Meu breve passeio no D&D Next (em Thedas)

Hoje o leitor Leonam me perguntou se vale a pena usar o D&D 5E (ou Next) com Thedas, o cenário de Dragon Age. Daí aproveitei para falar da minha breve aventura – trocadilho não-intencional – com o sistema, enquanto respondo e dou dicas.

Como vocês sabem, sou um eterno frustrado com sistemas de fantasia; nenhum satisfez minhas frescuras com as histórias que quero contar. O que chegou mais perto do meu ideal foi minha simplificação do Storytelling, mas a falta de tempo não me deixava trabalhar nele, cheio de defeitos e buracos na estrutura.

Outra coisa: sou maluco por Dragon Age. Sem tempo e saco pra continuar desenvolvendo meu cenário caseiro (que já era derivado de Tormenta), misturei o que eu tinha criado com Thedas, criando uma versão cheia de elementos meus e roubados de outras coisas que eu acho massa, de Game of Thrones a The Witcher (a menina dos meus olhos no momento). Dragon Age tem uma adaptação original pra RPG, mas testei há alguns anos e não deu certo (muitos PVs, pouco dano, muita abstração).

Nesse meio tempo o Next começou a bombar, e D&D sempre me captura. Começamos a flertar novamente, a nostalgia (que só lembra de coisas boas) batendo nas campanhas antigas… Com tudo isso e uma pequena pressão de parte dos jogadores, adotei o danado. O primeiro jogo do mundo não causa esse fascínio por acaso, e como 5ª edição é relativamente nova, dá pra entender que o pessoal esteja usando ele em vários cenários.

É, odeio clérigos.
É, odeio clérigos.

E deu certo enquanto durou. Comecei respeitando conceitos do game, como as classes: só guerreiro, ladino e mago. Usei coisas das outras como arquétipos, como hunter e beastmaster para emular o ranger do ladino, druid para mago e paladin para guerreiro (o meu é mais parecido com um caçador de monstros sobrenaturais; caso de Moloch, da campanha Aegis). As alterações eram feitas de acordo com minhas necessidades, embora eu tenha ficado sempre devendo ajeitar a lista de magias (porque a magia do cenário é mais limitada e não há clérigos). De resto ia levando.

Para os monstros, sempre adaptava algo do Livro dos Monstros, para emular alguma criatura dos jogos ou criar minhas versões de monstros. Usei goblinóides levemente adaptados, ogro e bugbear para as crias das trevas, por exemplo (se alguém quiser as fichas, diz aí nos comentários). O Inquisition ajudou, introduzindo gigantes (e gigantes do gelo no Jaws of Hakkon), fênixes (embora com outro conceito), varghests e outros monstros novos.

Alguns nem precisei mudar, como lobisomem, wyvern e dragões (lembrando que ao invés de “filhote, jovem, etc”, o jogo usa “dragonete, draco, dragão e alto dragão), etc. Também trouxe monstros queridos de D&D; para o goblin, peguei conceitos do kobold e do ghast de Dragon Age (que já parece essas duas raças) e alguns elementos de lendas europeias, usando inclusive esses e outros nomes (e aparências e costumes) de acordo com a região. Para o orc, misturei mongóis, hunos e Warcraft, e ficou massa.

Eu mudei essas coisas, mas sei que nem precisava. Pode-se usar o Templário como paladino, o mago de sangue como warlock, o apóstata como feiticeiro e o mago de círculo como, bem, mago. Reaver/berserker pode ser emulado com bárbaro, cavaleiro arcano é de certa forma o knight enchanter, shapeshifter pode ser druida, e assim vai. O clérigo pode ser tratado como curandeiro espiritual, mago do círculo ou você pode definir que existem clérigos como em D&D em Thedas. Ou seja, adaptar o cenário ao sistema ao invés do contrário – isso serve para todo o resto, se você quiser.

Se você quiser o feeling beeem Thedas, tem que ter uma paciênciazinha pra mudar as paradas. Criar novos arquétipos com as especializações do jogo, mexer na lista de magia (tem que limitar algumas, fazer concessões como o mago usar magias de cura, bardo não ter magia, essas coisas).

No fim, pra mim não deu certo porque algumas coisas que me afastaram do jogo voltaram a cutucar meu cérebro. Pontos de vida abstratos, regras de classe e nível e a falta de tempo para reaprender a criar monstros (que usam regras ligeiramente diferentes que os PJs). Nada de outro mundo, mas não deu pra mim. Tenho preferido contar histórias mais pé no chão, centrada em personagens e problemas mundanos, nada heroico ou épico demais. E agora que voltei a jogar The Witcher (o sensacional terceiro jogo), ferrou de vez.

