Conto – Good times

WOOOOOOOOOOOOOSH

Os planadores ensurdececiam rasando por cima dos caras, mas ShinRa não estava nem aí – deixava os fones ligados no máximo enquanto se divertia. Era bom para caralho no que fazia, e nada atrapalhava sua mágica. Post-hardcore e dubstep eram os sons perfeitos para a guerra.

A infantaria escrota percorria becos fudidos na cidade em ruínas. Um sol vermelho castigando todo mundo, ruas labirínticas e escória pra todo lado, implorando pra morrer. A bateria do fuzil miava enquanto cuspia insanamente balas de grosso calibre nas cabeças de montes de fucking formas de vida.

Caras do seu batalhão passavam por ele, e ele lhes dava cobertura (depois cobraria umas rodadas de cada um). Lá de cima, os rapazes tresloucados da infantaria mecha explodiam naves inimigas como se não houvesse amanhã, passando em voos cortantes e levantando poeira do deserto onde passavam. Irado!

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Contos do God-Machine (autor convidado)

Há quanto tempo, pessoal. Estou passando por uma fase conturbada e fiquei duas semanas sem postar aqui, mas ontem apareceu uma oportunidade de trazer um excelente material traduzido pelo Eduardo Soares, da lista de discussão da Redbox.

Ele planeja traduzir os contos do suplemento gratuito do World of Darkness, que é a parte de atualização de regras contida no cenário God-Machine. Esta ambientação é uma expansão do conto A voz de um anjo, do livro básico do Mundo das Trevas.

A ideia é que o mundo seria parte de uma grande máquina que muitos tentam usá-las para seus próprios fins. Temos espíritos e anjos cibernéticos bizarros, horrores antigos e no meio disso meras pessoas comuns que abrem os olhos para a bagunça inteira.

Você pode ler mais sobre o cenário e baixar gratuitamente a atualização de regras através deste meu post na fanpage.

Então aí vai a história, curtinha e bem legal. :)

Nós saímos para passear na neve. Juntos. A mudança no cenário caiu como uma luva – a briga ‘meio-que-começada’, esquecida, aliviada pelo mundo exterior e a fria noite de novembro. Foi então que o encontramos. Estava deitado, torcido e quebrado, sob uma árvore no fim da estrada. Alguma coisa deve tê-lo atacado. Fiz uma careta, engoli em seco, e disse que iria buscar uma pá. Colocaria fim ao seu sofrimento.
Ela ficou com ele, ajoelhada na neve. Eu olhei para trás conforme comecei a subir a colina, e ela estava se aproximando para toca-lo. Quando eu retornei, ele estava lambendo sua mão com uma língua longa, piscando lentamente. Parecia que ele sobreviveria, afinal.
Ela sorriu pra mim, aliviada e feliz. Amanhã, ela voltará ao trabalho no hospital. Essa noite, ela não precisará assistir nada morrer.
Ele voltou conosco. Uma caixa de cartolina embaixo da mesa da cozinha, revestida com um velho cobertor. Algum lugar onde possa se curar, e então seguir seu caminho.
ELE NUNCA PARTIU.
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Ela o chamava de seu Pequeno Anjo. Amava-o. Ele comia mais do que nós e sua cama, nunca usada, ficava próxima ao fogão. Dia após dia eu voltava depois de uma longa jornada para encontrá-lo do meu lado da cama, piscando para mim com seus malditos olhos cinza.
Depois da primeira vez em que resolvi reclamar sobre isso, nós brigamos. Após isso, sempre que ele estava lá, eu dormia no sofá. Eu acho que entendo – Ela precisava de algo para lhe fazer companhia, quando eu estava fora. Por que ela não deveria ter um bicho de estimação?
ENTÃO ELA FICOU DOENTE.
Eu pedi alguns favores na agência, troquei alguns dias para poder ficar em casa no Dia dos Namorados. Cheguei em casa depois de escurecer, flores atrás das costas, esperando surpreende-la. Ela estava deitada inconsciente no sofá, seu Pequeno Anjo lambendo-lhe as pontas dos dedos.
Na Sala de Emergência, recebo notícias, assim que conseguem fazê-la se recuperar. É tratável, eles dizem. Eles não precisavam acrescentar o “mas bem caro”.
Eu não posso perdê-la, não a minha Becky. Trabalhei todos os turnos que me ofereceram, por todo o país de novo e de novo, desesperado tentando acompanhar as contas. Eu coloquei na cabeça que se eu conseguisse dirigir rápido o suficiente, correndo pela noite, então eu conseguiria alcançá-la. Salvá-la. Traze-la de volta comigo.
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Não é o suficiente. Eu posso dizer, assim que retorno, exausto de mais uma longa jornada, que ela piorou. As janelas estão todas fechadas, e interior da casa parece uma sauna durante o calor do verão. Ela diz que está com frio mesmo assim, e eu posso ver em seus olhos. Ela sabe que não tem muito tempo.
Eu fico com ela, abraçando-a, ignorando todas as ligações da agência. Deixe que eles me demitam.
Eu a abraço enquanto ela me deixa. A ambulância chega tarde demais.
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Eu ouço suas condolências, preencho seus formulários, e vagarosamente volto para a escuridão da casa vazia. Eu sento, chorando, no canto da cama. Ainda posso sentir o cheiro dela ali.
A PORTA SE ABRE. O ANJO ENTRA. ELE ARREGANHA SUAS PRESAS FINAS COMO AGULHAS, E EU VEJO COMO ELE REALMENTE É PELA PRIMEIRA VEZ.

