True Detective, que série fantástica

Esses dias tenho falado lá no Facebook de uma série excelente da HBO que eu e minha esposa Elisa acompanhamos, True Detective. Cada episódio é uma porrada de te deixar arrepiado.

Nic Pizzolatto (roteiro e argumento) e Cary Fukunaga (direção) não são nomes muito conhecidos, mas trouxeram uma produção para bater fácil de frente com as melhores séries da emissora (sim, incluindo Sopranos :P).

True Detective parte de uma premissa conhecida: dois policiais investigando um crime estranho e ritualístico, algo como Seven ou O Colecionador de Ossos. São parceiros e possuem problemas de relacionamento, sendo um durão e família e o outro esquisitão e genial.

Mas isto é apenas a superfície das águas negras e profundas de uma história muito bem amarrada, densa e niilista, cheia de pequenos e sutis elementos que te deixam de cabelo em pé.

A série usa um enredo não-linear fantástico para contar sua história, que se costura, dá voltas em si mesma, vai e volta. Em 2012, os ex-policiais Martin Hart (Woody Harrelson) e Rust Cohle (Matthew McConaughey) contam sua história para dois detetives, em depoimentos cada um em lugares diferentes.

Em 1995 eles investigaram o caso de uma mulher assassinada por um serial killer ritualista, uma investigação difícil no sul rural da Louisiana (aparentemente, os arquivos do caso se perderam, e há um outro criminoso copiando os métodos do antigo serial killer).

Marty é durão, tem esposa e duas filhas. Rust tem uma história trágica de vida e mora sozinho num cafofo quase sem móveis, é muito bom no que faz e inteligente demais para este mundo, cheio de teorias e divagações niilistas que fazem Marty mal aturá-lo. Ele passou um tempo infiltrado em gangues de traficantes quando trabalhava para a Narcóticos, e agora está tentando ficar sóbrio.

O fato da história ir e voltar dá uma camada extra de verossimilhança, com investigações lentas e grandes passagens de tempo. À medida que você assiste, a série vai jogando de forma muito sutil pequenas coincidências, detalhes que formam teorias loucas na sua cabeça, referências e diálogos que te fazem verdadeiramente pensar.

Um mundo cinzento, onde o ambiente da Louisiana é um personagem por si só, repleto da podridão humana e cheio de detalhes que te fazem vibrar, como a força policial que mal funciona e as relações degradadas dos personagens. Absolutamente todas as teorias de Cohle fazem sentido com o que vai acontecendo ao redor.

O roteiro é tão denso e cheio de uma filosofia pessimista (que o diga Saulo Mileti), e te faz pensar tanto, que já estão surgindo dezenas de teorias e discussões por aí, nos grupos especializados. O Mundo Tentacular fez um apanhadão das pistas (cheio de spoilers, só leia quando assistir tudo que saiu até agora), e há um grupo no Facebook dedicado a discutir os pormenores da série.

Ao menos até agora, a história não busca saídas fáceis de roteiro, nem força situações. Muitas coisas acontecem, mas eu não posso contar mais sem estragar as surpresas de quem vai assistir.

Tecnicamente, não tenho o que reclamar da série. As atuações estão sólidas e muito boas. Harrelson como sempre sendo foda (sou fanzaço) e alguns outros nomes, conhecidos ou não, convencendo legal. Mas o destaque vai para McConaughey, surpreendendo demais e entregando um Cohle fantástico, totalmente diferente de tudo que já vi dele. Misterioso, taciturno, trágico e excêntrico, é o personagem que move a trama, e você se identifica com ele, e ele seja a pessoa mais decente ali; ou não. Sim, é de dar nó na cabeça. Só assistindo pra sacar.

Fora isto, uma das aberturas mais fantásticas que já vi, integrando muito bem os personagens, o cenário e o enredo. A trilha sonora vai de um blues de raiz a country, folk e classic rock, muito massa e bem colocada (e a música de abertura, Far From Any Road, da banda The Handsome Family, é fenomenal e passa demais o clima). A fotografia é perfeita, e eu não podia deixar de falar de uma cena de ação de seis minutos no quarto episódio, absolutamente sem cortes, que te faz prender a respiração até o fim, e te deixa o pensamento “que série FUEDA” no final.

Mas a cereja do bolo está aqui: os elementos sutis de horror lovecraftianos. Na verdade a série usa elementos do livro King in Yellow, uma compilação de contos de terror e fantasia escrita por Robert W. Chambers em 1895, que influenciou bastante H.P. Lovecraft (e veja só, vai ser publicado no Brasil graças a TD).

Nosso contato com a série foi através de trailers pouco reveladores na TV, portanto, não fazíamos ideia de que havia elementos de horror (digo isso porque um dos slogans da série é “Touch darkness and darkness touches you back”. O post do Mundo Tentacular, aliás, foca muito nessa parte (afinal, né). Não vou dizer até onde vão estas referências, mas fique atento que algumas são bem sutis.

True Detective terá uma temporada de oito episódios (até agora está no seis), e tudo indica que as próximas temporadas abordarão outros casos, com outro elenco. Até isso é uma jogada boa, porque a história é bastante autocontida e trágica para postergar sem deixar a trama se arrastando.

Então é isso. Corra e assista, e lembre-se: o homem é o mais cruel dos animais.

7 comentários em “True Detective, que série fantástica

  1. Harrelson é um excelente ator, ele tem seus méritos e momentos de destaque, talvez se não fosse por ele, Cohle não teria tamanha evidência na trama, o contraste entre ambos que os torna completo e originais. Por outro lado, como já havia dito anteriormente, Matthew literalmente encarnou o personagem, é surreal.

    Os argumentos e detalhes que são distribuídos minuciosamente no decorrer do enredo foram capazes de introduzir alma na série, é como se cada cena, nós também tenhamos que estar atentos e investigar.

    True Detective em 5 episódios conseguiu tornar-se minha série preferida, até então, não tenho absolutamente nada do que reclamar do seriado, nota 10.

    Sobre as teorias, até os dois primeiros episódios, achava que Cohle era a segunda personalidade de Hart, mas já no sexto episódio, isso não faz mais sentido.

    Contudo, acrescentando minha teoria final: Cohle (acho que já foi abusado antes pelo Rei Amarelo) morre, Hart fica insano, o Prefeito é o Rei Amarelo, os assassinatos não são descobertos e o caso é dado por encerrado. Fim.

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  2. Com esse nome True Detective, estava passando batido pra mim, mas depois dos comentários e indicações de Dan Ramos, fui assistir e achei duca…. ainda no 3º episódio, mas tirando o atraso para poder entra no debate das teorias.

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  3. Estou também completamente fascinado com esta série espetacular. O mundo estava precisando de algo desse nível.

    Só de ler o seu texto e relembrar de alguns momentos já fico arrepiado.

    A dupla de protagonista com dois atores fodas, também sou fã do Harrelson e McConaughey está se superando a cada novo personagem que interpreta. Que ator foda.

    Adorei essa estratégia, 8 episódios, uma série curta e quando terminar na temporada que vem serão outros atores, outros casos. Muito bom isso.

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