Cenários de fantasia e suas inspirações

A ideia desse post surgiu quando há alguns anos, quando joguei uma aventura em um evento em Khubar, um reino de Tormenta. O narrador, Bob Mota, ficou surpreso quando mencionei que meus khubarianos eram inspirados nos maori e samoanos.

Hoje em dia é muito mais notável que autores de fantasia tomam referência em culturas, lugares e pessoas do nosso mundo para compor seus cenários. Porém, ainda existe muita gente que não atinou para este fato, ou nunca pensou em pesquisar e achar referências para apoiar seu cenário pessoal, ou mesmo achou que estaria “trapaceando” ao usar ideias do nosso mundo ao invés de “criar sua própria fantasia”.

Pensar em referências reais – e reconhecer essas inspirações nos cenários de fantasia – pode ajudar qualquer narrador a ambientar melhor suas histórias. Confira comigo no replay.

Tolkien é o exemplo mais comum, inspirando-se bastante na mitologia nórdica para sua Terra Média (principalmente Beowulf e Siegfried); seus hobbits são ingleses interioranos (e ele mesmo), Gondor tem coincidências com Roma, anões inspirados em suas contrapartes das lendas nórdicas mas também em judeus medievais, elfos galeses e islandeses, cavaleiros germânicos rohirrim, etc.

Além disso, a história fala muito sobre os velhos costumes naturalistas contra a máquina progressista do mal dos orcs e Sauron, com seus mercenários orientais e mouros e tudo mais. (essas referências mais obscuras eu vi na revista História Ilustrada 5, então se tiver algo errado, culpem eles. :P)

George RR Martin fala sobre seus dorneses mediterrâneos, povos orientais mistos de Essos, e o pessoal na internet já ambientou boa parte das referências à Europa: Norte seria Rússia e Leste Europeu, Ilhas de Ferro escandinavas, Dorne a Espanha, Valíria uma mistura de Roma, Grécia Antiga e Egito (por conta dos Targaryen), Cidades Livres várias cidades-estado do Oriente Médio, etc. Segundo o A Wiki of Ice and Fire, os Dothraki seriam um amálgama de culturas das estepes e planícies, como mongóis e hunos, tribos ameríndias, cavaleiros turcos, etc..

A própria história tem vários sinais de inspiração na Guerra das Rosas, e Martin também já mencionou que pegou emprestados vários episódios da História (o Casamento Vermelho foi inspirado em dois eventos escoceses: o Black Dinner e o massacre de Glencoe). A lista continua infinitamente.

No caso de Dragon Age, eu já até escrevi um post falando sobre as inspirações de cada região, Antiva é Veneza/Itália/Espanha, Ferelden é Ilhas Britânicas (saxões, irlandeses e escoceses), Nevarra com túmulos egípcios e dragonslayers prussianos, Orlais sendo França, Tevinter Império Romano pós-bizantino convertido ao “cristianismo” do cenário.

Na introdução do maravilhoso livro World of Thedas, aliás, o chefão Mark Darrah diz que queria criar um mundo de fantasia com verossimilhança, onde elfos, anões e magia fizessem sentido em relação à sociedade medieval, e houvesse um messias inspirado em Joana d’Arc (Andraste, a guerreira fereldana profeta do Criador que foi queimada e inspirou o Coro, a religião que domina o cenário).

Se você pesquisar a fundo, vai encontrar as inspirações de qualquer cenário, por mais maluco que seja. Em Conan tem seu continente no formato da África e inspirações claras, como os escandinavos Vanaheim e Asgard, a Aquilônia romana, Zíngara espanhola, Argos grega, Khitai japonesa, etc.

Em Avatar (o que presta), temos culturas orientais. Em Forgotten Realms, Kara-Tur é o oriente, Zahkara é Arábia/África e Maztica é a América e Faerun é a Europa. Waterdeep lembra Roma ou Constantinopla, Aglarond é celta, Mulhorand e Thay são egípcias, assírias, babilônicas, persas ou impérios antigos do tipo, Damara tem nômades cavaleiros estilo turcos e sármatas, Chult e o sul é cheio de selvas africanas e árabes, a Horda Tuigan é repleta de mongóis, etc.

Por fim, temos cenários ainda mais óbvios como Mystara, que usa nomes copiados dos livros de História, e alguns que tentam esconder como Eberron, mas as inspirações estão lá.

Além da facilidade de encontrar aspectos geográficos, históricos e culturais para montar um cenário coeso, isto é feito porque o público se identifica muito mais com algo que seu inconsciente reconhece. Quando você descreve uma região com alguma inspiração real, ainda que implícita, as pessoas costumam criar um vínculo espontâneo e uma imagem mental fácil.

