Os medos e segredos do seu personagem

Todo mundo tem duas coisas: medos e esqueletos no armário. Por mais que não goste de admitir, você sempre tem fantasmas do passado que volta e meia te assombram – e você teme que se materializem. Na ficção, isto é um recurso narrativo amplamente usado (e abusado, até).

No RPG, exceto por alguns casos especiais (especialmente quando o sistema tem uma desvantagem “segredo sombrio” ou algo assim), não costumo ver muitos personagens com segredos, medos, receios ou temores que certamente esconderiam caso fossem pessoas reais. Mesmo personagens “bonzinhos” que dizem que sua vida é um livro aberto escondem alguma coisa.

Obras como Game of Thrones, Sons of Anarchy, The Walking Dead e Dragon Age, ao passo que nos deixam desconfiados com todo mundo (embora seja bom para as histórias que nossos personagens nem sempre sejam paranoicos como nós ao consumir a ficção, como já escrevi aqui), me deixaram de olhos abertos para como pode ser bacana essa profundidade de personagem.

Falando de medos, fobias são bacanas (de aranhas, de altura, de espaços apertados, multidões), mas certos medos mais existenciais podem ser bem interessantes. Medo de falhar, de ser corrompido, da tentação, da morte (e do que te espera lá do outro lado), de si mesmo, do vazio, da solidão, de morrer sozinho, desespero, se tornar seus pais (ou alguém que você odeia), do desamparo, irrelevância (se o seu personagem almeja a fama, por exemplo), de ficar louco…

Toni Infante
Quanto sangue há nas mãos do seu personagem?

Esses medos são muito relacionados com a psiquê, alinhamento, backgrounds e motivações do personagem. O paladino que teme ser corrompido já que o mundo é tão cheio de perversão e sua senda é tão difícil. A ladra que não quer ser medíocre e voltar à sarjeta, onde sofreu violência e desamparo. O bárbaro que teme voltar a ser escravo, ter sua liberdade privada e sofrer humilhações. A feiticeira que teme a si mesma, pois está marcada com uma maldição desde que nasceu (Delphyne, de Canção Escarlate).

Sobre segredos, a coisa que você esconde não precisa ser necessariamente errada para o mundo, e sim para você. Um guarda que falhou em deixar que seu protegido fosse morto e agora toma como missão de vida caçar o assassino por vingança, mas também para eximir sua vergonha. Um mago que tem traumas de infância e teme que sua força de vontade fraqueje quando se deparar com algum demônio. Um sacerdote cujo amor passado ou vida pregressa pode ser descoberta pela igreja.

A culpa também é poderosa. Alguém se culpa por não ter remorso de ter feito algo que abomina – ou mesmo que é condenável pela sociedade -, e teme que este pequeno (ou nem tanto) ato possa ser o primeiro de uma estrada para a perdição. Outra se culpa por um acidente com alguém, e se acusa de ter matado essa pessoa. Ou mesmo teme que seus medos/temores sejam descobertos e tudo venha a perder de alguma forma (uma corporação, ordem militar ou druídica o consideraria inapto, talvez?).

Pode parecer detalhismo besta, mas como eu disse, essa profundidade pode tornar o personagem bem mais interessante e ainda motivar (ou justificar) seus atos na campanha. E ainda pode gerar cenas incríveis, como aquele diálogo tenso e dramático onde um personagem finalmente confia no outro o suficiente para contar um segredo do passado – especialmente quando ele age de alguma forma e os outros não entendem sua motivação.

Vale dizer que “segredo” não significa exatamente que o personagem esconde o fato; ele pode simplesmente não mencionar ou deixar transparecer para quem não o conhece bem. No primeiro filme d’O Hobbit, Balin conta a Bilbo o motivo do ódio de Thorin por orcs, uma história do passado que não era conhecida pelo hobbit (nem por boa parte do público expectador). Ou seja, não chega a ser um fato secreto, mas nem todo mundo conhece aquele detalhe do personagem.

É claro que a coisa eventualmente vai ser usada contra você – o fantasma vai puxar seu dedo em algum momento da campanha. Como sempre digo, o jogo é sobre os personagens, e quanto mais pessoais os plots, mais bacana pode ser. O mestre pode e deve trazer esses traços à tona, e gerar cenas bacanas de se jogar com eles.

Particularmente no Dragon Age Inquisition tem uma quest (não é spoiler!) onde aparecem os medos dos companions, que foi o que me motivou a escrever sobre isso e a pedir aos meus jogadores, em um pequeno exercício criativo, que pensassem nos medos e segredos de seus personagens. Por conta do “transtorno”, estou dando um ponto de atributo para quem fizer isso. Pode ser um incentivo bom para seus jogadores irem além da classe e raça.

E aí, do que seu personagem tem medo?

PS.: as imagens desse post são da galeria de Toni Infante, um ilustrador espanhol foda. Veja a galeria dele clicando aqui.

Um comentário em “Os medos e segredos do seu personagem

  1. Eu, particularmente, tenho um ritual de criação de personagem que é sempre começar pelas desvantagens (em sistemas que tem essa opção).
    Mas acho que jogar algumas vezes com sistemas assim, te dá um certo treino, pra que em sistemas onde essa mecânica não existe você já tenha a postura do:
    ok, o que a personagem não é? E o que ele não faz? O que ele tem de estranho? E se ele tiver um plano a longo prazo que não pode revelar agora?(segredos)

    Acho que o que constrói o personagem no fundo são as dificuldades/defeitos/segredos, pq senão ele é perfeito, não é? ;)

    Esse post me lembrou de uma personagem que tinha fobia a ideia de morte, não conseguia entrar em hospital, ficar perto de gente muito doente, não conseguia ver gente morta.. digamos que era engraçado, já que os “heróis” de uma campanha de RPG geralmente lidam com isso quase o tempo todo. heheheh

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