Conto – Big Problem in Little Ostagar

Aqui um pequeno reporte romanceado de uma sessão de Dragon Age RPG que jogamos no último sábado, para situar um jogador (e porque me deu vontade, hehehe). Basicamente somos personagens de 4º nível que salvaram a vila de Vintiver (a aventura que vem no Guia do Mestre), fomos assaltados e nocauteados por um bando de bandoleiros e acordamos na vila de Leinster, onde nos envolvemos com uma praga cinzenta (a primeira aventura do Sangue em Ferelden) e nos metemos com os chasind, bárbaros florestais na fronteira sul de Ferelden (Morrigan é uma chasind). Meu personagem é um anão ladino exilado (duster) que serve o Bann Teagan e foi “emprestado” para servir o Ser Garrick, capitão das forças de Redcliffe e pai da guerreira nobre Kelsie (Bianca) em uma missão: levar a elfa maga do círculo Fiora (Renato) para investigar a vila de Vintiver, que ela viu em um sonho. Lá conhecemos um lenhador chasind que chamamos de Cenoura (Elisa), que começou a namorar Kelsie e virou nosso amigo. Mais tarde, após resolver a praga cinzenta, conhecemos o cavaleiro Ser Kenan (Diego), irmão de Kelsie vindo de Redcliffe para encontrar a irmã a fim de juntos resolverem um assunto familiar.

Após desventuras com os chasind nas florestas korcari, os companheiros regressavam a Redcliffe no passo mais rápido que conseguiam. Cenoura tinha um ferimento cicatrizando nas costelas, e o vento frio já denunciava que o inverno estava vindo. Eles precisavam alcançar Ostagar, a majestosa ruína tevinteriana, para tomar a Estrada Imperial e chegar rapidamente ao seu destino. Ostagar era uma enorme fortaleza incrustada em dois montes escarpados, na fronteira entre os Ermos Korcari e o reino de Ferelden. O vento soprava em seus corredores e câmaras vazios a maior parte do tempo, porque ela era grande demais para ser ocupada, e só era preciso se aquartelar nela quando havia alguma ameaça nas porções sul da terra.
Os viajantes ficaram impressionados ao contemplar aquelas ruínas seculares, embora Faldrik, jamais despojado da impáfia anã, não admitisse. Vieram pelo reito do rio seco entre os dois montes, a forma mais comum de acessar o território vindo do sul. Os irmãos Kelsie e Ser Kenan, que lideravam a comitiva, organizaram uma pequena expedição para averiguar a enorme fortaleza e se certificar de que era seguro passar a noite ali – era contra a lei ocupar Ostagar sem ordens oficiais, mas aquela área era perigosa e não seria o primeiro encontro com bandidos para os companheiros.
Assim, Cenoura e Faldrik seguiram para a ala oeste através da grande ponte que ligava os dois morros, Kelsie e Ser Kenan foram em direção à Torre de Ishal – o maior farol que Thedas já viu -, e Fiora ficou com o cachorro Martelo em um dos pátios abertos do lugar.
Mal alcançaram os torreões que se abriam para o pátio da ala oeste, Faldrik e Cenoura ouviram alguém derrubar um fardo de lenha no chão e correr para trás dos pequenos muros que separavam os salões despojados de seus tetos. Eles se esgueiraram e pararam atrás de uma mureta, e o chasind gritou para quem quer que fosse, se revelar. Uma voz grave gritou provocações em resposta, e os dois instantaneamente reconheceram o sujeito grandalhão que surgiu, um machado na mão esquerda e uma maça na direita: era Barteau, um dos salteadores orlesianos que os haviam assaltado e nocauteado na estrada, há algumas semanas!

Ele gritava por combate, e Cenoura lhe deu, investindo com giros de seu grande machado de lenhador. Faldrik se esgueirava para sangrar Barteau pelas costas, atento aos outros facínoras do bando, quando o arqueiro Jaime disparou, de trás de um pilar, uma flecha que ficou enganchada na malha de Cenoura. Como já estava quase saltando no grandalhão, o anão terminou seu movimento e bateu armas com Barteau. O homem precisou ser rápido para defender os golpes de Cenoura, enquanto Faldrik assobiava para chamar Martelo e Fiora e corria em direção ao arqueiro. Jaime disparou e a flecha passou de raspão no colete de couro fervido de Faldrik, que devolveu o tiro arremessando sua adaga e cortando fora dois dedos da mão que segurava o arco. O arqueiro largou a arma e caiu para trás, gritando. Enquanto isso, Cenoura girava a arma descomunal e obrigava Barteau a se defender dos golpes fortes, mas o orlesiano era surpreendentemente rápido, e sobrepujou o bárbaro com sua chuva de lâminas. Um golpe, dois, três e Cenoura estava no chão – com um sorriso sádico, o orlesiano acertou sua grande maça bem na rótula do chasind, esmagando seu joelho com um craque alto!
Enquanto isso, Faldrik levantou seu machado de combate para livrar-se das defesas de Jaime, que sacava a espada, e o instinto foi seu maior erro nessa hora: ao levantar a mão da espada para se defender, a lâmina do anão cravou-se profundamente entre o dedo médio e o anelar do arqueiro, fazendo-o gritar mais ainda. Fiora e Martelo chegaram nessa hora, o cachorro mordendo o ombro de Jaime e a elfa acertando Barteau com um feitiço garra do inverno, congelando seus músculos e forçando-o a flexioná-los para quebrar o gelo. Jaime implorava por piedade, de modo que Faldrik tirou Martelo de perto e o derrubou com uma pancada do cabo do machado na nuca. 
Em seguida partiu para cima de Barteau, mas seus golpes diretos eram pouco efetivos contra a defesa do exímio guerreiro, que devolvia ataques ainda mais rápidos e eficientes, fazendo o anão suar para se defender. A situação era desesperadora! Faldrik gritou para Martelo ir buscar os outros – que podiam estar pior ainda – enquanto Fiora lançava outra garra de gelo, mas o orlesiano era muito forte e Cenoura estava morrendo. Ela decidiu então usar o feitiço que acabara de aprender, o punho rochoso. Fincou seu cajado no chão e arrancou uma enorme rocha do pavimento de Ostagar, fazendo-a flutuar e disparando a pedra com um golpe do bordão. O bólido acertou o guerreiro bem no peito, mas ele firmou os pés e não foi derrubado – a distração abriu sua guarda para Faldrik, porém, e o anão acertou-lhe uma machadada na perna, o sangue jorrando forte. Fiora lançou outra rocha, e dessa vez o guerreiro caiu. O anão, irado, plantou um pé no ombro de Barteau e, com um golpe cruel, fincou-lhe o machado na testa.
Do outro lado de Ostagar, Ser Kenan e Kelsie espreitavam a Torre de Ishal, escondidos atrás dos pilares que antecediam o pátio à frente das escadarias que levavam ao farol. Avistaram uma luz em uma janela superior, e logo depois um homem saiu pela porta da torre para mijar. Era “Ser” Lyon, o detestável rufião que se fizera de servo do Arl Vosyek apenas para enganar os companheiros. Kelsie se afastou, tentando ser discreta, para chamar os outros e lidar com aqueles que estivessem dentro da torre, enquanto Kenan retesava a corda e esticava uma flecha à altura da orelha. Eis que uma pequena bola de fogo veio caindo, arremessada da janela no topo da torre, imperturbável quando Kenan errou-lhe a flechada, e se espatifou no pavimento bem à frente de Kelsie: era uma bomba de fogo! A explosão ígnea destruiu a mochila da guerreira, e provocou-lhe pequenas queimaduras. Surpreso, Lyon correu em carga para atacar a guerreira com suas duas espadas longas, que defendeu vários golpes de espada do rufião. Kenan atirava suas flechas com o máximo de cuidado para não ferir a irmã, que atraía o orlesiano cada vez mais para longe da torre enquanto devolvia seus golpes e o retalhava. Em um golpe de sorte, Lyon usou o próprio escudo para golpear e quebrar o braço esquerdo de Kelsie, forçando a moça a jogar o escudo fora. Outro golpe a desarmou da espada, mas dessa vez a flecha de Kenan foi certeira, atravessando o pescoço do bandido, que foi ao chão inerte.
A situação estava difícil, e eles precisavam das curas de Fiora. Foram até o pátio, onde encontraram Martelo. Correram da melhor forma que podiam, e encontraram Fiora retirando lascas do osso do joelho de Cenoura, após fazer uma atadura apressada nas mãos de Jaime, o arqueiro – a contragosto, já que se fosse por ela, o mataria. Ambos os lados se atualizaram, e ficaram de ir até a torre de Ishal para pegar Fauchard, o líder do bando que ficara lá. A elfa cuidou dos ferimentos de Kelsie, e partiram Faldrik, Kenan e Fiora, deixando a guerreira vigiando Cenoura e Jaime.