Pra falar a verdade, fazemos isso até sem querer: estamos inseridos nesse mundo e somos humanos, e nossa cabeça concatena seres baseados em carbono, que comem e dormem e vivem em casas. Uma história com uma ameba com funcionamento e hábitos completamente alienígenas é possível, mas seria muito chata, e provavelmente um compêndio interminável de explicações de como funciona esse mundo ameboide. Alguns livros se tornam monótonos e desinteressantes, inclusive, por ter que explicar demais seus conceitos e termos técnicos próprios.

Assim, se você aprende a usar essas referências direito, fica bem mais fácil passar uma ideia do seu cenário e do que está acontecendo na aventura para os seus jogadores. Eu pego costumes, estilo visual de vestimentas, arquitetura e objetos, sotaques, nomes e tudo mais, dando uma alterada ou misturada com outras culturas para não ficar copiado demais. Basicamente, pegando elementos aqui e dali, juntando o que se parece e jogando minha identidade ao produto final.

Fica até mais fácil de criar personagens e reconhecer NPCs quando eles aparecem ou falam. Quando mostro um personagem grande, branquelo e de nariz vermelho, os jogadores pensam no meu reino inspirado na Rússia e países parecidos. Se eu quero que eles saibam que a NPC “latina” está falando, emulo um sotaque espanhol.

Hoje em dia eu uso uma mistureba maluca de Thedas (do Dragon Age) e do meu homebrew (com pinceladinhas antigas de Tormenta) como cenário padrão de fantasia. Virei o mapa 180º (se você notar, Thedas é a Europa virada), adicionei umas regiões e alterei outras. Minha Nevarra é uma nação de cavaleiros das planícies e estepes meio bárbaros (uma mistura da minha Namalkah de Tormenta, os Dothraki, os Rohirrim germânicos e ameríndios).

Inseri reinos escandinavos de onde vieram os dragões ocidentais. Criei uma terra de hordas orcs estilo mongóis além das Montanhas do Chifre do Caçador. Inseri um reino árabe/Oriente Médio (Barkalar) e um indiano (Shantalla). Peguei o que era a Nevarra oficial e coloquei em Redania, inspirado em Alemanha, Suíça e Prússia. Criei um reino inspirado em Rússia, Ucrânia e similares chamado Kirev (uma pequena corruptela de Kiev, o principado medieval). Instalei os tais maori e samoanos do começo do post em um arquipélago chamado Akhbar. E ficou muito bacana!

Edit: no post original eu tinha postado um mapa, e como o pessoal pediu nos comentários pra ver este mapa e o mapa da minha amálgama doida (que chamo de Thedrael, sendo Drael uma sigla pra Dan Ramos Alternative Eurasian Land :P), estou postando. Clique aqui e aqui.

22 comentários em “Cenários de fantasia e suas inspirações

  1. Bom é quando o sujeito não identifica de onde se baseou pra criar seu cenário, e quando as semelhanças são apontadas, fica gente de mimimi. xD

    Acho que buscar inspiração ajuda não só o público “receptor”, mas também o autor. Fica muito mais fácil manter uma coerência quando você tem referências sólidas na cabeça.

    Curtir

  2. Estou comentando por que o Daniel ameaçou minha integridade física e moral.

    Então por livre e espontânea vontade, digo que eu concordo com tudo o que foi dito, assino em baixo e se precisar testemunho a favor! \o/

    Brincadeiras a parte, acho que é impossível vc pensar numa ambientação sem alguma forma de referência qualquer. Ainda que vc procure camuflar ou misturar para disfarçar, sempre um ou outro elemento vai ficar bem identificável. E nem acho que isso seja ruim!

    Referências facilitam o entendimento!

    Curtir

  3. Muito legais o pensamento e a realização dele (o mapa).
    E aproveito pra lembrar que, assim como tu ameaçaste a integridade física e moral do Pop pra ele comentar, eu ameaço a sua se tu não for o responsável pelo mapa do meu RPG!

    Curtir

  4. Realmente eu fiquei surpreso porque nunca pensei em utilizar esse tipo de referência. Nunca utilizei mas só pelo que o Dan falou no Dia D RPG eu fiquei totalmente a favor da idéia.
    Os autores de cenários geralmente já usam alguma base, mas o mestre pode desenvolver como quiser. Isso também evita que todos os npcs tenham a mesma cara. Se hoje na minha mesa eu digo que o grupo de PJs encontra com uma tropa de cavalaria de Yuden e em seguida encontra uma tropa de Deheon eles só os identificariam através dos estandartes diferentes. Já se eu utilizasse essas referências com certeza os jogadores conseguiriam identificar de onde vinham os npcs só na descrição, sem precisar de estandarte.
    Fora que utilizando esse recurso temos em nossas mãos detalhes pouco explorados nos livros, como culinária, costumes, etc. Bastante material para roleplay. Enfim, só traz benefícios.
    Excelente post, e obrigado por me apresentar a este recurso já no Dia D RPG.

