Um Halloween à brasileira

O Dia das Bruxas (ou Dia do Saci, aqui) surgiu entre os celtas, que associavam o início do ano e do inverno aos mortos. Eles acreditavam que durante a noite havia criaturas sobrenaturais à solta, e isto com o tempo virou uma festa de fantasias de monstros e mídias temáticas.

Não sou muito ufanista, mas também temos lendas bacanas. Elas são uma mistura de mitos indígenas, europeus e outros povos e – como toda lenda original – educavam crianças por meio do medo.

Nossa memória de folclore (folk lore) vem de Monteiro Lobato, e nós nerds achamos tosco ou infantil. Mas essas lendas não são palatáveis para o RPGista médio porque não parecem evocativas o suficiente para o nosso ideal – eurocêntrico – de fantasia.

Então, trago aqui as lendas originais com dicas para adaptá-las ou apenas deixá-las com “mais cara de RPG”.

Boitatá

Um monstro com grandes olhos de fogo que vê tudo à noite mas é cego de dia. Uma cobra que sobreviveu a um dilúvio em um buraco escuro, onde seus olhos cresceram. Desde então, caça restos de animais nos campos e persegue viajantes noturnos. Pode ser vista como um facho cintilante de fogo ziguezagueando pela mata (a incendiando ou protegendo do fogo). Outras versões dizem que comem olhos de animais mortos (ficando com olhos grandes e incandescentes), ou viram toras em chamas para queimar vítimas.

No Nordeste é chamado de Cumadre Fulôzinha. Os índios chamam de Mbaê-Tata ou Coisa de Fogo, que mora no fundo dos rios. Pode ser uma alma penada (ou maligna), queimando os campos onde passa. Africanos trouxeram o mito do ser das águas profundas que caça à noite.

No RPG: quer um monstro mais legal que uma cobra de fogo gigante que maltrata aventureiro que solta fireball na floresta? Boas histórias incluem caçadores ou monstros goblinóides (os maiores buchas da história rpgística) fazendo besteira numa floresta e invocando a ira do bicho, ou mesmo um druida maluco invocando a serpente para descontar suas frustrações no povo das aldeias próximas a uma floresta.

Em cenários modernos/futuristas/sci-fi é melhor ainda – o boitatá pode representar um espírito da natureza em processo de extinção ou uma forma de vida cujo sistema estelar foi destruído e agora quer se vingar em qualquer um (alguém aí assiste Doctor Who..?). Você pode usar, aliás, a ficha do fogo-fátuo do seu bestiário favorito para representar esta lenda, já que ela surgiu desse mesmo fenômeno.

Boto Cor-de-Rosa

Uma lenda criada para justificar gravidez fora do casamento. Dizem que, durante as festas juninas, um boto rosado se transforma em rapaz elegantemente vestido de branco e com um chapéu para cobrir a grande narina que não desaparece do topo de sua cabeça com a transformação. Ele seduz as moças desacompanhadas, as leva para o fundo do rio, e as engravida em alguns casos. Quando um rapaz desconhecido aparece em uma festa usando chapéu, pede-se para que ele prove que não é um boto.

No RPG: ok, uma lenda meio censura 18 anos. Mas não tem problema – e se o boto levasse uma moça incauta para o rio do amor e, meio que por acidente, deixasse ela cair na mão de uma bruxa, um culto maligno ou alguma outra entidade realmente danosa.

Vai que algumas das moças, quando escapam das mãos do bichinho, caem na boca de um bicho maior, e ele nem sabe disso. Ou então, um pai irritadíssimo organiza uma caça ao boto, que seduz uma moça do grupo para ela convencer os heróis a ajudá-lo!

Cobra Grande

Uma das mais conhecidas lendas do folclore amazônico (e, devo admitir, com um nome pra lá de piada pronta). Diz a lenda que uma índia ficou grávida de uma sucuri (!?) e deu à luz um casal de gêmeos, que na verdade eram cobras. A mãe jogou as crianças no rio, onde se criaram. O menino era bom, mas a menina cresceu perversa. O rapaz acabou matando a irmã para pôr fim a suas perversidades.