Sem falar que como sou influenciável, andava usando monstros demais e coisas muito mágicas (pela falta de tempo de me preparar apropriadamente, acabava pegando tudo que encontrava pronto), e na época que estava jogando o Inquisition me deixei levar e a campanha de nível mais alto (10º, não tem reporte aqui) começou a ficar bem tosca, até para o gosto do menos exigente dos meus jogadores. :v

No momento me encontro num limbo RPGístico (filha, trabalho, etc), mestrando apenas a campanha solo da patroa (que se baseia em Fantasytelling, mas nem usamos dados e regras no gameplay) e testando o Fantasy Age – versão do sistema oficial de Dragon Age RPG para fantasia medieval geral – com alguns conceitos meus de “correção” das coisas que não gosto nas regras, só pra ver qual é. Por isso ainda estamos vendo o que vamos fazer em seguida.

Mas enfim, a nova edição do D&D é, para mim, a melhor que o sistema já teve (jogo de boas, embora quando quiser mestrar um joguinho de dungeon crawl, continuarei preferindo mil vezes o Old Dragon). Então, a resposta é: sim, vale a pena usar o novo D&D com Thedas. Se você gosta de fantasia mais heroica, de personagens indo do herói local ao salvador do mundo, o jogo funciona bem demais. Se quiser mais ajuda para adaptar, muita gente fez isso na internet – eu me baseei muito em uma do fórum Giant in the Playground.

PS.: Se alguém tiver curiosidade sobre como encaixei meu cenário em Thedas, alterações que fiz no conceito do mundo e como estou mestrando (especialmente em relação aos orcs), dá sinal aí nos comentários que eu posto falando sobre.

14 comentários em “Meu breve passeio no D&D Next (em Thedas)

  1. Rapaz, eu amo demais Dragon Age mas acho que o Inquisition me decepcionou em alguns pontos, tanto que não zerei ele pq sou compleicionalista e as side-quests dele são tudo de “catador”. Fui fisgado pelas side-quests do witcher 3 que são cheias de narrativa e personagens interessantes, isso reacendeu minhas chamas.

    Eu já era fã desde o witcher 1 quando foi lançado. Gostei muito do tom do cenário e das reviravoltas inspiradas em contos de fadas. Alem disso, o cenário de DA quase não tem espaço pra colocar vários elementos fantásticos como alguns feitiços poderosos e criaturas mais mágicas.

    Eu amo o Lore do DA, é muito bem feito e tem ótimas sacadas mas não creio que ele combine com o feeling mecânico do D&D. Tu mesmo tivestes que dar uns pulos pra ficar parecido, e olha que tua versão de Thedas é mais fantástica que a versão padrão né? Heuheuhe!

    Enfim, depois de terminar o witcher 3, comecei a procurar alguma tradução do sistema oficial do jogo (que só tem em polonês), achei uma não-oficial em inglês mas ainda tava na metade, não sei se vão terminar. De qualquer forma, acabei achando uma adaptação pra 5e no enworld (aqui http://tinyurl.com/ojkr5ld) e rolamos uma sessão. Parece estar bem legal até o momento, principalmente pela mecânica de prata e uso das regras alternativas do DMG (ótimo livro-toolbox), dentre elas o de descanso curto virar 8h e longo virar 7dias, entre outras, acho que conseguiremos fazer um jogo por vezes heroico com clima sombrio e brutal e sem ter combate o tempo todo.

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  2. Pode crer, me dava muita agonia ter que ficar catando fragmentos ad infinitum. E a história de qualquer sidequest do The Witcher 3 é superior à storyline do Inquisition hehe

    Interessante essa adaptação. Eu particularmente – e inevitavelmente – vou trazer boa parte do Witcher 3 pros meus jogos e pra essa minha Thedas esquisita. Por exemplo, como mestro uns 20 anos depois do Inquisition, já elenquei as semelhanças entre os Grey Warden e os Witchers e pensei que, sem novas blights e com uma situação cagada (a ordem nunca esteve tão decadente quanto no epílogo do DAI, e isso nem é spoiler), a maioria deles acabou virando matadores de monstros de aluguel :D

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  3. Hahaha sem problemas com spoiler, quando gosto de algum jogo eu acabo me spoilando nas wikis da vida.

    Da ultima vez que narrei DA, tinha pulado uns 10 anos depois do DAI também, mas pensei nos templários serem witchers já que eles ficaram meio sem propósito e mal vistos, além deles serem ótimos caçadores anti-magos/espíritos e usarem poções de lyrium. Também concordo das semelhanças com wardens em muitos aspectos. Talvez um misto de ex-templários e ex-warden poderiam fundar uma ordem de witchers.

    Ah sim, se fores usar o D&D5, reitero sobre usar muitas idéias do DMG pra dar um sabor próprio na tua mesa (trocadilho proposital).