No salão principal da torre, os três encontraram sacos de dormir, cordas e outros equipamentos, bem como quatro cavalos. Ouviram sons nos andares de cima, e se esgueiraram pela escadaria que levava ao segundo andar. Faldrik notou um fio estirado no corredor, que levava até o umbral da porta, onde entrava no aposento seguinte – uma armadilha. O anão cortou o fio e Kenan entreabriu a porta, revelando inúmeros barris de vinho que esmagariam os aventureiros caso fossem liberados. Depois de muita discussão sobre como resolver o problema, Fiora perdeu a paciência e mais uma vez lançou seu feitiço do punho de pedra, arrancando pedaços de alvenaria dos degraus e explodindo-os contra os barris. Muitos se perderam – para o desespero do anão -, mas três se salvaram. Ao investigar o aposento, pegaram várias cordas amarradas umas nas outras, presas a um pilar, por onde o líder orlesiano fugira.
Mais tarde, jantando de frente ao fogo no salão principal, Jaime disse que aquele bando era formado por batedores de Orlais, investigando as defesas de Ferelden para algum propósito que ele não compreendia. O grupo discutiu sobre o que fazer com o cativo, que graças a Faldrik encerrara sua carreira de arqueiro, e decidiram por fim levá-lo com eles até poder libertá-lo ou prendê-lo por seus crimes (Kelsie incumbiu o anão de ficar responsável por ele, já que era uma proposta do próprio). Mas ainda havia um problema: o joelho de Cenoura. Fiora precisava de uma placa de ferro para salvar a perna do chasind, e Faldrik acabou tendo que ir à forja para derreter a malha de Lyon, atividade que lhe rendeu uma noite em claro, já que ele não entendia nada de forjaria (a despeito do estereótipo dos anões). Fiora e Kenan conversaram bastante no farol, observando as estrelas, e a elfa negou as investidas do jovem arqueiro nobre, que dormiu sozinho ao relento.
No dia seguinte, Faldrik trouxe a placa e, com o auxílio de magia, Fiora a enxertou diretamente aos ossos do joelho do chasind, despertando-o com a dor lancinante das batidas de martelo. Em seguida eles dividiram a pilhagem dos bandidos e decidiram que precisavam de uma carroça para transportar Cenoura. Faldrik e Kelsie então partiram a toda velocidade para uma aldeia não muito longe, uma pequena comunidade sem nome onde chegaram no fim do dia. Estavam com sorte, e encontraram um mercador que por acaso tinha uma carroça. Compraram, atrelaram a seus cavalos e voltaram com cuidado para não quebrar as rodas, de modo que levaram dois dias para chegar a Ostagar. A chegada acalmou os ânimos dos demais companheiros, já enfadados e apreensivos. Eles enfim partiram daquela fortaleza ancestral, em uma jornada longa e tediosa pela alta e plana Estrada Imperial. Alguns dias depois, já avistavam as terras altas do Lago Calenhad, com as fazendas e moinhos da vila de Lothering, onde fariam uma parada antes do seu destino final, Redcliffe.