Em algumas noites de luar, perdia o seu encanto e deixava as águas para levar uma vida normal na terra, como um belo jovem. Dizem que, se alguém derramar leite na boca da enorme cobra e fazer um ferimento na cabeça até sair sangue, o rapaz se libertará da maldição.

Outra versão diz que uma índia perversa (que inclusive devorava crianças) foi atirada pela tribo no rio, para morrer afogada. Mas Anhangá, o gênio do mal, decidiu casar-se com ela e dar-lhe um filho, transformado em uma cobra para viver dentro do rio.

A cobra devorava os peixes e iluminava seus olhos fosforescentes, para vagar pelos rios e praias, espreitando à caça de homens, para devorá-los. Quando sua mãe morreu, a dor e ódio fizeram seus olhos atirarem flechas de fogo no céu, que se transformavam em coriscos.

Dizem que depois desse dia, ela vive adormecida sob as grandes cidades, acordando apenas para assustar as tribos, com relâmpagos nas tempestades.

No RPG: quem já viu um filme ruim chamado Anaconda tem milhares de ideias pra usar uma lenda destas. Ela também cheira a profecias e remete à lenda de Beowulf: e se os PJs matam a cobra, e sua mãe acorda, fula da vida, e é um bicho poderosão?

Cuca

Uma das mais clássicas lendas contadas por babás e mães para amedrontar crianças; É uma assombração, um bicho papão que aparece à noite para amedrontar e carregar em um saco as crianças que permanecem acordadas, fazendo travessuras. Tem a aparência da bruxa clássica, uma velha enrugada e corcunda, com enorme garras de gavião, mais popularmente conhecida por ter cara de jacaré. Uma das origens possíveis da aparência e nome vem de um dragão português chamado coca.

Ela leva as crianças para a sua caverna, onde as devora. A Cuca dorme uma noite a cada 7 anos (essa característica reforça as cantigas dos pais para que as crianças durmam), e seu grito de ódio pode ser ouvido a légua de distância.

No RPG: esta lenda é a clássica da bruxa que conhecemos na fantasia. Você pode usar esse gancho aqui (jabazão!) ou mesmo criar uma história onde crianças começam a sumir, e descobrimos que é uma cuca pegando os moleques que ficam até tarde jogando MMOs…

Curupira (ou Caipora)

Variedades do caipora incluem o Anhanga, um ser maligno que causava doenças ou matava os índios; o El Cipitío, de El Salvador, um espírito tanto da floresta quanto urbano, mas prefere seduzir as mulheres. Conforme a região, pode ser uma mulher de uma só perna, uma criança de um só pé redondo ou um gigante montado num porco-do-mato, seguido por um cachorro medonho chamado Papa-mel.

Também conhecido pelos Guaranis como Demônio da Floresta, o curupira é um espírito protetor das matas, que pune os agressores da natureza e caçadores que matem por prazer. É poderoso e forte. Tem a forma de um anão de cabelos vermelhos com pelo e dentes esverdeados, com pés voltados para trás a fim de despistar caçadores, fazendo-os seguir rastros falsos.

Quem o vê se perde irremediavelmente. Para atrair suas vítimas, costuma chamá-las com gritos que imitam voz humana. Às vezes é visto montando um porco-do-mato. Dizem que ao entrar na mata, a pessoa deve levar um rolo de fumo para agradá-lo, no caso de cruzar com ele. Também rezam que ele pode ressuscitar animais mortos, é pai do Saci Pererê e gosta de transformar os filhos e mulher de caçadores malignos em caça, para que o próprio os mate sem saber.

No RPG: mesma linha de histórias do Boitatá. Podemos perverter um pouco a lenda e deixar o curupira meio paranoico, principalmente em cenários modernos – hoje em dia, que caça não é predatória? Qualquer um que aparecer na floresta pode ser um caçador inescrupuloso em potencial. Isso quando você não usa uma estética Deuses Americanos/Fábulas; nesse caso o curupira fica ainda mais legal, um malandro dos becos que faz gente sem vergonha se perder.