    Curtir

  5. parabéns pelo post Dan concordo completamente como seu ponto de vista, estarei acompanhando o blog e bem que a gente poderia trocar banners não é? me responde por e-mail sobre a proposta valeu e novamente meus parabéns ah o mapa tá ficando muito bom

    Curtir

  6. Excelente post como sempre. O Dan resolveu chutar o balde nesse mapa, hein? Mas chutou bundas por tabela!

    Tenho a convicção que nenhum mestre usa cenários prontos do jeito que ele vem no livro. No meu caso, que mestro forgotten, faço as diferenciações entre os povos também. Mulhorand e Unther, por exemplo, são meio egipcias etc… A diferença é que eu as torno graduais, como acontecem no nosso mundo. Fronteiras entre paises/estados tem caracteristicas misturadas e tal… Vcs entenderam :D

    Curtir

  7. cara nao to conseguindo enviar o arquivo do meu banner para o teu e-mail, quando peço para enviar para o endereço que me destes o gmail acusa como e-mail não reconhecido você não tem outro e-mail não?

    Curtir

  8. Concordo 100%. No meu cenário também me inspiro (muito) em exemplos do nosso mundo. Humanos europeus, halflings pigmeus, elfos nativo americanos, nomes e lugares conhecidos. :)

    Obs.: Nos comentários originais do post o pessoal mencionou um mapa,fiquei curioso pra ver. XD

    Curtir

  9. Dan vc tem um mapa, vc fez um mapa sobre essas mudanças que vc fez? Parabéns pelo post. Na terça-feira comecei a narrar uma pequena campanha, fui fazendo algumas descrições e os jogadores eles mesmo foram apontando semelhanças com a nossa historia. Foi bacana isso. Vou enviar o link de seu post para eles poderem ler. Valeu.

    Curtir

  10. Muitos narradores tem medo em inserir referências tão claras a nossa cultura do passado que formam universos desconexos ou, justamente como disse, daqueles que precisam explicar tanto que o aconteceu que todos acabam no sono. Eu não tive esse medo e, na minha “cerveja caseira” como chamamos por aqui, fiz quase a mesma coisa que você, Dan.

    Inverti o mapa de Thedas, misturei com partes de Tamriel (da série de jogos The Elder Scrolls), uso vetores de países para delimitar áreas, ou para diferenciar uso vetores daquele fantástico mapa de Scott Westerfeld's Leviathan… no final das contas, todo mundo identifica-se mais fácil com o cenário e a história corre bem.

    Eu coloquei tartans em guerreiros vikings para formar terras novas ao Norte, uso Franças diferentes (uma Orlais, outra mais suscetível à invasões e fracassos militares) e… bem, não gosto muito de elementos orientais, mesmo praticando kenjutsu, mas não vejo porque não criar uns dois ou três versões do Japão.

    Essas “corruptelas” de nomes de cidades também são ótimas para dar um ar exótico. Trocar “Ruthenia” por “Ruther”, por exemplo, já poupa bastante o mestre em pensar nomes possíveis para um reinado.

    Excelente material, Dan.

    Curtir

  11. Puts cara kkk massa. ta roubado viu kkkkkkk.
    Ótimo trabalho. Para futuros post aqui no birosca comente mais sobre os reinos que anexou ai, descreva eles ai pra gente. Gostei da ideia de inverter o mapa.

    Curtir

  12. Muito bom post. Como sempre, por sinal. Concordo plenamente com boa parte do acima dito, e me lembrei de um certo amigo que discordou fortemente quando mostrei a semelhança dos Greyjoy com os vikings… vai entender…

    Curtir

  13. Como gosto de criar cenários de RPG (mas os caseiros de mesa nunca foram feitos com cuidado realmente e agora estou fazendo isso com cuidado, inclusive a proposta de “cenário de fantasia renascentista com MECHAS” e vejo que ajuda ter referências a povos da Terra, mas numa dose comedida e em que ela não te atrapalhe a fazer do seu mundo um mundo característico. Então por exemplo, o reino de Prozhet-Luh (equivalente a França) apesar de bem afrescalhada e tipicamente francesa em alguns pontos, é um povo politeísta, lançou-se mais cedo em aventuras coloniais de conquista e possui monopólio sobre especiarias do oriente (e isso vai afetar a culinária, mas isso seria detalhes a serem tratados depois), entre outras mudanças. Outros reinos seguem o mesmo principio de terem suas inspirações na Terra, mas terem diferenças drásticas em outros pontos. E destacar essas semelhanças e diferenças principais de cara ajudam a ver como é a configuração do cenário e o modo como os jogadores enxergarão essa ou aquela região e o que esperar dela.

    Curtir

Dê um pitaco, não custa nada

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s