco como um bicho selvagem.

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  5. Então Bob, esqueci de incluir que minha visão é a dos dragões ocidentais mesmo. Provavelmente há dragões orientais de outros tipos e com outros princípios no meu cenário (digo provavelmente porque não pensei em nenhum ainda, mas é admissível).

    Sobre o Gygax, eu disse justamente isso, que na época dele era legal por ser diferente o esquema dos dragões. O problema é que o uso pouco criativo nosso, dos jogadores e mestres, banalizou a coisa.

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  6. Justamente, acho que isso demonstra também o quanto que o pessoal está saturado desse tipo de visão sobre o monstro. E aí preferem voltar para a visão original, ou adotar visões mais simples como a do Martin (que ainda é bem baseada no original).

    Sobre os dragões orientais e de outras culturas, acho complexo adotar essas duas visões num mesmo cenário. Enquanto os dragões ocidentais evocam o medo, os orientais são o oposto.

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  7. Eu ia dizer que é justamente isso que acho chato, ter duas visões diferentes de criaturas num mesmo cenário. Mas no nosso mundo é desse jeito, o que impede que seja assim em mundos fictícios?

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