    PS: continua postando, nem que seja com calma. Tava sentindo falta do birosca no meu feed, quando vi tinha 3 posts! Toma-te! LOL

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  4. É uma ideia também. Preciso pensar no assunto. :D

    Quanto aos Templários, na minha versão eles se mantiveram fragmentados. Uma parte continuou com (ou voltou para) a igreja, os Red continuaram “vilões”, os venatori se solidificaram em Tevinter e apareceram dezenas de outras ordens menores por aí. Uma delas é a dos paladinos, Templários de um deus do sol que vem se alastrando pela porção norte dos reinos (Game of Thrones feeling), e eles caçam criaturas do Fade em nome do deus.

    Sobre sua recomendação para usar o D&D5 acho que cê tá falando pra outras pessoas né? Porque como eu disse, eu já usei, hehe. Mas fiquei curioso que ideias exatamente do DMG tu fala. Inclui as regras opcionais de cura e tal?

    PS: continuarei!

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  5. Dan blz? valeu pelo post cara. Espero que (mesmo com tanto trabalho, sei que é difícil), o blog volta a voar. Vc disse que tem algumas coisas, monstros e tals. Pode por ai cara, compartilha. Estou usando tb aquele mapa invertido seu, que adaptei muita coisa nele.

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  6. Cara, saudades de ver postagens aqui na Birosca!
    Mas enfim, quanto ao Dragon Age, me apaixonei pelo cenário depois de ler os livros do jogador e conhecendo o The Witcher agora (por gameplays, meu pc é quase uma torradeira), sinto muita vontade de mesclar os aspectos de um no outro.

    Como comecei recentemente uma campanha em Thedas, um pouco anterior aos eventos do DA2, acho que vai levar um tempo pra startar a guerra dos Magos-Templários e poder utilizar a ideia Raphael (Wardens/Templários-Witchers), mas fico no aguardo pra tomar conhecimento das alterações que você faz no seu cenário.

    Apenas uma dúvida em relação ao sistema do Dragon Age (não encontrei menção á isso nos livros) é: além de entrar no Véu através de meditação e enfrentar o demônio, existe outra maneira de salvar um mago que se tornou uma abominação?

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  7. Sim sim, essas regras opcionais de cura e outras que tem pelo livro. Como eu disse, o livro é um enorme toolbox com dicas pra criação de mundo, aventuras, motivação de npcs etc e tem muitas regras opcionais pra 5e. Em resumo, da pra criar o cenário que quiser, se baseando nesse livro (mas pra esse sistema).

    De toda forma, eu também não curto mais nível/classe/pontos de vida da mesma maneira que antes. Vou testar essas regras justamente pra ver se tem como dar o feeling que desejo (que é bem próximo do que tu curte também). Vou dar essa força porque eu gostei muito de como a 5e funciona de maneira simples.

    Tentei savage worlds com DA uma vez, ficou ótimo mas ainda sinto que SW é muito crunch pro meu gosto, hehehe. Enfim, tô tentando desencanar da “batida perfeita”, mas é hard!

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  8. Henrique, tua dúvida é em relação à possibilidade de um mago rolar na tabela de magical mishap e ser possuído? Acho que podes usar isso de maneira não tão fatalista pro pobre jogador. Talvez naquela hora do combate ele seja possuído e cause problemas e dinâmica pro combate. Depois, podes azucrinar a vida do mago, usando o demônio como ferramenta narrativa e testes de vez em quando pra ver quem tá no controle. Mas tudo depende do acordo social, tem grupos que preferem consequências fatalistas mesmo sem olhar pra trás.

    Agora sobre uma abominação “full”, creio que entrar no Turvo e nas memórias/emoções obscuras do mago em questão seja uma quest MUITO legal de se fazer, a la inception.

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  9. Valeu, galera.
    Rapahel, vou copiar descaradamente sua ideia no futuro. Hehe
    Sério, me amarrei nessa ideia de adentrar no subconsciente do mago pra tentar compreender como funciona a dominação do demônio sobre o fantoche.

    Mas assim, sobre a parada do Magical Mishap, faz parte. Já falei com todos do grupo e concordam que é uma possibilidade (até mesmo as aventuras tem um foco mais sério, coisa nova pra essa galera) e que seria ok se acontecesse.
    Quanto ao demônio no ombro, sussurrando ideias e opções para um mago meio desesperado, é algo que seria interessante usar, mas tem que ser dosado pra não ficar tão na cara. Como uma npc atual, ela acabou sendo atacada por um grupo de soldados e aceitou que sou corpo fosse possuído por “Justiça” (muito chupinhado do Anders), que logo poderá se revelar algo pior.

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  10. Estou ansioso para testar a 5ª Edição, desde o início deste ano. Infelizmente, não houve tempo suficiente, estávamos jogando Game of Thrones, boa parte do grupo é composta por fãs, acompanha a série e já leu os livros.

    Mas espero que nos primeiros meses de 2016, estejamos jogando e testando a 5ª Edição, quem sabe até em Thedas.

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