O Pistoleiro (A Torre Negra) e meu preconceito literário

Tenho sérios problemas com livros de autores iniciantes – detesto notar que um escritor está tentando me impressionar a todo momento com um vocabulário desnecessariamente rico e descrições excessivamente “poéticas”. Com o tempo vai-se aprendendo a escrever textos mais sucintos, ou passagens poéticas/ impressionantes com palavras bem escolhidas e apropriadas.

A questão é que há alguns anos atrás, eu não sabia que O Pistoleiro tinha sido escrito por um Stephen King de dezenove anos, cheio da arrogância e “afoitismo” comum a novos escritores. Daí, li só 20% do livro e joguei de lado, achando uma bosta. O tempo passou, li outros autores novatos cheios de hype e pretensiosos (Christopher Paolini e Patrick Rothfuss, por exemplo) que me desagradaram pra caramba.

Eis que há umas semanas meu irmão Rafael (que posta aqui de vez em quando) se apaixonou pelas aventuras de Roland Deschain, comprou todos os livros e insistiu pra que eu deixasse de preconceito e lesse ao menos o primeiro, me contando que era o primeiro livro do King, que tinha suas besteiras mas que no fim das contas era uma ótima história.

Eu já tinha encarado O Nome do Vento (que tem todos os defeitos de autor novato, uns personagens irritantes mas no fim até que tem um cenário legal) e suportado um livro e meio de Star Wars of the Rings (Eragon), então era sacanagem não dar uma nova chance a Stephen King, que é, bem, Stephen King (vi os filmes, sei que o cara é o monstro que todo mundo diz).

Além do mais, A Torre Negra não é fantasia infanto-juvenil, e isso já me enquadra melhor como público-alvo. Sendo assim, comecei a ler O Pistoleiro, e em uma semana já tinha devorado o bichinho (lembrando que eu sou sócio de duas empresas e tenho uma esposa grávida, quase não tenho tempo pra ler!).

Já comecei gostando do acertadíssimo prefácio escrito pelo próprio King, explicando sua longa trajetória para concluir a saga, desde o primeiro momento quando ele era um irresponsável jovem fazendo merda e movido a uísque e cigarros, passando pelo acidente de van que quase o matou (onde ele depois comprou a van só pra destruí-la, segundo minha cunhada), pessoas que iam morrer e mandavam cartas para ele a fim de saber o final, e como ele resolveu voltar à história e finalmente a terminou (rezo todo dia para que nosso amigo Martin o imite).

Estratégia mequetrefe dele para fisgar o leitor logo de cara no seu estilo de escrever de hoje em dia (que me deixou louco pra ler os outros livros dele), contando sua história com toques de literatura noir e trechos viajosos muito legais, especialmente sobre o Patrulheiro, que ronda sua vida e irremediavelmente traz as consequências de uma vida desregrada.

Engraçado saber que King era fanzaço de Tolkien e escreveu a série bastante inspirado nele, mas como queria fazer algo diferentão, aproveitou que era fascinado pelos filmes de Sergio Leone (e seu parco conhecimento da geografia norte-americana), resolveu misturar fantasia, faroeste e ficção científica, criando um mundo pós-apocalíptico muito legal.

Depois de passar por uma introdução mais sem graça, comecei o livro em si. Para quem não conhece, a série apresenta Roland Deschain, último descendente do clã de Gilead e derradeiro representante de uma linhagem de pistoleiros implacáveis (uma ordem antiga, que fala a “língua superior” e parece ter poderes sobrenaturais, que Roland demonstra sutilmente ao longo do livro), desaparecida desde que o Mundo Médio onde viviam “seguiu adiante”.

Para evitar a completa destruição deste mundo já vazio e moribundo, Roland precisa alcançar a Torre Negra, eixo do qual depende todo o tempo e espaço. Ele acredita que um misterioso bruxo, a quem se refere como Homem de Preto, pode revelar-lhe segredos para ajudá-lo a encontrar a Torre, e por isso já começa o primeiro livro perseguindo-o sem descanso através de um deserto implacável (tive uma ajudinha do Skoob para a sinopse).