Conto – Pequenas sombras da guerra

Empoleirados e tremendo no torreão frontal, os poucos vigias do decadente feudo Erathis notaram que a lua já estava quase cheia novamente. A chuva martelava incessante e furiosamente seus morriões, e o som dos trovões já se confundia com o ronco de suas barrigas vazias. Mal tentavam parecer confiantes quando sua jovem senhora passava. Lady Danna era uma bastarda, e após a morte de seu pai – por envenenamento – poucos ficaram ao seu lado quando os homens do Rei vieram reclamar a terra sem herdeiros. Porém, eram muito poucos para defender um cerco, e a dúvida se aquilo tudo valia a pena aumentava à medida que a comida diminuía.

O reino de Artoria estava em paz há anos, mas disputas internas como aquela não eram incomuns. Era uma nação de homens livres, que pelas Leis do Rei escolhiam os nobres aos quais jurar lealdade, mas na prática acabavam confinados às terras onde nasciam. Uma terra perigosa, onde soldados da glória, mercenários e heróis de vilarejos tinham grandes oportunidades. Mas a maioria dos homens que levantavam uma espada, o faziam para defender a sua terra. Aquele lugar pertencera aos Erathis desde que o herói Victor o tomara, com apoio do povo, de um cruel e tirano barão. O novo senhor era muito melhor que o antigo, e fora amado. 
Agora, os últimos soldados fiéis vacilavam a cada dia daquele cerco miserável. A Coroa agora não só tomaria as terras, como enforcaria a bastarda insurrecta. Ela sabia que o feudo era seu, e seu espírito indômito e jovial dificilmente a demoveria dali. Mas aqueles homens eram apenas velhos teimosos e cansados.
Era difícil ver as dezenas de tendas dos atacantes através das muralhas, obscurecidas com a fumaça dos braseiros que as aqueciam de dentro graças ao aguaceiro. Perto dali, dois viajantes desistiam de tentar fazer fogo. Suas roupas largas e encharcadas eram envoltas em capas escuras, com chapeus de palha e uma camada fofa de palha envolvendo a cabeça. Um era jovem e robusto, com olhos puxados e ouvidos atentos para ruídos meramente distinguíveis da chuva. O outro era, na verdade, uma bela elfa de cabelos platinados, olhos exóticos e claros como um dia de sol, e feições delicadas. Ela tremia, ele era uma rocha.
– Teremos que nos juntar aos gaijin – disse simplesmente o homem, referindo-se aos soldados acampados nas imediações.
O recruta Liam estava farto da vigília noturna e do estúpido cerco, especialmente naquela tempestade. Para ele, era muito mais fácil quebrar os portões e tirar a bastarda geniosa de seus lençois limpos à força, para que as tropas fossem empregadas em demandas que valessem a pena. Afinal, havia mortes mais honrosas que febre do esgoto e fluxo negro, e tratamentos melhores que covas rasas. Nem se importou muito quando um trapo branco foi atirado aos seus pés, indicando uma oferta de paz. Rapidamente fitou a floresta, onde dois vultos o observavam – seu primeiro instinto foi chamar os outros soldados e declarar um ataque, mas ao invés disso perguntou quem eram aqueles intrusos.

O estranho tamuran Reiko e sua protegida Elora partilhavam o fogo – e apenas o fogo, graças ao racionamento de comida – dos soldados. A elfa dedilhava suavemente sua cítara para passar o tempo, mas eventualmente se condolecia dos soldados doentes e feridos e usava neles seus dons curativos e medicinais, em nome de sua deusa. Tinha receio daqueles humanos, que eram perigosos em qualquer ocasião, mas se o fato de ser uma sacerdotisa – e uma feiticeira – não lhes aquietasse as vontades, o porte de seu estoico protetor reforçaria o argumento.

– Qual é o seu destino? – indagou o oficial Fahn, de alta estatura e vultosa barba, mexendo sua sopa rala de ervilhas.
– Norte.
– Onde, no norte?
– Apenas norte – era um homem de poucas palavras, o tamuran.
– Aedris?
– Isso não lhe diz respeito.
Fahn quase engasgou.
Como é?
– Floresta Radelathen – emendou Elora, sabendo no possível rumo desastroso daquilo. – Ouvimos falar que há… pessoas do meu povo lá. 
Elora demorara a aceitar que havia uma floresta com aquele nome em terras humanas. Significava “corte dourada” no seu idioma milenar. O nome a lembrava do Rei Elfo e sua radelathen, que não aceitaram, há pouco menos de um século atrás, ajuda dos homens contra a horda monstruosa que os expurgara de sua terra natal – a arrogância fora a sua ruína. 
Encontrara Reiko à beira da morte há cinco anos, em um lago próximo à cabana onde vivia com seu pai. O vilarejo onde o rapaz cresceu fora dizimado por monstros armados, e pai e filha se identificaram com aquilo. Segurou o jovem pelo tempo que pôde, tentando acostumá-lo à paz que seus ancestrais tanto valorizavam – afinal, eram povos parecidos e antigos, os elfos e os tamuran. Mas os monstros os encontraram, e seu pai os protegeu como pôde com seus feitiços, afugentando o líder das criaturas. Morreu em seus braços, no entanto – ela, apenas uma aprendiz, não conseguiu lidar com aquilo. Seu último alento foi arrancar de Reiko a promessa de que levaria Elora até sua mãe, justamente naquela floresta onde supostamente haviam elfos instalados.
– Entendo – Fahn sorriu ao rosto amolecedor da elfa, mas lançou um olhar feio para o tamuran. – Há todo tipo de fantasmas naquele lugar, e apenas loucos e moribundos penetram suas sombras.
Alguns homens na tenda fizeram sinais religiosos, enquanto outros saíram para a chuva, praguejando. Um cão lambeu a mão de um enfermo perto dali. Elora apenas ensaiou um sorriso educado para com a ignorância daqueles humanos simples.
– Bem, ouçam vocês dois – disse Fahn, levantando. – Pela manhã o barão Kelderic decidirá o que será feito de vocês. Provavelmente serão liberados para seguir seu caminho, mas o protocolo ordena separarmos simples peregrinos de espiões. 
Os dois viajantes se entreolharam.
– De qualquer forma – continuou -, vocês seriam muito mais úteis aqui. Você me parece ser bom com essa estranha espada curva, pelo que ouvi falar dos tamuran. E você, bela senhora, tem dotes divinos, de modo que não preciso dizer mais nada. Pensem nisso, e tenham uma boa noite.
Reiko limitou-se a fitar a saída do oficial. Aproveitou a trégua da chuva e saiu para a noite.
Fahn retirou a malha ao chegar à sua tenda, e se serviu de cerveja. Era mais esbelto que as barbas e modos sugeriam, marcado com as típicas cicatrizes de um veterano. Alguns minutos depois, com a segunda caneca já cheia, olhou para trás e viu Elora na entrada, coberta por uma capa escura. A elfa notou que ele não era muito bonito.
– Perdida, senhora?
– O senhor já mandou um emissário ao barão? – Elora se recostou numa bancada e abraçou a si mesma, com frio.
– Não, o farei ao cantar do galo. Posso saber o motivo da pergunta?
– Não sairemos daqui, não é?
– Sinceramente? – o rosto do oficial era um esgar. – Como eu disse, vocês serão úteis.
– Há algo que eu possa fazer para que deixemos este lugar pela manhã sem muito alarde? – sussurrou a elfa, pensando no tipo de idiotice que Reiko faria ao saber dos planos do barão para eles.
Fahn bebeu mais um gole da cerveja.
Sempre há.