Iara

Pescadores contam histórias de rapazes que cederam aos encantos da sereia Uiara e terminaram afogados de paixão. Ela deixa seu covil no fundo das águas no fim da tarde, e surge com cabelos enfeitados. Por vezes assume a forma humana e sai em busca de vítimas. Ela hipnotiza tão fortemente os pescadores que certa vez um índio fugiu, mas acabou voltando e mergulhando para nunca mais voltar.

No RPG: sereias! Em aventuras aquáticas, são indispensáveis. Como a Iara é uma sereia de rio, é ainda mais fácil usar em qualquer história de fantasia. Se você considerar a habilidade de virar humana, histórias estilo Supernatural se tornam muito mais possíveis.

Mula-sem-Cabeça

Faz aparições em noites escuras, em pequenos povoados com casas rodeando uma igreja. Também se alguém passar correndo diante de uma cruz à meia-noite. Dizem que é uma mulher amante de um padre, tornando-se amaldiçoada, e toda madrugada de quinta para sexta-feira vai a uma encruzilhada e se transforma na besta. Então, percorre sete povoados ao longo da noite, e sorve os olhos, unhas e dedos de quem encontrar.

Apesar do nome, dizem que ela aparece como um animal forte e inteiro, lançando fogo pelas narinas e boca, onde tem freios de ferro.

Nas noites em que sai, ouve-se seu galope, acompanhado de longos e aterrorizantes relinchos. Às vezes, parece chorar como se fosse uma pessoa. Ao ver a Mula, deve-se deitar de bruços no chão e esconder unhas e dentes para não ser atacado. Se alguém tirar-lhe os freios da boca o encanto é desfeito e a Mula volta a ser uma mulher, livrando-se para sempre da maldição. No méxico, é chamada de Malora.

Os modos de quebrar o encanto variam. Há casos onde, para evitar que a amante sofra a maldição, o padre deve excomungá-la antes de celebrar a missa. Pode ser um leve ferimento feito com um objeto pontudo, onde saia sangue, para quebrar o encanto. Às vezes, o próprio padre é o amaldiçoado. Assim, torna-se um Padre-sem-cabeça, ora a pé, ora montado em um cavalo do além (tipo o Cavaleiro sem Cabeça). Às vezes é um animal negro com uma cruz branca no peito.

No RPG: a Mula lembra muito o Pesadelo Voador do D&D na aparência, mas com uma história muito mais legal IMHO. Considere que a equina em questão é a irmã de um PJ e você tem um grupo desesperado tentando resolver a maldição.

Negrinho do Pastoreio

Dizem que no inverno, um estancieiro malvado com negros e peões mandou um negrinho pastorear cavalos e potros recém-comprados. Dizendo que faltava um cavalo baio, o estancieiro o surrou com o chicote até o sangue, e foi achar o baio pastando longe dali. Laçou o cavalo, mas a corda se partiu e o animal fugiu. De volta, o patrão espancou o menino e o amarrou, nu, sobre um formigueiro.

No dia seguinte, ao ir ver o estado da vítima, se assustou. O negrinho estava de pé, sem marcas de chicotadas. Ao seu lado, a Virgem Nossa Senhora, o baio e os outros cavalos. O estancieiro pediu perdão, mas o menino apenas beijou a mão da santa, montou o baio e partiu conduzindo a tropilha.

No RPG: use o pós-lenda e considere o menino um justiceiro implacável, que toca o terror para patrões rígidos ou injustos demais, e deixe seus jogadores com um gigantesco dilema em mãos.

Papa-Figo

Este mito lembra uma pessoa comum, ou um velho mendigo com um saco nas costas (o Homem do Saco). Na verdade, pouco aparece, mandando seus ajudantes em busca de vítimas. Estes usam vários artifícios para atraí-as (todas crianças), como dar presentes, doces, dinheiro, brinquedos ou comida. Agem em lugares públicos ou portas de escolas, parques ou locais desertos. Levam então a vítima para o sujeito, que sofre de uma doença sem cura, o crescimento anormal das orelhas. Diz a lenda que, para aliviar os sintomas da terrível maldição, o Papa-Figo precisa se alimentar do fígado de uma criança. Ele deixa então muito dinheiro com a vítima, para o enterro e compensação da família.