Somos apresentados a uma jornada solitária cheia de informações jogadas sem muitas respostas ou explicações (daquelas que você sabe que vai entender no futuro, mas não são passadas de forma orgânica) e muita introspecção e divagações típicas de escritor novato tentando impressionar, como disse. Mas fui perseverante, extraindo a parte boa da coisa.

Assim, fui passeando enquanto Roland encontrava personagens inusitados e começava a contar histórias, nos dando o primeiro flashback do livro – sua estadia numa cidadezinha chamada Tull, onde começaram os eventos que me prenderam de verdade ao livro. Não vou contar mais para não dar spoiler, mas são eventos MUITO tensos.

A partir daí, entre a introdução com um personagem muito importante (e que nos traz um vislumbre muito doido do que era o mundo e o que ele se tornou), encontros sensacionais com demônios, vislumbres do homem de preto e um flashback de como o pistoleiro se tornou quem é hoje (cheio de revelações), acabei seguindo ladeira abaixo até o final extremamente viajoso e que me deixou com uma vontade enorme de continuar (termina logo o segundo livro, Rafael!).

O livro tem aquele defeito que eu já falei três vezes aqui, mas sinto que ele me incomoda mais que a outras pessoas. Além disso, o excesso de perguntas e poucas respostas, e as informações jogadas de qualquer jeito, testam um pouco a paciência do leitor (eu demorei a entender algumas passagens, e até hoje não tenho 100% de certeza do que diacho é ka), mas nada que prejudique a leitura e a imersão (até porque você vai entendendo, à medida que a história segue, que muita coisa é descrita segundo a ótica ignorante dos personagens do mundo, mas na verdade se trata de coisas que conhecemos, como uma bomba d’água ou uma estação de metrô).

Ao meu entender, trata-se do nosso mundo muitos anos no futuro (lembrando que é uma visão futurista a partir dos anos 60), misturado com uma terra de fantasia, às vezes dando a entender ser um mundo paralelo… Espero descobrir mais nos outros livros.

Além disso, Stephen King pra mim se provou merecer toda a fama porque seu primeiro livro, quando ele era um moleque de dezenove anos, é anos-luz menos inocente e mais bem escrito que muitos outros autores de fantasia (nem tão novatos, aliás). Especialmente – e aí é encheção de saco minha mesmo – por não ter tabus em relação a sexo e violência, já naquela época.

Enfim, se todos dizem que O Pistoleiro é apenas a introdução para uma grande saga, posso esperar grandes surpresas no futuro, boas ou ruins. Espero que boas :P

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17 comentários em “O Pistoleiro (A Torre Negra) e meu preconceito literário

  1. Sou fã alucicrazy de Torre Negra e o troço é assim mesmo: ame-o ou deixe-o. Que bom que você se entendeu com o pistoleiro e agora uma linda amizade se seguirá. Ah, não é spoiler, mas o ka é tipo o 'destino'. Ou seja: na dúvida, culpe o ka.

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  2. Mas o pior é que o bicho merece uma segunda chance, amor. Acho que sua lembrança da época que leu algum livro dele pode ser pior do que o livro em si, ou vc leu um livro que particularmente não gostou. Sei que esse, é bacana. Não chega perto dos meus favoritos, mas é uma boa surpresa.

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  3. Longos dias e belas noites, sai. Que o ka te ajude a seguir adiante!
    Li todos, inclusive o “oitavo”. Aguarde por grandes aventuras e descobertas. E a sensação de não entender nada vai vir e voltar direto.
    Abraço e boa sorte!

