O homem é o animal mais cruel

Quando eu era um jovem mestre iniciante, usava mais vilões e adversários humanos. Talvez pelas referências de animes, livros e filmes e/ou por não ter grana pra comprar os livros de AD&D (especialmente o dos Monstros). Geralmente estereótipos como mago maligno, guerreirão do mal, cultista-mor, etc. Era mais fácil fazer stats pra eles, porque eu já sabia como fazer enquanto jogador.

Ao longo dos anos, já com livros e internet, os oponentes dos jogadores ficaram cada vez mais monstruosos. Mesmo quando eram vilões, pertenciam a alguma raça monstruosa, como goblinóide, dragão, beholder, devorador de mentes, vampiro, entre outros. Só recentemente voltei a usar mais inimigos humanos. Talvez por ter largado o D&D em prol do Storytelling, um jogo que – não sei explicar a razão – me faz buscar mais referências fora da fantasia “d&deica”, como cinema e literatura, e estruturar melhor as histórias.

Quem sabe eu tenha o vício de tratar jogos D&D-like mais como videogames, com estrutura mais manjadona e com desafios e inimigos mais leves – nada errado nisso, eu mestro Old Dragon sempre que a gente quer um jogo mais dungeon crawl old school -, e o meu Fantasytelling como uma oportunidade de contar histórias mais “sérias”, de narrativa bem amarrada, menos “gamista”.

Tenho pensado muito no assunto, ironicamente, após jogar centenas de horas de The Witcher 3 (o único lazer que tenho tido, na verdade :P), meu top 3 de videogames, RPG eletrônico predileto e o jogo com melhor e mais profunda e bem feita história que já vi.

Imagino que o fato do vilão/antagonista ser um monstro meio que o desumanize e poupe um pouco o interlocutor de reflexões incômodas, porque ele não se identifica com o personagem. É a mesma coisa de inimigos robôs; é mais difícil sentir remorso por um beholder ou golem do que um humano ou anão. Mas nada, amigo, nada se compara a humanos. Somos a espécie mais errada existente, uma raça teoricamente “do bem”, mas que graças a uma infinidade de fatores pode dar incrivelmente errado. Uma raça incrivelmente fácil de corromper e com gosto por intriga e política.

Em mundos de fantasia, as outras raças “bondosas” tendem a vilanizar os humanos. O homem se perpetua rápido e altera o ambiente à sua volta, geralmente de forma destrutiva. E no processo, expulsa e toma as terras de qualquer um que se interpôr a seu desejo ambicioso de conquista, seja de outra raça (elfos, fadas, anões, orcs…) ou a sua própria (bárbaros, índios, etc). Nos mundos de The Witcher e Dragon Age isso é bem acentuado, com humanos inferiorizando as raças não-humanas true detective 2a ponto delas se rebelarem e se tornarem perigos de estrada ou até mesmo ameaças de guerrilha reais.

Isso tudo torna os humanos um receptáculo absurdo de maldade, ótimos de usar pra dar aquela provocada nos jogadores. Afinal, o mal tem um rosto bem parecido com o seu. Poderia ser você ali, chacinando vilarejos inocentes em nome de uma divindade, ou assassinando magos na cidade. Fica melhor ainda se aquele(s) vilão(ões) tem alguma profundidade, especialmente se acham que estão corretos ou algo do tipo.

A primeira temporada de True Detective (cujo mote entitula o post e a imagem dele) é praticamente uma ode à monstruosidade humana, incluindo seitas malucas e caipiras bizarros da Louisiana. Lugares inóspitos e rurais costumam esconder muita coisa assustadora, aliás. Um dos melhores episódios de Supernatural chama-se The Benders (S01E15), onde eles se metem com caipirias canibais, Dean diz uma frase excelente: “Well, I’ll say it again. Demons I get. People are crazy”. Ou seja, não dá pra saber o que esperar de humanos, enquanto monstrengos geralmente possuem modus operandi até estudável.

Pensando nisso, imagine agora o que se esconde naquela vila aparentemente acolhedora onde os personagens chegam. Imagine que as pessoas fazem sacrifícios rituais de viajantes incautos para acalmar um demônio na montanha por algum motivo. Os PJs vão matar todo mundo na vila, crianças e velhos incluídos? É interessante. Outro episódio de Supernatural (Scarecrow, S01E11) é parecido, e nesse caso o povo da cidadezinha sacrifica viajantes para uma entidade-espantalho e mantém o lugar com boas colheitas).

Alguns inimigos monstros são quase humanos (narrativamente falando), como mortos-vivos e dragões. Dá, claro, pra humanizar quase qualquer vilão dando uma boa história pra eles – orcs de Warcraft, por exemplo. O bugbear foi criado sociedade selvagem e sanguinolenta, o beholder se ressente de magos como aquele que criou sua bizarra raça, o vampiro ou lich foi humano um dia.

Meu melhor vilão era assim. Um cavaleiro e um mago que tomaram caminhos separados. Anos depois, o cavaleiro teve sua vida destruída pelo reino que servia e para realizar sua vingança bélica recebeu a ajuda do mago, agora um lich, que desejava desenterrar um dragão antigo morto para roubar seu poder e usou as forças do cavaleiro para cavar a tumba do dragão, paralelamente à sua campanha. A campanha teve uma reviravolta quando o grupo foi, um por um, ficando do lado do cavaleiro e junto com ele destruíram o lich, que revelara o plano quando não precisava mais de força de trabalho. Resumi a campanha inteira e fiz vários contos sobre ela no blog, aliás.

Engraçado que no meu breve período de recaída ao D&D (com a 5E), estava voltando a usar bem mais monstros, mas ao voltar ao meu sistema, voltei aos vilões e adversários humanos e afins.

E assim devo continuar, lembrando da maldade interior de todo humano.

6 comentários em “O homem é o animal mais cruel

  1. Pensando com você, nas minhas últimas narrativas só usei vilões humanos. Principalmente depois que assisti Criminal Minds e vi os diversos tipos de personalidades criminosas (desde o psicopata frio e solitário ao psicótico violento), passei a utilizar os antagonistas humanos em vasta quantidade.
    Criei inclusive uma tabela de consulta rápida que com alguns lances de dados me permite criar um antagonista, saber do seu modus operandi, personalidade, maneirismos e profissão.

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  2. cara, eu sempre uso humanos como vilões.
    dificilmente coloco um dragão ancestral ou algo assim, quando coloco um animal feroz q deve ser destruído, por trás dele há um humano maquiavélico
    acho super interessante essa humanização nos cenários de aventura, pois como vc disse o humano na fantasia medieval está um pouco longe dos estereótipos, o que torna o jogo mais apreensivo e interessante.

    quem quiser conhecer meu cenário é só entrar em
    http://cancoesdasluasdeinverno.blogspot.com.br/
    abraço!

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