Reiko podia suportar todo tipo de privações e percalços, mas não se sentia nada à vontade perto da sujeira e indisciplina dos gaijin. A brisa fria e solitária da noite chuvosa era mais amigável, com o som tranquilizador da floresta. Elora deveria estar com ele, mas a garota merecia um catre menos deplorável depois de tanto chão duro e salteadores de estradas. Era uma irmã para ele, e o tamuran lhe devia nada menos que tudo.

Pôs-se a pensar na terra de seus ancestrais. Seus padrinhos dragões pouco fizeram para defender Tamura quando a tempestade rubra viera, preferindo apenas levar os clãs para longe em navios soprados por ventos místicos. Ele não sabia, mas pertencia a uma linhagem dracônica dentro de um clã importante de seu antigo lar. Pensou em como seu pai morrera no ataque à sua aldeia – não antes de lhe dar sua espada mágica e o incumbir de restaurar sua honra – e em como fizera outra promessa a outro pai moribundo, de outro povo expatriado.
Foi quando ouviu um leve chapiscar de lama; escondeu-se atrás de uma árvore e aguardou. Em uma fração de segundo, sua katana estava se chocando com o aço de uma espada bastarda. Seu pai e seu irmão mais velho Seru o haviam ensinado a começar e terminar qualquer combate rapidamente, mas ele logo percebeu que aquele guerreiro não era inferior nem superior a ele – e a luta não deveria acontecer. Guardou a lâmina e ergueu as mãos em sinal de paz. Desconfiado, seu oponente continuou com a lâmina em riste, bufando e suando, mostrando os caninos levemente pontiagudos. Ele percebeu, pelos gemidos de cansaço, que se tratava de uma mulher. 
E percebeu, pelo tabardo rasgado, que aquela era Danna, a jovem senhora do castelo sitiado por seus anfitriões.
– Você pode me deixar passar, ou podemos lutar, porque eu não vou me render – seu olhar brilhava com tanta ferocidade quanto a pedra rubra em um pingente que tinha no pescoço, e a outra engastada na empunhadura da espada. 
Era uma jovem muito bonita e altiva, com cabelos negros e olhos amarelados, busto farto sob uma cota de malha, e pernas bem torneadas. Uma beleza selvagem e nobre de guerreira. Alguma coisa nela o intrigava – ele não sabia, mas ela também era uma draconata, uma descendente de dragões, assim como seu pai Victor.
– Deve haver um bom motivo para abandonar seus homens.
Danna

– E há! Eles estão se rendendo, e os cães do rei querem a mim, então eles vão ficar bem. Dá pra sair da frente?

Reiko simplesmente deu um passo de lado e fez uma mesura. A moça saiu correndo, a velha camisa de malha chacoalhando. Mais à frente, um relinchar e um galope afastando um cavalo roubado, enquanto a chuva voltava a castigar os homens.
Pensou em como a vida é curiosa, e voltou para a tenda. Viu Elora ressonando em um canto, armou sua esteira e sentou com a espada à frente, para descansar. Quanto mais olhava o fogo, mais sentia algo familiar naquela mulher. Talvez um dia, caso eles se encontrassem de novo, descobriria o quê.
Este é um conto e ao mesmo tempo um trecho do prelúdio de três personagens, sendo Danna da minha campanha Dragões da Guerra (que infelizmente acabou por conflitos de interesses dos jogadores) e Reiko e Elora da nossa mais longa campanha de fantasia, que estamos prestes a dar um reboot neste ano. A história de Danna pode ser lida aqui, e breve criarei um site para hospedar os prelúdios dessa nova campanha (que ainda não demos um nome formal, sempre chamamos pelo singelo nome de Arton 1 [sim, tinha uma Arton 2 :P]).