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  4. Partilhando completamente da recusa/desconfiança com os iniciantes. Se eu me tremo de impaciência com caixa em treinamento o que dirá de jovens autores e literatura.
    Esse dias tentei vencer esse sentimento e comprei A Canção de Aquiles de Madeline Miller. É o primeiro romance da moça, que é professora de grego e latim.
    Bom… Não consigo ir além do capítulo 3 (30ª página) há três dias. E não é só pela falta de tempo.
    Além da vontade de impressionar há um problema mais duro que é a falta de estilo. Não deu tempo ainda para amadurecer uma forma e, em escritores comerciais isso é difícil mesmo. O livro tem capítulos curtos demais e uma falta de coragem para reescrever, de verdade, a história que quer contar. Enfim…

    Ainda não comecei a Torre e não estou animado, pra ser honesto. Ultimamente não tenho sido muito gentil nesse ponto: ou o livro me pega ou não. Dou segundas chances a pessoas. Em literatura (ou cinema) que é uma coisa muito mais séria, não. XD Eu quero é que pegue fogo. :D

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  5. A HQ é ótima por explorar um ponto da narrativa que é terrivelmente superficial nos livros. Cogite ir na Baia Pirata, baixar os volumes por lá mesmo (em inglês) e avaliar se vale comprar os volumes encadernados.

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  6. Geralmente eu não leio nada de gente iniciante não por puro preconceito mas por embasamento acadêmico. Eragon não consegui ler de jeito nenhum e tenho asco desse tipo de literatura.

    Basicamente todo mundo faz a mesma coisa, falo sobre os iniciantes, misturando mitologia, lendas urbanas, mundos de fantasia com um maniqueísmo clássico sem inovação nenhuma. Depois que viram que dá para ficar milionário com literatura, olá J.K. Rowling, todo mundo quer escrever algo com uma fórmula parecida pensando apenas nos próprios bolsos.

    A ascensão desse nicho comercial demais, “bestselística”, ou “já-com-os-direitos-vendidos-para-adaptações-no-cinema” me preocupa. Não só a mim, mas a alguns estudiosos que demonstraram que esse tipo de literatura tem um efeito negativo nas pessoas influenciando-as negativamente com relação a juízos de valores. Enquanto uma literatura bem escrita e sem um maniqueísmo forçado tem um efeito positivo sobre as pessoas auxiliando em vários processos de interação social.

    Talvez, pelo que o Dan falou, Stephen King no começo de carreira, mesmo com os problemas apontados, esteja a frente dos iniciantes atuais. E isso já me faz querer ler esta obra. Talvez quando eu deixar de ser desempregado compre a coleção toda.

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  7. Eu gostei do Iluminado e de Carrie, a estranha. O problema como eu te disse é que as histórias são envolventes, mas a técnica de escrita péssima, parece roteiro de cinema e não literatura.

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  8. No Submarino rola umas promoções do box de vez em quanto.

    Eu sou fã da Torre, mas também tive problemas com o primeiro, li até uma parte e só voltei a ler quase quatro anos depois, só que do segundo livro em diante fica muito melhor e você não vê a hora de terminar de ler todos.

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  9. Cliquei com medo de ter spoilers, estou no último volume! Tou a um ano lendo essa série, e concordo com o que foi dito acima: Stephen King iniciante é melhor que muitos que escreveram a vida toda. O que eu acho mais foda na Torre são as referencias aos outros livros dele, fazendo tudo um “Kingverso”. E (temendo spoilers de novo) que história é essa de oitavo livro??

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  10. Excelente exemplo de masculinidade selvagem Roland… em certas horas, no segundo livro, chega a ser engraçado o contraste entre Roland e um homem moderno. Não curti muito a falta de habilidade de S. King também, mas a ambientação e personagens, bem como os mistérios que se conduzem a trancos e barrancos (as profecias das cartas de tarô, por exemplo) tornam a leitura excelente. E justamente esse inabilidade + pertubação mental de King trazem sempre a mente a pergunta: como ele desfechará esse mistério improvisado adiante? Recomendo.

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