No RPG: este Papa-Figo parece ter muita grana, hein? O que impede de ele ser o barão recluso, ou um multimilionário amaldiçoado? Ou mesmo o prefeito altamente benfeitor de uma cidade pequena. Será um problemão descobrir que as crianças vem sumindo e reaparecendo sem fígado graças à doença rara e esquisita do Sr. Burns.

Saci Pererê

A lenda do Saci era usada por amas-secas e caboclos-velhos para assustar crianças com relatos de suas travessuras. Em alguns lugares é considerado um ser brincalhão, mas em outros um espírito maligno. É uma criança negra de uma perna só, que fuma um cachimbo e usa uma carapuça vermelha na cabeça que lhe dá poderes mágicos, como desaparecer e aparecer onde quiser.

Existem 3 tipos de Saci: o Pererê, o mais escuro; o Trique, moreno e brincalhão; e o Saçurá, com olhos vermelhos. Ele também se transforma em uma ave chamada Matiaperê, cujo assobio melancólico nunca se sabe de onde vem.

Ele gosta de travessuras, como esconder coisas, soltar animais dos currais, derramar sal nas cozinhas, trançar crinas de cavalos, etc. Dizem que dentro de todo redemoinho de vento existe um Saci. Ele não atravessa córregos nem riachos, e se alguém joga cordas com nós em seu caminho, sempre para a fim de desatar os nós, deixando que a pessoa fuja. Alguns dizem que ele tem as mãos furadas, e sua maior diversão é jogar uma brasa (ou uma moeda) para o alto e deixá-la atravessar os furos.

Se alguém jogar um rosário de mato bento ou uma peneira no redemoinho, pode capturá-lo e, se pegar sua carapuça, terá um desejo realizado.

Outras lendas rezam que bandos de Sacis se unem à noite para planejar as travessuras, e que ele pode se transformar no que quiser – ora aparece acompanhado de uma horrenda megera, ora sozinho, ora como uma ave.

No RPG: melhor criatura de todas, pra mim. Um diabinho matreiro, capaz de enlouquecer qualquer grupo de PJs e ainda fazer maldades mil. Essa característica de desatar os nós, bem como o jeitão do saci, nos lembra o leprechaun, que em algumas versões se sente obrigado a contar os grãos de sal jogados à sua frente (que maldade!). Um Saci pode enlouquecer e começar a fazer maldades maiores, ou uma travessura pode acabar em mortes, obrigando os heróis a investigar e sofrer.

Outras lendas

Fora essas lendas principais, temos ainda muitos mitos menores, todos bem reconhecíveis. Eis alguns deles:

  • Andurá uma árvore que, à noite, se inflama subitamente
  • Boiuna grande cobra escura, capaz de virar embarcações e imitá-las para atrair náufragos ao fundo do rio; lembra o kraken
  • Caboclo d’água um ser troncudo e ciclope, que vira e afunda barcos; os pescadores lançam fumo na água para acalmá-lo ou fazem carrancas nos barcos para esconjurá-los; lembra um scrag
  • Capelobo uma espécie de lobisomem, com crina, focinho e muito feio
  • Cabra cabriola animal monstruoso que come crianças travessas
  • Chupa-cabra criatura vampírica que atacou animais rurais em várias regiões das Américas
  • Corpo-seco um homem que bate na mãe, e ao morrer é rejeitado por Deus e o diacho, e se incorpora a árvores que crescem em cima de sua tumba quando elas secam; ente?
  • Diabinho da garrafa um pacto selado com uma criatura gerada de um ovo de galo dentro de uma garrafa de cachaça
  • Mãe-de-ouro uma mulher brilhante e voadora que toma a forma de uma bela garota que mora em cavernas e atrai homens casados, fazendo-os se separar de sua família; como ninfas e dríades
  • Mapinguari um animal vermelho com pés virados, garras, pele de jacaré e fedor de gambá
  • Pisadeira velha que sobrevoa os telhados, à espreita de alguém que vai dormir de estômago cheio, de barriga para cima; ela senta ou pisa no peito da vítima, paralisando-a

Fontes: Wikipédia, Sumauma e Arte Educação.