Imagens: Thomas Kempkes, Dan Ramos, Martin Faragasso, montagem de Dan Ramos com Gina Carano (divulgação)

Conto – O Rei Acorrentado

Estimados convivas! Agradáveis companheiros de canecas! São bravos em estar numa taverna no fim do mundo em uma gélida e agourenta noite como esta! Sendo assim, vou brindar-lhes com uma boa história, para entreter seus ossos gelados. Seus próprios corações irão julgar se tal narrativa é ou não verdadeira. Pois bem, que a taverneira encha minha taça enquanto dedilho alguns acordes.
Esta é a lenda do amado
e bondoso rei Rorjavik
seus cavaleiros capazes
seus campos vivazes
seu nome adorado
Reza uma lenda antiga de um rei de terras distantes, que viu no inverno cruel seu reino implacavelmente atacado por criaturas míticas das trevas mais profundas. O bondoso Rorjavik pertencia ao milenar clã Bolderon, e era querido e amado por todos os seus súditos. Era um carismático e astuto senhor, grande cavaleiro e lutador, com uma famosa tropa de cavaleiros de grande capacidade. Seus éditos eram justos, suas palavras exultadas e seus campos prósperos. Era uma época de poucos inimigos.
Mas dizem que quanto mais alto é um indivíduo, mais longe vai a sua sombra. E a sibilante traição tocada por ela seria a ruína de tudo.
Ao lado do grande rei, havia uma bela e régia rainha chamada Inara. Suas palavras derretiam os corações dos mais endurecidos guerreiros, e sua visão fazia tropas inteiras quererem lutar por ela. Seu casamento com o monarca era perfeito e apropriado, e conforme fora instruída desde criança, depois de proferidos os votos, o amor viria com o tempo. 
Certo dia, o rei caçava em campos montanhosos repletos de carneiros e alces para nobres e perspicazes caçadores, mas uma outra presa o tomou de chofre: a cintilante forma feminina de uma viçosa jovem de cabelos vermelhos como o fogo, que imediatamente arrebatou seu coração. Rorjavik tinha que ter aquela gazela. Foi ao seu encontro como um sedento no deserto, mas a garota fugiu de seu chamado, galhardia e respeitável presença! Fugia, como uma raposa vermelha dos cães de caça, como o diabo de um servo da luz! O rei a perseguiu por uma curta distância até que ela tropeçou, tombou pela relva, rolou o declive e caiu em um precipício, para desespero de Rorjavik.
Sua alma tomara um sentido e este se fora em um sopetão.
Todas as esperanças arrefeceram dezenas de metros abaixo, quando o rei e sua comitiva encontraram o cadáver. Rorjavik gritou como nunca ao perder sua breve e arrebatadora paixão. Imediatamente mandou todos os homens embora, para ficar sozinho com a sua tragédia.
Inara, porém, havia seguido o rei, desconfiada de suas cada vez mais frequentes evasivas. Ao ver aquele amor imortal, aquele homem em cacos por outra e não por si, ferveu em ódio! O pensamento de que aquele homem amaria qualquer coisa que visse fortuitamente, mas nunca àquela que tinha ao lado todo o tempo, a consumiu como uma enchente. 
“Se este sacrílego não pode ser meu e apenas meu, que não seja de ninguém mais!” Bradou a rainha às pajens, à medida que descobria as escapadelas do fugidio rei. E, em uma noite sem lua ou estrelas, foi à procura de um bruxo nas profundezas de um bosque, chamado Morgsten. Era um profundo conhecedor dos segredos do passado, e também pai da jovem de cabelos de fogo, assassinada pelo descaso daquele que deveria proteger seus súditos. As serpentes comemoraram e os anjos choraram quando aquela dupla conspirou, e na nevasca seguinte, sangue foi derramado e as portas foram abertas.
Esta é a lenda do amado
e bondoso rei Rorjavik
A noite mais negra chegara
e o vento chorara
seu reino arruinado
Foi o cerco mais rápido e macabro de que tive notícia. Em uma noite mais fria do que esta, seres saídos de pesadelos tomaram os campos, varreram as aldeias e se proliferaram nas cidades. Homens e mulheres foram tirados de suas camas ou engolfados pelo caos ululante enquanto bebiam à lareira. Dizem que os gritos foram ouvidos até mesmo em reinos distantes, enquanto as criaturas faziam seus experimentos profanos. Pegos de surpresa, os homens de bem das urzes lutaram, mas não foram páreos para a força dos demônios, e morreram em agonia.
O impávido rei combateu com bravura até o último momento, quando o castelo caiu e as horrendas criaturas laçavam seu corpo com pesadas correntes feitas de aço temperado com ódio e invídia. É dito que Rorjavik fez fronte àqueles que provocaram sua queda – Inara arrependeu-se de seus atos, mas o velho Morgsten fazia questão de lhe rir à desgraça e culpá-lo pela morte de sua filha. Destruído e arruinado, o rei gritou justas palavras de vingança e foi levado ao mais alto torreão de vigília além das montanhas brancas que abraçavam a região. Trancado no último andar da torre, em uma pútrida cela, morreu com os membros agrilhoados com correntes de malevolência, amaldiçoado a ver sua amada terra queimar até que o sol surgisse no horizonte.
De Inara e Morgsten ninguém mais soube, e dos demônios restou apenas a marca negra que transformara o reino em uma chaga perdida.
Esta é a lenda do amado
e ardente rei Rorjavik
Era de vontade forte
nem mesmo na morte
se deixou ser curvado
Do outrora bondoso Rorjavik, sobrava um homem imerso em dor e fúria. Mas sua força de vontade era inabalável, e sua resistência era bravia. O vento tempestuoso cortava e talhava, e o frio era insuportável e tenebroso. Lutou e lutou para se ver livre, mas as correntes espinhosas apenas se cravavam mais em sua carne, ardendo com o terrível frio. No fim, fechou as pálpebras e feneceu. Mas era tão perseverante que, mesmo morto, seu corpo se recusava a definhar, e isto aconteceu muito lentamente. Os tempo passava naquela câmara esquecida, sem conseguir tirar-lhe a carne dos ossos. Uma macabra força ali começava a ser gerada.
Assim, houve um momento onde seus músculos voltaram a se mexer. As correntes que o fustigavam se uniram à sua ressequida pele. O antigo monarca renasceu, nem vivo e nem morto, apenas dor e raiva movendo o seu ser. O rei acorrentado se livrou da prisão e passou a arrastar suas correntes pela torre abandonada, vagando aos tropeços pelos restos calcinados de seu reino, silenciosas colinas tumulares onde uma vez cavalgara em brilhante armadura e grande altivez. Ali ele coletou as cabeças há muito mortas – mas também conservadas, graças ao espírito do rei – de seus cavaleiros, que lhe davam força para continuar. 
E assim os únicos que conheceram sua história foram os poucos pastores que, incrédulos, testemunhavam a visão assustadora ao se aventurar em terras ermas, e sobreviviam para informar que era um antigo rei desmorto. A lenda ganhou contornos mias sólidos recentemente, enquanto um bando de aspirantes a heróis descansava nas ruínas do que fora seu soberbo castelo, agora cheio de porões escuros e malcuidados. Seu sangue se tornou água ao vislumbrar aquela assombração terrível, prestes a dar cabo deles. Cabelos ralos e trapos, decrepitude e a face exposta da morte, com correntes negras e enferrujadas girando como fantasmas crueis. Daquele infortunado grupo, com verdade nas minhas palavras, sobrevivera apenas um, fugido com o rei em seu encalço.
E este pobre diabo está aqui, deixando vocês a par do que está para acontecer. Esta noite, enquanto bebemos e ouvimos, está vindo 
o Rei Acorrentado.
PS.: esta criatura surgiu primeiro na Dragonslayer 07, cujo autor do texto original é MEDC.

Conto – Reflexos

Este é o último conto sobre Sir Drakkan, vilão redimido de uma campanha que narrei há alguns anos, um personagem que gosto muito. Aqui, ele começa a questionar certas verdades na sua vida. A história dele pode ser melhor entendida neste conto.


Darius Drakkan não conseguia dormir. Era um leito confortável, em um aposento bem aquecido do maior castelo sob seu domínio, com uma aquecedora de camas qualquer ao lado e o melhor vinho que sobrara no reino em guerra. Mesmo assim, o sono não vinha. Viajara sete léguas, por entre abismos e florestas, desafiando senhores que não passavam de garbosos ostentadores de lanças que já viram dias melhores. Nunca se vira tão só.
Nascera da lama e cavara sua própria glória. Sagrado cavaleiro, serviu por anos ao Santo Reino de Bielefeld, sob a balança de Khalmyr, Senhor da Justiça. Mas seu maior tesouro veio do inimigo, na forma de uma druidisa de coração ardente saída de uma terra bárbara. Mas aqueles eram dias desleais, e sua própria fé o destruiu: sua família ardeu na fogueira. Seu próprio senhor salgou suas terras e tentou lhe tomar a vida. Perdeu sua sela e sua espada, seu castelo e sua princesa. Escorraçado como um cão, encontrou a virtude nas mãos de outro reino inimigo, que já fora parte de Bielefeld mas se emancipara à espada. Portian o acolhera como um filho pródigo, lhe alimentara, vestira para a guerra e lhe dera homens para a sua vingança. O escudo talhado de branco e prata com barra e dois leões vermelhos agora era um leão dourado rampante em campo branco e azul.