12 comentários em “Um Halloween à brasileira

  1. Sabe, o curupira tem potencial pra se transformar numa raça jogável D&Dlike…

    Se vc despir a cara folclórica do curupira e aplicar neles o mesmo processo que Tolkiem aplicou nos elfos nórdicos, teríamos do curupira um elfo 100% nacional.

    Pensando agora, seria extremamente interessante um elfo das selvas, exatamente com características de um curupira.

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  2. Excelente post Dan. Muito bom mesmo. As nossas lendas não realmente muito valorizadas, creio que em parte por causa da “infantilização” do Lobato, e mais ainda pela falta de informação do povo. Muita gente só as conhece por conta do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Já as lendas européias, apesar de terem sido infantilizadas por uma série de autores são sempre trabalhadas em filmes, séries ou livros mostrando o seu lado sombrio e melancólico, vide as Fadas.
    Como não temos algo assim por aqui, essa releitura ou resgate das origens, permanecemos com essa visão de mitos infantis. Como você bem falou os mitos brasileiros são tão interessantes quanto os outros e podem ser muito bem usados nos RPGs, tanto nos de fantasia clássica como moderna e futurista.
    Eu mesmo já pensei em releituras desses mitos quando pensei em fazer uma “Hogwarts” brasileira. Mas parei o projeto por falta de tempo.

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  3. Caraca, Dan! Muito bom! Tapa na cara de quem diz que comemora Halloween porque “no Brasil, as lendas são paias”…

    Gostei do Boitatá! Nada mais D&D do que uma cobra de fogo voadora gigante!

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  4. Não consigo. O tom folk, em termos de imaginação camponesa mesmo das lendas brasileiras, não me ganha. Entendo o esforço e as ideias, mas, até hoje, sendo bem honesto, não consegui fazer nenhum tipo de uso imaginativo desses elementos. Aliás, parando pra pensar, não é a questão de ser lenda brasileira… é a questão de seu formato indígena. Nunca consegui fazer uma boa articulação, na minha cabeça, desses mitos. Claro, usando o seu método, de extrair o “molde”, fica fácil. Mas, ao mesmo tempo, acaba que vira o uso de um arquétipo bem mais amplo (criaturas pequenas e travessas e mulheres dotadas de magia são praticamente arquétipos universais).

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  5. Entendi. Talvez no seu caso seja uma melhor pedida pegar pelo contexto, como usar no Lajedos & Lagartos de Elfo.

    Mas eu não sei se retirar o arquétipo perde a validade não, Mário. Ok que duendes tem em qualquer lugar, mas o Saci tem várias particularidades (o chapéu que lhe dá poderes, o rodamoinho, as pegadinhas, a forma de pássaro…), bem como o Boitatá, que tem toda uma quantidade de lendas apavorantes (os olhos incandescentes e enormes, a tendência de atacar caçadores…). O curupira então lida com ironias interessantíssimas, como os pés virados que fazem você se perder e a capacidade de transformar as pessoas em caça. Isso dentro de um grupo de jogo seria foda, com os jogadores na maior paranoia (digamos que o curupira D&Dzado transforme certos pjs nos goblins que os jogadores têm caçado, porque ele é adorado por essas criaturas).

    No meu jogo de Supernatural, usei a ideia do Curupira para simular alguns poderes de uma bruxa na floresta, que fez parte dos PJs ver outros como zumbis do mal e terem que lidar consigo mesmos.

    Supernatural, aliás, é um dos melhores exemplos de capacidade para releitura de lendas que já vi (por mais que você odeie a série, não pode negar XD), junto com caras como Tim Burton e Guillermo Del Toro.

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  6. A própria fantasia Europeia (usada em OD) já é o mito tratado, refinado e devidamente industrializado. Se fosse servida in natura até os maiores papa paus achariam-na intragável.

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  7. Entendo o que o @jagunço diz, e acho que deva-se por estar muito ligado ao ambiente, à cultura.