Vestiu as peles e foi até a sacada, contemplando mais uma vez a combalida cidade na noite gelada, silenciosa exceto por um latido ou cantiga ao longe. Além da muralha, as planícies manchadas cuja neve não havia conseguido ainda devolver a brancura. Muitos perceram naquele cerco sangrento, chafurdando na lama sinistra da guerra, agonizando por semanas em uma tensão infindável. Túneis eram cavados para transpor os muros, combatidos com espadas, balestras e feitiços do inimigo. Flechas voavam por nada, doenças matavam mais rápido que os parcos curandeiros conseguiam trabalhar, os ânimos em frangalhos enquanto o assédio se arrastava. Mas poucos deserdavam, porque viam seu líder inabalável à vanguarda de batalha, muito diferente dos empolados cavaleiros felden. De fato, Drakkan angariava simpatizantes por onde passava, camponeses e senhores menores desejando uma vida mais justa – muitas cidades se renderam sem luta. Bielefeld, cortado ao meio por uma cadeia de montanhas, vira sua porção oriental ser conquistada em um ano. Norm, a cidade que sediava a pomposa Ordem da Luz e onde ironicamente tudo começou, era a única que ainda resistia no leste.
Decidiu caminhar pelos corredores. O frio era um bom companheiro, já que combinava com seu estado de espírito, e o lembrou de uma noite no castelo do conde de Benagore, durante uma nevasca que o surpreendera em campanha. Deixou os cortesãos desconfortáveis ao lotar o salão com seus homens, mercenários contratados para escaramuças de fronteira. Festejava vinho e comida sem se importar com olhares perniciosos e cochichos velados, esquentando o corpo no cadeirão imponente do conde. Seu anfitrião era um homem intimidador, um bastardo que rachara o crânio do pai depois de tomar-lhe as terras com uma tropa de lenhadores e patrulheiros, que achava graça do rebuliço da noite. Subitamente o fogo se apagou e as portas abriram de sopetão. Os homens foram às armas, mas o frio agarrou seus corações com garras cortantes e eles paralisaram com o vislumbre da figura tenebrosa à entrada do salão. Era um homem, mas parecia mais um fantasma enrolado em mantos sinistros, uma mão esturricada segurando um cajado de madeira negra. Darius demorou mas reconheceu aquela face. A conhecia da época que sua espada era jovem e sua prata era efêmera. Era o mago Belchion, um antigo amigo que retornara com o toque da frialdade e uma proposta irrecusável.
Belchion lhe dera quatro mil orcs. Normalmente recusaria aqueles monstros, mas ainda eram guerreiros robustos e dispensáveis, uma ferramenta necessária para sua vingança. Muitos dos seus guerreiros recusaram imediatamente lutar ao lado da escória de pêlo cinzento e presas salientes, inimigos centenários de feldens e portianos, mas o apoio dos mais fieis converteu boa parte dos homens relutantes, que o seguiram, enquanto os outros guarneciam regiões conquistadas. Certo dia Leona, sua primeira filha vinda de um amor mais antigo e impossível, regressou de suas viagens liderando um pequeno bando de mercenário, que jurou servi-lo em sua causa. Mais tarde, Drakkan descobriu que ela tinha um irmão gêmeo, um varão para continuar o legado que ele conquistaria. Conseguiu abrir seus olhos e trazê-lo para junto de si, junto dos seus próprios companheiros de viagem, que acabaram simpatizando com suas motivações. Darius começava a ter esperanças de que a corrupção no poder e nas ordens de cavalaria daquele reino seria expurgada, e as coisas começariam a mudar.
Agora, Norm era o objetivo final. Os cavaleiros khalmyritas da Ordem da Luz se juntaram ao clero e a alguns fidalgos e de alguma forma fugiram da cidade, segundo os rumores. Seus homens encontraram passagens em ruínas subterrâneas, devidamente fechadas com feitiços, para evitar que a cidade fosse invadida pelo mesmo caminho usado pelos gloriosos servos da justiça para abandonar seu povo. A poucos dias de viagem estava Carnagh, um dos reinos bérnios, de bárbaros que resistiam à dominação felden ano após ano. Viúvo de uma druidisa cárnaga, Drakkan era amigo daqueles homens. Tarn, o rei, mandara seus homens e druidas, que retorceram os portões da cidade, secaram os fossos e instaram as próprias árvores para atacar os arqueiros nas ameias. A fúria sobrepujou o medo, e o leão foi hasteado em Norm.
Agachou num pátio e tomou na mão um pouco de terra e neve. Tanta paixão, tanto ardor, tanto desejo de vingar a dor sofrida, tantos que o aclamavam. Tinha ainda coração? Ainda lembrava o propósito de tudo aquilo? Não sabia onde acabava seu desejo genuíno de destruir a maldade naquela terra e começava o ódio vingativo se tornara uma chaga na sua alma. Se perguntou quando as coisas lhe fugiram do controle, com comandantes mesquinhos queimando, massacrando, saqueando e estuprando em seu nome. As alianças separatistas que lhe mendigavam honrarias em um novo regime culminavam em vilões que ele mesmo tinha criado, provavelmente fazendo outros sofrerem o mesmo que ele. A Igreja de Khalmyr entrava em uma cisão bem no meio da sua guerra, com os portianos progressistas indo de encontro à facção ortodoxa de Bielefeld. E ainda haviam os boatos de que demônios e criaturas ainda mais bizarras, saídas de dimensões de pesadelos e infiltrados entre seus homens, para atormentá-lo. Os fantasmas dos mortos, das noites perdidas e do questionamento sobre a valia de tudo aquilo continuavam assombrando aquele homem. Sangue demais nas suas mãos, espesso e podre. Sua alma jamais seria limpa.
Trocaria tudo por um pouco de paz. Sua vontade se esvaía como a terra e a neve por entre seus dedos. Não deixaria o serviço pela metade, mas nunca mais teria a consciência leve. Mal notou quando Belchion se aproximou.
Darius – a voz sepulcral.
– Meu velho amigo – respondeu, sem tirar os olhos do chão.
O que o aflige?
Drakkan deu um breve e amargurado sorriso. Pensou um pouco, e decidiu quebrar o silêncio.
– O que estamos fazendo, Belchion? Até onde chegamos?
Seja mais específico.
– Quanto sangue precisa ser derramado para que a justiça seja feita? Até onde estamos dispostos a ir para destronar Hederick I? Destruir sua família e tantas outras, deixar este reino em ruínas apenas para reconstruí-lo e ainda ter de lutar contra as tentativas de dominação do Velho Abutre?
De fato, o rei Ferren quererá uma boa parcela do butim. Afinal, foi Portian que o acolheu no passado, e ele jamais forneceria os homens que engrossaram nossas fileiras por acaso.
– Pelos deuses, Belchion – sua voz ia de angústia a irritação. – Não é com ele que me preocupo, e sim com o peso da minha espada. Já há muito não sei se estou fazendo o certo, e não sei se a trilha de corpos é justa.
Não seja dramático, Darius. Você está agindo tal qual um garoto na frente de uma mulher. Está envergonhando o homem que você já foi. Já deu o primeiro golpe, e Bielefeld está sangrando. Você é um idiota se está pensando nisso agora.
As palavras de Belchion saíam desprovidas de respeito ou emoções, porém mais severas do que o habitual, e caso não estivesse com crescente resignação, Drakkan se perguntaria se ainda restava algo de seu antigo amigo ali.
– Não sei o que nos tornamos – Os dentes estavam cerrados. – Sequer sei o que você se tornou.
Não cabe a você saber. Vim aqui apenas para encerrar nossa breve e proveitosa parceria. Minhas obras em Kelgroth estão concluídas, e a maioria dos meus orcs voltará para lá. Deixarei uma pequena parcela de subordinados aquartelados naquele buraco onde estão agora. 
Os dois se olharam brevemente. Drakkan estava menos surpreso do que achava que ficaria.
Como você está com a fraqueza da carne, aviso de antemão que não cruze nunca meu caminho. Adeus – e se foi.
A Drakkan coube apenas matar um rei bárbaro de presas enormes dentro da sua fortaleza nas montanhas centrais de Bielefeld, um lugar chamado Kelgroth, e assim convencer os orcs a aceitá-lo como seu general. Assim, Belchion lhe concedeu ajuda mágica, conselhos e estratégias úteis, e acima de tudo o medo necessário para que as criaturas fossem obedientes, enquanto ele mesmo ordenava parte delas a escavar algo entranhado nas montanhas. Não era mais da conta do cavaleiro, pelo visto, e agora ele tinha mais um peso nos ombros – teria sido responsável pelo despertar de algum mal terrível? Logo saberia.
Mas agora não. Agora ele deveria voltar para os aposentos e tentar esquecer-se de tudo por um momento, até que o inverno acabasse e ele pudesse terminar a sua guerra.
Imagem: Viktor Vasnetsov