    Como muitas dessas lendas foram criadas para tentar explicar muitos dos acontecimentos estranhos e sem resposta que aconteciam por essas bandas, fica um pouco complicado imaginar um cenário com outras características, com tais criaturas enfiadas sem um bom motivo (afinal, grande parte dos cenários está mais para o medieval europeu que qualquer outro).

    Aplicar os moldes, como “cobra de fogo voadora gigante” do Boitatá, realmente facilita, mas não faz com que os outros pensem no Boitatá. Se me fizessem essa descrição, muito mais lembraria um Dragão Oriental incandescente que qualquer outra coisa, na boa.

    Talvez, ao invés de aplicar os moldes ou fazer tais criaturas existirem “forçadamente” no cenário, poder-se-ia buscar “os pares”. Isso é, achar aquelas criaturas de nossa cultura que assemelham-se com os de outras culturas e são mais usados em aventuras de RPG e dizer que é uma “espécie”, que são parente distantes, que obtiveram tais características distintas, por conta da região que habitam.

    Daí, uma explicação para um Curupira (“um elfo das selvas”, como Mr. Pop disse) estar numa região diferente da sua tradicional, seria o intercâmbio de culturas; ou por alguma espécie de encontro anual, bienal, decenial, vigintenial; ou algo como os animais fazem, de épocas em épocas vão a alguma região por ser mais propícia para certo ritual (acasalamento, casamento, etc).

    Isso daria espaço, inclusive, para a existência das variações das diversas lendas, não só daqui, como também, das de outros lugares.

    Claro, isso foi o que veio à minha cabeça. Talvez faça sentido para vocês, como talvez não faça. O que importa é que, aqui, ficaram meus 2 cents xP

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  8. Bem, concordo com o que foi dito pelo @jaçunco e pelo @ErickPatrick, com reservas. A ideia é deixá-los genéricos sem deixarem de serem mitos e criaturas particulares. Se entendi bem, essa proposta de adaptação (sintam-se livres pra criarem outras formas, afinal lenda brasileira é o que não falta) é uma forma de tirar os nomes que já trazem um forte imagem da cabeça e adotar outros nomes, com roupagens adaptáveis a seu cenário favorito.

    Discordo do @ErickPratick por acreditar que, caos o Mestre/DM/Narrador me apresentasse um bicho desses ai, apenas em descrição, certamente caberia uma busca pro lendas e, ai, o narrador poderia dizer quais são as características deles, até mesmo dizendo: Olha, esse
    bicho ai parece com o Boitatá foclórico brasileiro?

    Sugestão de leitura complementar ao post, @Danramos, é um livro do Luis da Câmara Cascudo que fala sobre o Foclore Nacional, o Dicionário do Foclore Brasileiro. Não li ainda, acho que o @Danielfo leu, e quem eu conheço que leu, gostou.

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  9. O Halloween trazido por algumas escolas de língua inglesa para o Brasil e pala mídia, está cada vez mais ganhando espaço no folclore brasileiro, cabe a nós educadores dar um toque à brasileira, como adicionar nossa cuca à figura da bruxa européia, não esquecer de adicionar nosso lendário saci-pererê, no seu dia 31-10, e é a globalização unindo culturas, para embelezar cada vez mais a nossa cultura, que é extraordinária como as demais. Uma cultura que atualmente custa 17 bilhões de dólares, acaba influenciando outras, quem sabe, com essa iniciativa possamos divulgar e vender a nossa própria cultura. Aproveitar as oportunidades não faz mal a ninguém. Estou aproveitando para divulgar o soneto de Augusto dos anjos:

    O morcego

    Meia-noite, ao meu quarto me recolho.
    Meu Deus ! E este morcego! E, agora, vede:
    Na bruta ardência orgânica da sede,
    Morde-me a goela ígneo e escaldante molho
    ” Vou mandar levantar outra parede …”
    – Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
    E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
    Circularmente sobre minha rede
    Pego de um pau. Esforços faço. Chego
    A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
    Que ventre produziu tão feio parto?!
    A consciência humana é este morcego!
    Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
    Imperceptivelmente em nosso quarto.

    Um abraço,
    CSSS

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